À La 24: A Lente Do Estúdio Sobre O Cinema De Terror

 




A renomada A24, conhecida por produzir e distribuir obras cinematográficas inusuais, construiu uma sólida reputação na indústria do audiovisual nos últimos dez anos. Com um portfólio diverso que abrange desde dramas psicológicos até comédias ácidas, seus longas-metragens desafiam as convenções do gênero e convidam o público a experienciar além de sua redoma de conforto. Aproveitando o mês do Halloween, listarei meus momentâneos prediletos de terror do estúdio, levando em consideração tanto os selos de distribuição quanto os de produção.



1. Hereditary 


Hereditary
 explora um macabro conceito de maldição herdável dentro da família Graham. O falecimento da matriarca Ellen age como um catalisador para uma série de acontecimentos caóticos que desenrolam as vidas de seus descendentes. A luta de Annie para lidar com seu próprio passado traumático, aliada às suas relações tensas com seu marido e seus dois filhos, forma o cerne do conflito que impulsiona a narrativa. A esplêndida atuação de Toni Collette amplifica a profundidade emocional e incorpora uma camada de realismo aos perniciosos seguimentos sobrenaturais

Ari Aster emprega simbolismo visual e prenúncios sutis para intensificar o clima escalofriante. O motivo recorrente da utilização das “efígies” desempenha um papel simbólico crucial, representando a falta de controle que os personagens têm sobre suas próprias vidas, refletindo assim os temas de destino e inevitabilidade de maneira acentuada. 

Os eventos de Hereditary reforçam como o horror é um dos melhores gêneros para se abordar a natureza humana. A figura de Paimon transcende a função tradicional de um demônio sobrenatural. Ele representa também desintegração da unidade familiar, temores da maternidade e a dificuldade de superação dos enlutados.



2. The Witch


Ambientado na Nova Inglaterra do século XVII, The Witch segue uma família puritana banida de sua comunidade e forçada a buscar refúgio em um vilarejo circundado por uma floresta sombria. À medida que a desconfiança coletiva se instaura e os recursos tornam-se escassos, eles são lançados em um rebojo de histeria. Enquanto os personagens defrontam seus segredos, o filme explora a linha tênue entre a realidade e a imaginação, assim como os terrores que podem surgir quando essa linha é borrada. 

O roteiro sutilmente tece a crescente paranoia que envolve cada membro familiar, questionando não apenas a presença de forças sobrenaturais mediante a bruxa ou o tenebroso Black Phillip, mas também suas fundações fideístas e nossa psique diante do desconhecido. 

O desgaste psicológico sofrido por Thomasin, decorrente do puritanismo alienado, a leva a questionar seus preceitos em meio a uma jornada sobre religiosidade, culpa, ressignificação e dispersão da inocência. Com a imersiva cinematografia de Jarin Blaschke e a meticulosa direção de Robert Eggers, The Witch apresenta-se como uma tapeçaria de significados.


3. Midsommar 


O segundo longa-metragem de Ari Aster transporta o público para um ensolarado lugarejo na Suécia. Lá, seguimos os desdobramentos de um grupo de amigos dentro da estranha comunidade Harga. Os personagens aos poucos são envolvidos em uma espiral de rituais pagãos perturbadores que desafiam suas percepções morais e empurra-os para uma insólita seita. 

A entrada de Dani em Harga é paralela à exploração de seu próprio subconsciente. Seus embates emocionais encontram ressonância nas práticas da comunidade, servem como manifestações alegóricas de sua turbulência interna. As cerimônias refletem seus estágios de cura e crescimento, mostrando o processo de abandono do “antigo eu” depressivo e adoção de uma nova perspectiva a partir da superação de seu conturbado passado. 

O luminoso clima subverte os tradicionais elementos do horror. A interação entre a claridade aparente e a escuridão subjacente, cria uma atmosfera especiosa; traz consigo uma percepção de que o mal pode emergir até mesmo através das coisas mais belas. Em Midsommar, não há bruxa sombria da floresta, bode satânico ou demônio Paimon, mas sim, humanos; pessoas sectaristas que evidenciam o quão perversa nossa espécie pode ser.


