Revirando alguns rascunhos antigos no Pages, encontrei anotações da minha primeira aula de Filosofia Escolástica, em 2024. Lembro-me de que, logo na primeira aula, antes mesmo de se apresentar, a professora fez uma pergunta que silenciou a sala:
“Vocês sabem por que existe algo em vez de nada?”
Seguiu-se um silêncio que misturava espanto e constrangimento. Ninguém respondeu. Naquele momento, ainda não compreendíamos a profundidade daquela pergunta. Com o tempo, porém, percebi que ela desvela a um dos problemas mais fundamentais já formulados pela razão humana.
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Estamos acostumados a perguntar pela razão de determinada coisa existir, seja uma nuvem, uma estrela, um animal ou um objeto. Desde cedo, buscamos conhecer suas causas, sua origem e as condições que tornaram sua existência possível. No entanto, raramente consideramos a hipótese de que nada existisse. Tudo o que observamos nasce, muda e desaparece.
Essas características do mundo manifestam aquilo que a filosofia escolástica chama de “contingência dos entes”, isto é, o fato de que as coisas que encontramos na realidade poderiam não existir e dependem de condições distintas delas mesmas para existir. Um planeta poderia jamais ter se formado; uma espécie poderia nunca ter surgido; uma pessoa poderia nunca ter nascido. Quando esse raciocínio é aplicado ao todo que observamos, qual seria a explicação de sua existência?
A cosmologia moderna descreve com sucesso a evolução do universo desde um estado extremamente quente e denso, há cerca de 13,8 bilhões de anos. Explica a expansão cósmica, a formação das partículas elementares, dos átomos, das estrelas e das galáxias. Trata-se de uma das maiores conquistas intelectuais da humanidade.
Ainda assim, mesmo que descobríssemos cada detalhe desse processo, permaneceria uma pergunta anterior: por que existe esse universo?
Há, portanto, uma diferença essencial entre explicar uma transformação e explicar a existência daquilo que se transforma. Descrever como uma árvore cresce implica a existência da semente, da matéria, das condições ambientais e das leis naturais que tornam esse processo possível. Similarmente, explicar como o universo evoluiu admite que o próprio universo já exista, uma vez que toda explicação sobre suas transformações parte de uma realidade previamente dada.
Uma das áreas que tenta responder a essas perguntas é a metafísica. Ela investiga o que significa existir, o que é uma causa, por que existem leis da natureza e como é possível que a realidade seja compreendível à razão humana.
Aristóteles não respondeu diretamente à pergunta “por que existe algo em vez de nada?”, tal como ela seria formulada posteriormente por Leibniz. Contudo, sua metafísica abordou indiretamente essa questão ao defender a eternidade do universo e demonstrar a necessidade de um “Primeiro Motor Imóvel” como fundamento último do movimento e da atualidade do cosmos. Para Aristóteles, o Primeiro Motor é ato puro, não sujeito a mudança, e constitui a causa última que explica o movimento sem depender, ele próprio, de outro motor, uma vez que o nada absoluto é uma impossibilidade ontológica.
Afinal, para que o "nada" fosse uma alternativa real ao "algo", seria preciso que o não-ser possuísse o poder de impedir o ser, ou que a própria realidade pudesse emergir do vazio. Como o nada é a ausência completa de propriedades e de potência, ele não pode gerar, causar ou servir de ponto de partida para nada, validando o princípio clássico de que ex nihilo nihil fit (do nada, nada surge).
Entretanto, mesmo diante da eternidade do cosmos, a filosofia posterior identificou, tal como o próprio Aristóteles em sua época, que a perenidade do mundo não esgota a necessidade de uma justificação para a sua contingência. Imaginem uma lei matemática que afirmasse existir uma sequência infinita de números negativos. A sequência não teria um primeiro número, mas ainda precisaríamos compreender o porquê de essa estrutura existir como possibilidade inteligível.
É nesse horizonte de questionamentos que emerge o conceito leibniziano do Princípio da Razão Suficiente, segundo o qual tudo o que existe possui uma razão para ser como é, em vez de ser de outro modo ou não existir. Se questionássemos, por exemplo, sobre a existência de uma casa exatamente em determinado lugar e com uma configuração específica — em vez de estar localizada em outro ponto ou sequer existir —, a resposta demandaria uma série de fatores explicativos, pois a estrutura geométrica não surgiu de maneira fortuita. Há uma cadeia causal que justifica sua existência e suas características singulares.
O mesmo raciocínio se aplica à hipótese de um multiverso. Se admitíssemos a existência de incontáveis universos, a pergunta metafísica seria deslocada para uma escala maior, permanecendo válida para o conjunto inteiro: por que existe esse macro-sistema de realidades em vez de nada?
Ao contrário dos filósofos perenes, a corrente misterianista defende que a mente humana possui limitações cognitivas que a impedem de resolver certos problemas, assim como um gato nunca compreenderia cálculo. Muito influenciados por conceitos kantianos, os misterianistas entendem que perguntas como “por que existe algo em vez de nada?” ou “o que é a consciência?” estão simplesmente além da nossa capacidade de processamento.
Outra objeção comum nessa linha argumentativa é a do agnosticismo estrito, posição segundo a qual não possuímos evidências suficientes para saber coisas incognoscíveis. Existe também o “finitismo explicativo”, defendido de maneira semelhante por filósofos como Bertrand Russell, que sustentava que o universo é um “fato bruto”, sem uma necessidade específica para existir.
Independente das teses filosóficas, a permanência dessa pergunta até os dias atuais torna essa questão quase paradoxal. Parece que, quando mais fundamental é uma pergunta, menos ela envelhece diante do progresso tecnológico. Se perguntássemos hoje qual é a composição química de uma estrela, a resposta poderia mudar radicalmente em oito séculos. Agora, se perguntarmos o que significa dizer que essa estrela existe, a quantidade de conhecimento astronômico disponível altera enormemente nossa descrição da estrela, mas não muda a questão ontológica. Embora sejam áreas distintas de estudo — física e metafísica — a reflexão sobre esses assuntos nos mostra que conhecer mais sobre algo não é automaticamente compreender o que significa que esse algo exista.
Por isso, talvez a maior lição dessa indagação imperecível seja que a existência de algo representa a própria condição de possibilidade para toda a busca pelo conhecimento. Antes de qualquer descoberta, teoria científica ou demonstração filosófica, impõe-se um dado intrínseco: o Ser é. Toda investigação racional humana pressupõe, necessariamente, essa realidade primordial, pois dela depende, em última instância, a inteligibilidade de tudo o que existe.
