Os contos de fadas não nasceram para embalar crianças em berços dourados. Antes das princesas envoltas por castelos cintilantes, suas raízes estavam fincadas no medo, no sangue e em advertências severas. Narrados ao redor de lareiras em aldeias medievais, também funcionavam como guias de sobrevivência e moralidade em um mundo hostil.
Cada vilarejo moldava o relato conforme sua cultura. Todos, porém, transmitiam a mesma pedagogia: não abandonar o caminho seguro, desconfiar de estranhos, evitar a floresta à noite e reconhecer que a imprudência cobra seu preço. Figuras como ogros, lobos, fadas e bruxas iam muito além de meros adornos metonímicos, pois constituíam representações simbólicas dos perigos concretos que rondavam a vida cotidiana.
No século XVII, Giambattista Basile reuniu no Pentamerone (1634) a primeira grande coletânea de contos populares europeus. Suas páginas tinham tom grotesco e sem disfarces. Em A Velha Esfolada, uma mulher consumida pela obsessão da juventude implora que lhe arranquem a pele, acreditando que assim recuperaria a beleza perdida. Em vez de glória, encontra degradação, e sua vaidade desmedida a conduz a uma morte atroz.
Foi também nesse período que surgiram muitas histórias de princesas hoje conhecidas, mas originalmente marcadas por tons inescrupulosos. Em A Bela Adormecida, de Basile, a princesa Talia cai em sono profundo ao espetar o dedo em uma farpa envenenada. Encontrada por um rei, ela é estuprada e acaba dando à luz gêmeos ainda adormecida, despertando apenas quando um dos bebês remove a farpa.
Décadas depois, Charles Perrault publica o controverso Histoires ou Contes du Temps Passé (1697), inaugurando a versão literária dos contos de fadas franceses. Na história de Chapeuzinho Vermelho, a menina é devorada pelo lobo, advertindo de forma brutal contra o perigo de confiar em desconhecidos. Em Cinderela, as meias-irmãs feias chegam a mutilar os próprios calcanhares para forçar o sapato encantado, revelando o preço insano da inveja.
Na primeira versão de A Bela e a Fera (1740), escrita por Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve, não há ternura nem romantismo. Um príncipe é confiado a uma fada que, ao vê-lo crescer, tenta seduzi-lo. Rejeitada, ela o amaldiçoa, transformando-o em uma tenebrosa besta. O feitiço só poderia ser quebrado por meio do ato sexual consentido de uma donzela. Distante da doçura da animação dos anos 1990, a narrativa revela um enredo marcado por vingança e luxúria antes do felizes para sempre.
No século XIX, os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm publicaram a célebre coletânea Kinder-und Hausmärchen (1812). Fome e miséria marcam a história de João e Maria, duas crianças entregues à crueldade de uma bruxa canibal que as mantém cativas para devorá-las. Já em Branca de Neve, a jovem princesa é alvo de sucessivas e sórdidas tentativas de assassinato e, no no final, a Rainha Má recebe sua punição derradeira, sendo obrigada a dançar até a morte em sapatos de ferro incandescente.
Entre os relatos mais mórbidos dos Grimm, destacam-se aqueles em que inocentes sofrem por erros alheios. Em A Menina Sem Mãos, um pai, preso por pacto demoníaco, corta as mãos da filha para proteger seu moinho. Expulsa de casa, a jovem sobrevive a duras provações até ter as mãos restaurada pela providência divina. Outro conto perturbador é O Junípero: a madrasta invejosa mata o enteado, serve seus restos ao pai em uma sopa e acaba esmagada por uma pedra de moinho quando o espírito da criança, em forma de pássaro, revela o crime.
Hans Christian Andersen igualmente explorou jornadas trágicas em sua coleção Eventyr, fortalte for Børn (1835). Em A Pequena Sereia, a heroína renuncia à voz e à própria natureza marinha na esperança de conquistar o amor humano. Quando não é correspondida pelo príncipe, vê sua esperança desvanecer e, em vez de redenção terrena, dissolve-se em espuma sobre as ondas. Por sua vez, O Patinho Feio retrata um filhote ridicularizado, maltratado e tratado como uma praga, que ao final encontra redenção em sua verdadeira essência.
Durante a Era Vitoriana, os contos de princesas receberam versões polidas. Com o objetivo de preservar a virtude, os autores atenuaram punições e trajetórias cruéis, ao mesmo tempo em que acentuaram finais impregnados de moralidade. Personagens malvados continuavam presentes, mas seu poder era contido, e o triunfo do bem reforçava qualidades como pureza e obediência às normas. Na versão de Rapunzel de 1857, a jovem confinada na torre é resgatada pelo príncipe, convertendo o perigo em uma lição de perseverança na busca pelo amor virtuoso.