4. Pearl


Pearl é a história de origem da personagem título que ficou em evidência após o êxito de “X”. Dirigido por Ti West e co-escrito por Mia Goth, a trama nos guia pela trajetória de uma jovem que sonha com os palcos, mas a dura realidade que a cerca, com uma mãe supressora, pai enfermo e responsabilidades em sua fazenda, faz com que seu único público seja os animais aos quais ela tanto despreza. 

A deterioração emocional da protagonista (simbolizada pela cabeça de porco apodrecendo na varanda) é equivalente à intensidade das cenas de violência gráfica. Para Pearl, cada suspiro ecoa frustrações sufocadas, desejos que se desvanecem em um mar de anseios não realizados. O monólogo final foi um ato de despir seu perturbado estado emocional, como se cada palavra fosse um botão sendo desabotoado. A performance formidável de Mia Goth entrega uma interpretação repleta de camadas com traços psicopatológicos que acenam para o DSM-5. 

O estudo de personagem empreendido em Pearl impacta o gênero de maneira significativa, coloca Pearl como uma das melhores vilãs da história dos filmes de terror.


5. Lamb


Classificar o islandês Lamb como terror pode parecer à primeira vista inadequado, visto que o longa dirigido por Valdimar Jóhannsson trilha por caminhos oníricos. Contudo, entendendo que o horror está mais relacionado ao sentimento que nos é inerente do que os formulaicos, Lamb mostra-se como um conto intrigante ao examinar o inexplicável de forma simbólica e sugestiva. 

A trama gira em torno de um casal de fazendeiros que vive em uma longínqua área da Islândia. Sua vida tranquila é interrompida quando uma ovelha dá à luz a um ser híbrido humano-cordeiro. A alegoria por trás dessa criatura permite diversas interpretações, abordando temas que vão desde a busca de autocompreensão e pertencimento – até a exploração dos limites da empatia e da aceitação. 

A fotografia austera, capturando as vastas paisagens islandesas, contribui para um sentimento de beleza e estranheza. O filme não se preocupa em oferecer respostas claras, deixando muitas questões para reflexão. Transitando entre terror psicológico, drama, folk horror e o fantástico, Lamb é uma experiência introspectiva com um desfecho consternante que desvela o quanto visceral pode ser a soledade humana.


6. The Blackcoat's Daughter


Em
The Blackcoat's Daughter, duas alunas são deixadas sozinhas em sua escola católica durante as férias de inverno, quando seus pais misteriosamente não conseguem buscá-las. Enquanto Rose e Kat experimentam ocorrências cada vez mais estranhas, acompanhamos paralelamente a história da enigmática Joan. O filme se desenvolve por meio de uma alternância entre diferentes momentos no tempo, revelando de forma não linear os eventos que culminaram à pérfida situação envolvendo o trio principal. 

A atmosfera densa é acentuada pela trilha sonora minimalista, como se ecoasse um mau presságio. O cenário, coberto de neve e desértico, auxilia para uma sensação de desolação. A quietude nas falas em muitos momentos intensifica a áurea lúgubre que permeia o ambiente. 

A película utiliza manifestações demoníacas para abordar a depressão, solidão e vazio existencial diante da efemeridade da vida. The Blackcoat's Daughter trafega metaforicamente por uma ímproba busca de sentido de sua protagonista. A jornada de Kat ressoa como um lembrete de que muitas vezes o processo de autoaceitação e busca por propósito pode ser mais sombrio do que aparenta.


7. Bodies Bodies Bodies


Em uma mansão afastada, um grupo de jovens decide entreter-se com um jogo de mistério de assassinato. A diversão se transforma em caos quando as luzes se apagam e um crime ocorre. 

