Naquela manhã, acordei com um gosto estranho na boca. Era forte, quase amadeirado. Envolta no macio cobertor de cashmere, senti o peso morno sobre a pele, um calor que contrastava com a brisa fria que escapava pelas frestas da janela. Havia algo diferente no ar, embora eu ainda não soubesse exatamente o quê.
Um formigamento percorreu a espinha, despertando uma sensação ao mesmo tempo estranha e familiar. Minhas extremidades levemente inchadas denunciavam que meu corpo já respondia às inevitáveis flutuações hormonais — progesterona e estradiol tramavam, como sempre, sua habitual tortura mensal.
Então, um pensamento irrompeu: carne. Eu precisava de carne. O estômago se contorceu, uma pressão intensa subindo pela laringe, apertando as tonsilas e arranhando a mucosa da faringe. Como era possível? Eu, que há décadas recusava qualquer vestígio animal no prato, agora consumida por um desejo inapelável?
Levantei-me como se minhas pernas tivessem vontade própria. A língua áspera se retorcia contra o céu da boca — cada mínimo movimento exigia esforço descomunal. Abri a geladeira e varri o conteúdo com os olhos: geleia de damasco, queijo de castanha, hummus de grão-de-bico, leite vegetal de macadâmia, tofu defumado. Insípidos. Detestáveis.
Fechei a porta da geladeira com um estrondo que ecoou pelo Condado de Kent. Vasculhei os armários e uma repulsa inexorável me invadiu; os alimentos artesanais pareciam desafiar minha própria existência. Peguei uma maçã, dei uma mordida, mastiguei duas vezes e cuspi-a com violência no chão.
O som da campainha me arrancou desse transe. Deslizei pelo corredor com passos rastejantes, corpo inclinado, movida por impulsos meticulosamente calculados. No tapete da porta, repousava um discreto envelope com logotipo de exames laboratoriais. O vômito amargo veio antes que eu conseguisse abri-lo.
Apoiei-me na moldura da lareira e busquei explicações. Seria um princípio de anemia? Uma oscilação hormonal? Ou apenas um pesadelo krugueriano, que me prendia, impondo seu terror à minha consciência?
Sentei-me à mesa de jantar e não desgrudava os olhos das minhas mãos. Unhas ligeiramente mais espessas, tendões salientes, metacarpos bem delineados à luz. As articulações dos dedos tremiam sobre a madeira, gerando batidas desconcertantes.
Tentei ler, mas as palavras pareciam hieróglifos; tentei tocar violino, mas o arco tremia, produzindo notas que feriam os ouvidos. No centro da sala, permaneci imóvel, mãos impacientes apoiadas nos quadris suavemente arredondados, olhos perdidos no vazio. A cada segundo, a fome se tornava mais visceral.
Sem saber o que fazer, dirigi até a casa da minha irmã. A estrada para Canterbury serpenteava entre campos dourados, perfumados pelo trigo e pela terra molhada pelo orvalho. O vento batia no rosto, trazendo o canto distante de pássaros e o farfalhar das folhas. Vilarejos surgiam à margem: o fumegar de bolos nas aconchegantes cottages, sinos de paróquias, portas de madeira rangendo nos antigos pubs. Tudo me soava assustadoramente palpável.
Cheguei à porta de sua casa. O que diria a ela? Meu coração batia descompassado. Ao entrar, percebi que a sala ainda estava em reforma. Estantes desordenadas exibiam livros primevos e uma pequena estatueta da Santíssima Maria. Sofás tinham almofadas fora do lugar, tapetes pareciam recém-movidos, e, à direita, seu piano permanecia coberto por roupas e partituras.
Ao fundo, vozes vinham do jardim, mas antes que eu pudesse me aproximar, o aroma da cozinha me atingiu: frango desfiado. Molho borbulhante. Alho dourado sobre a torta recém-assada. O ar pulsava de vida. Inspirei fundo...
Aproximei-me do fogão como uma predadora rondando sua presa. Meus dedos hesitaram antes de se fecharem ao redor do pedaço tórrido. Nem pensei — levei-o à boca. O primeiro contato foi eletricidade pura. O gosto… meu Deus, o gosto! Carnal, quente, salgado, vivo! As fibras se rendendo aos dentes, o suco gorduroso escorrendo pelos punhos. Mastiguei, faminta. Engoli. E, antes que percebesse, outro pedaço já estava na minha mão. Só devorei.
— Você está comendo carne?!
A voz veio de trás, cortante. Era meu pai, que acabara de entrar pela porta dos fundos. Parei, com o molho pingando no piso. Olhei para ele — olhos castanhos arregalados, misto de choque e curiosidade. O que dizer? Não havia resposta certa. Peguei mais um pedaço e mastiguei lentamente, sentindo cada músculo da mandíbula se aquecer.
— Tá boa.
Não sei se foi aviso, ameaça ou simples constatação. Ali, algo dentro de mim partiu e, simultaneamente, nasceu.
Nos dias seguintes, tudo se intensificou. A olência de peixes grelhados nas ruas, o aroma de um ensopado fervente no restaurante chinês da esquina — tudo me chamava como faróis na neblina. Meu corpo exigia, minha mente tentava resistir, mas de que adiantava?
O cansaço veio junto, pesado nos ossos, exaustão sem razão. Dormia e acordava mais cansada. Os enjôos prolongavam-se durante o dia, despertados pelo menor cheiro — a cebola recém-cortada, as doces fragrâncias presas no elevador. Apenas a carne resistia à náusea; nela, encontrava refúgio.
No jantar em família, servi-me sem etiqueta do bife suculento, ainda fumegante. Seu aroma terroso e untuoso penetrava minhas narinas, despertando algo primal em mim. Minha mãe lançou-me um olhar desconfiado, franzindo os olhos, lábios cerrados:
— Está virando leoa, filha? Vá com calma, tem mais carne no forno.
Sorri. Peguei o último pedaço com os dedos engordurados.
— Só estou com fome, mãe.
No silêncio que se seguiu, enquanto todos na mesa ignoravam o óbvio diante deles, meus sentidos se afiaram novamente. O tilintar metálico dos talheres na pia ecoava como pequenos sinos distantes. Do armário antigo exalavam notas quentes de cerejeira, ondulando a cortina sob a brisa. Fechei os olhos e, por um instante, o mundo parecia dançar comigo, num suave duplo compasso que reverberava em meu interior.
Foi nesse momento que compreendi algo que, no fundo, já sabia. Não se tratava de um desejo inexplicável por carne, mas do impulso profundo de nutrir o que crescia em meu hystero. Uma necessidade instintiva de oferecer o melhor àquela que agora dependia de mim. Cada vez que saciava minha fome, manifestava cuidado, proteção e amor. A leoa rugiu — silenciosa, porém feroz — movida por um único propósito: garantir que a tua vida floresça, minha leoazinha.