No início do século XX, L. Frank Baum criou a série de Oz (1900) — um conto de fadas modernizado, segundo definição do próprio autor — repleto de lições morais macabras. Em Ozma of Oz (1907), a princesa Langwidere surge rodeada joias e vestidos belíssimos, mas pouco se importa com eles. Seu verdadeiro prazer reside em um gabinete de cabeças cortadas de donzelas de reinos vizinhos. Quando se cansa de uma, retira-a do corpo e a substitui por outra de aparência distinta. Ainda assim, jamais encontra satisfação, permanecendo prisioneira de um ciclo vazio de vaidade.
Mais adiante, a Disney transformou as temíveis maldições herdadas da oralidade medieval em musicais familiares; contudo, sob o véu do encanto, persistiam sombras implícitas. Na animação A Pequena Sereia (1989), há quem interprete que Eric, inicialmente, não se apaixonou por Ariel por livre escolha, mas porque, ao salvá-lo, ela o teria enfeitiçado com sua voz. Ursula, ciente desse poder, mais tarde se aproveita dele ao usar a voz de Ariel para subjugar Eric e levá-lo a desejar casar-se consigo. Somente quando o colar se rompe, no desfecho, é que ambos os feitiços se desfazem.
![]() |
A história de Coraline (2002) é uma das mais expressivas representações do conto de fadas no século XXI. Entre suas exortações mais marcantes está a ideia de que a realidade imperfeita é sempre preferível à prisão da ilusão. Seus aspectos funestos — como botões costurados nos olhos e criaturas horrendas — reforçam o mesmo alerta presente nas histórias infantis medievais: nem tudo que é sedutor merece confiança, pois por trás de uma aparência agradável pode esconder-se um predador.
O terror contemporâneo resgatou essa herança sombria das tradições orais, adaptando-a a novas alegorias. A jovem perseguida por um assassino mascarado ecoa Chapeuzinho Vermelho. A casa que aprisiona remete ao forno de João e Maria. O vilão nascido da família reflete a madrasta de Cinderela. Filmes como A Bruxa (2015) e Hereditário (2018) transformam floresta e lar em palcos de horror, enquanto personagens como Jason Voorhees e Michael Myers reencarnam o lobo arquetípico, movidos por fome inumana.
O psiquiatra Carl Jung via nessas histórias projeções do inconsciente. A figura da «madrastra má» simbolizaria o lado sombrio da mãe, e o «lobo» daria forma aos instintos predatórios do homem. Marie-Louise von Franz, em sua obra Shadow and Evil in Fairy Tales (1974), sintetiza essa perspectiva ao mostrar que os contos infantojuvenis não se limitam a advertir contra ameaças externas, mas também desvelam a nossa «sombra» interior. Enfrentar essas figuras seria um exercício de autoconhecimento, no qual ignorar o mal apenas o fortalece, ao passo que confrontá-lo abre caminho para o amadurecimento.
Essas narrativas, à sua maneira, continuam a advertir sobre temores atuais. A ameaça deixou os povoados obscuros e deu lugar à violência política, à fragilidade da saúde mental e à alienação tecnológica. O «lobo faminto» renasce nas lendas urbanas, à espreita em aplicativos de encontros e nos metrôs soturnos, enquanto a «floresta sombria» passa a simbolizar o mundo hiperconectado — um imenso território digital igualmente assustador.
Os contos de fadas são a pedra angular do terror. Neles nasceram tropos duradouros — a criança perdida na floresta, a casa acolhedora que oculta armadilhas, o estranho cuja bondade mascara intenções perversas. Sob a aparência de histórias para dormir, preparavam os ouvintes para vigiar o invisível e compreender que o mal se disfarça de promessa. Ao longo dos séculos mudaram de forma, mas conservaram a essência: advertir que o mundo é perigoso e que, nas sombras, algo sempre aguarda.
Referências
I. Franz, M. (1995). Shadow and Evil in Fairy Tales. Shambhala Publications.
II. Braun, L. (2015). Ozma of Oz. Wilder Publications.
III. Ortlibas, R., Noriega, P., Soter, S., Cândido, C., & Fernandes, C. (Orgs.). (2023). Os Melhores Contos de Fadas Sombrios. Editora Wish.