A similitude da sinopse de Bodies Bodies Bodies com os livros de Agatha Christie não é por caso, uma vez que a roteirista Sarah DeLappe usou a Rainha do Mistério como um de suas referências. O enredo segue a estrutura clássica do estilo “whodunit” de Christie e conversa sobre temas como o uso excessivo das redes sociais e a complexa interação entre a tecnologia e as relações humanas. A queda de energia é habilmente usada como uma metáfora para a sensação de perdição e sufocamento, destacando como a ausência da tecnologia pode ser equiparada, para os jovens, à perda de algo tão vital quanto o próprio ar. 

Os diálogos enervados perecendo serem retirados de threads do Twitter acrescenta um tom por vezes satírico, mas igualmente de tensão contínua, pois, além de terem que lidar com um perigo à espreita, precisam enfrentar seus próprios temores psicológicos. Bodies Bodies Bodies é retrato geracional que, dentro de seu próprio ângulo, cumpre bem o que se compromete.


8. Green Room


Lançado em 2015,
Green Room narra a jornada de uma banda de punk rock que se vê em uma situação desesperadora após testemunhar um assassinato nos bastidores de um clube controlado por skinheads neonazistas. Cercados por uma série de eventos trágicos, os personagens são levados ao limite para garantir a própria sobrevivência. Patrick Stewart assume o papel de Darcy Banker, o líder perverso da gangue, entregando uma atuação lacônica, porém intimidadora. 

Desde as cenas iniciais até o clímax, a predominância de cores escuras como verde-escuro, marrom e cinza contribui para estabelecer uma atmosfera opressiva. Essas tonalidades escuras e, por vezes, opacas, estão em consonância com a ideia de um espaço confinado e claustrofóbico. A escolha cuidadosa da paleta de cores e trilha sonora, demonstram um acerto notável. 

O filme imerge o espectador em um ambiente inóspito ao explorar a brutalidade da luta pela vida. O clima hostil criado pela simetria da mise-en-scène é competente ao transmitir uma sensação de aflição e desespero enfrentada pelos personagens.


9. Talk To Me


Juventude, festa, objeto amaldiçoado, jogo macabro, espíritos malignos, possessão. Num primeiro olhar, a síntese enredada de clichês de
Talk To Me pode afastar o público, mas a abordagem inventiva confere palpabilidade às ações inconsequentes dos personagens, adiciona originalidade aos tropos há muito estabelecidos. 

Os talentosos irmãos Danny e Michael Philippou dirigem a produção de forma astuciosa, adentram nas profundezas da personagem Mia e expõe as consequências emocionais da lacuna dolorosa deixada pela morte de sua mãe. A compreensão gradual da situação desolante em que a protagonista se encontra se solidifica de maneira impactante durante uma sequência de cenas genuinamente agonizantes no início do segundo ato. A representação da mão embalsamada como uma alusão às drogas torna-se nítida ao conectar-se com conceitos como escapismo, euforia passageira, vício e os inerentes consectários negativas provenientes do seu uso. 

O conceito de jovens assombrados por um artefato maligno é revitalizado. Ainda que Talk To Me não represente uma transformação de paradigmas, o filme se sobressai ao abraçar seus temas de maneira perspicaz, demonstrando que os elogios recebidos no Festival Sundance foram merecidos.


10. It Comes At Night


It Comes At Night 
se passa em um mundo pós-apocalíptico onde uma ameaça desconhecida causou o colapso da sociedade. Uma família vive reclusa em uma casa na floresta, adotando medidas rigorosas para evitar a contaminação. Quando outra família busca refúgio com eles, a dinâmica entre os personagens se torna o ponto central da narrativa. 

Nesta realidade devastada pela ruptura da ordem, o diretor Trey Edward Shults nos leva a um lugar soturno, com os personagens sendo forçados a enfrentar não somente ameaças externas, mas também seus próprios instintos mais primitivos. As incertezas mútuas entre as duas famílias refletem a complexidade das interações humanas em situações de recursos exiguos, onde o temor do incognoscível é constante. Como o renomado escritor português José Saramago certa vez observou: “É em momentos de extrema dor e angústia que notamos o animalzinho que somos”

It Comes At Night é uma obra que deixa os expectadores com questões sobre a natureza da confiança, a fragilidade da civilização e a escuridão que surge quando confrontamos com o inexplorado.