No livro Sagrado e o Profano (1956), Mircea Eliade demonstra como as culturas humanas, desde as sociedades mais arcaicas, organizam a realidade a partir da diferença entre o “sagrado” e o “profano”. O profano seria aquilo que ocupa o fluxo habitual do dia a dia. O sagrado, por sua vez, irrompe nesse fluxo e lhe confere sentido. Essa oposição estrutura a percepção do espaço, a experiência do tempo e a compreensão que o ser humano tem de si e do mundo.
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Daí emerge a ideia de “centro”, que Eliade descreve como “axis mundi”, isto é, o eixo que organiza o cosmos e confere direcionamento à experiência humana do sagrado. Esse centro constitui um ponto de interseção no qual o mundo terreno se abre ao transcendente. Por meio dele, estabelece-se uma comunicação simbólica entre o céu, o mar, a terra e, em certas tradições, o mundo inferior.
Na Mesopotâmia, o templo era visto como o ponto de conexão entre céu, terra e submundo. No Egito Antigo, a relação entre o Nilo, o deserto e os templos expressava o contraste entre ordem e caos, com o templo funcionando como espaço de estabilização e renovação dessa ordem. Entre os hititas e outros povos do Oriente Próximo, colinas sagradas serviam como pontes entre o humano e o divino, centros em que a presença dos deuses se manifestava.
Em crenças celtas pré-cristã, certas paisagens naturais funcionavam como pontos de manifestação de entidades diversas. O rio Sena, por exemplo, estava associado à deusa Sequana. Em suas nascentes foram encontrados santuários com oferendas votivas. Já no rio Tâmisa, foi achado um grande número de artefatos arqueológicos que remontam ao período da Inglaterra pré-romana. Esses vestígios indicam que os rios eram entendidos como entidades capazes de manter uma relação de reciprocidade com a comunidade.
O tempo, segundo Eliade, obedece a uma lógica análoga. Distingue-se o tempo profano, linear e desgastante, do tempo sagrado, que os rituais tornam presente novamente. Ao participar de um rito autêntico, o homem torna presente um evento primordial, reinscrevendo-o no agora e rompendo a sucessão indiferenciada dos instantes, o que lhe permite acessar uma dimensão mais densa da experiência.
Nesse contexto, os mitos funcionam como modelos arquetípicos que orientam a ação. Toda atividade significativa — construir, plantar, casar ou celebrar — remete a gestos primordiais realizados no início dos tempos. Quando a existência se alinha a esses modelos, adquire consistência e profundidade; afastada deles, tende a se dispersar e, com o tempo, esvazia-se de sentido.
O autor observa que, mesmo no mundo moderno, continuamos a criar centros de orientação e rituais simbólicos, sejam ideologias políticas, marcas comerciais, cerimônias empresariais e narrativas de progresso. A diferença reside na falta de consciência. Agimos de forma simbólica, mas como se habitássemos um mundo sem encantamento.
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Essa tese nos conduz a uma questão mais profunda: a questão entre sagrado e profano seria apenas uma construção da mente humana, moldada por necessidades culturais, ou corresponderia a uma estrutura mais fundamental que simplesmente reconhecemos? Seria algo que criamos ou algo que descobrimos?
A ideia de que essas categorias seriam meras projeções psicológicas costuma apoiar-se na premissa de que apenas o que é diretamente mensurável possui pleno estatuto de realidade. Esse pressuposto, porém, expressa uma posição epistemológica específica sobre os limites do conhecimento científico, e não uma conclusão necessária de sua prática.
A própria prática científica depende de elementos que escapam à observação direta e são indispensáveis para tornar o mundo entendível. Conceitos como número, leis da natureza, causalidade e estrutura lógica tornam possível qualquer descrição racional coerente do real. Mesmo a teoria da evolução exige uma arquitetura conceitual abstrata para ser compreendida.
Reduzir o tema a uma simples ilusão cognitiva esbarra igualmente em dificuldades lógicas. Se toda distinção conceitual fosse somente projeção mental, então a própria distinção entre projeção e realidade também seria uma projeção. Isso cria uma regressão autorreferente que compromete o critério de validação da tese.
Nesse caso, a linguagem perde a capacidade de diferenciar níveis de descrição, e qualquer explicação consistente, inclusive a naturalista, torna-se instável. Uma teoria que dissolve todas as distinções acaba por dissolver também as condições que permitem formular teorias.
A atividade intelectual humana tem origem nas representações sensíveis, de modo que a imaginação exerce papel mediador no início do conhecimento, embora não permaneça necessária em todos os seus atos. Ao pensar em um quadrado, a mente pode recorrer a uma figura geométrica, mas suas propriedades não dependem dela para serem verdadeiras, sendo apreendidas pelo intelecto enquanto universais. O mesmo se dá na compreensão da natureza, pois, ao entendermos o ciclo da água, utilizamos imagens, ainda que o fenômeno exista independentemente delas.
Nossa imaginação atua, portanto, como mediadora no processo cognitivo, sem gerar seu conteúdo de maneira automática. Isso evidencia a diferença essencial entre as criações da mente e aquilo que ela efetivamente descobre. Torna-se claro ao considerarmos exemplos como a “fada do dente”, figura elaborada a partir de elementos já disponíveis na experiência e orientada por fins culturais específicos, ou ainda Harry Potter, concebido por J. K. Rowling como resultado de um ato imaginativo que organiza e dá forma a esses modelos. Tais personagens poderiam existir ou não sem qualquer incidência sobre a estrutura da realidade.
Nota-se que, em muitas das tradições descritas por Eliade, o sagrado está inserido em respostas humanas a uma ordem igualmente objetiva, ainda que apreendida de modo incompleto, fragmentário e por vezes misturado a erros. Se a mente humana é um portal para verdades matemáticas, por que haveria razão para excluir o sagrado dessa percepção? Suas diversas faces na história são, possivelmente, ensaios inacabados de apreensão de um mistério que nos sobrepuja.
A leitura dessa obra deixou-me com muitas reflexões e uma convicção: não conseguimos viver num mundo indiferente. Precisamos de centros que orientem, de ritmos que qualifiquem o tempo e de momentos densos que deem direção à existência. Mesmo sem plena consciência, vivemos inevitavelmente a partir dessas distinções. O homo religiosus não subsiste sem significados — ele os busca, reconhece e, de certo modo, vive por meio deles.

