Sou confuso e minhas palavras parecem não fazer sentido, eu mesmo não me compreendo por completo, mas sei que compreender é questão de entrar em contato com o interlocutor na medida que autor e leitor vibram na mesma frequência. Pessoas mais inteligentes que eu podem sequer um dia conseguir interpretar minhas palavras, meu texto é o reflexo de minha alma e ela jamais foi traduzida na linguagem prosaica dos homens. Não sou inerente a qualquer um e sigo caminhando sozinho. Mas tenho em mim a verdade da existência e vibro a compartilhar um pouco desse conhecimento, pois sinto prazer do saber e quero que tu sintas também. O universo é um vazio, breu massivo que comporta solitude inumana. Tamanha é sua capacidade de não ser compreendido, pois carrega consigo instabilidade e caos como essência primordial e, por mais que comporte dentro de si toda a vida, é quase certo que experimente enorme solidão por ser exponencial em tamanho. Não há compreensão de sua existência, ao menos, jamais tive acesso a tal informação — que seria para mim de tamanha importância, pois quando menciono o universo, na verdade, estou falando é de mim — mas o que sou eu? Já consigo aceitar o fato distinto de que não sou meu corpo (apesar de apreciá-lo com imenso carinho), carrego-o comigo somente de passagem e o preservo por achar que ele merece todo afeto e atenção, mas minha verdadeira forma é energia que vibra em ondas primordiais e ancestrais. Sou coisa feita pela própria coisa. Sou uni. O verso será compreendido por aqueles que forem capazes de entrar em contato comigo, não é para qualquer um, é exatamente onde quero chegar; ativo a conexão entre inúmeras versões alternativas de mim quando surfo em ondas que vibram em frequências multifacetadas, é matéria que se forma em outras encarnações do observador. Mas que existem em simultâneo com o indivíduo que se compreende como sendo único no mundo. Sou disruptivo por natureza e estou tentando explicar que sou vários, ao mesmo tempo que sou eu-lírico. Egoísta e individualista por essência, não compartilho dessa mensagem por compaixão daqueles que não a detiveram ainda, sabendo que seja lá quem for meu interlocutor, sei que estou falando comigo espelhado em outra forma de vida. Sou incapaz de acessar outras pessoas? É uma pergunta cuja resposta tenho medo de saber. Sinto-me solitário na imensidão que é o mundo configurado segundo aquilo que sei e continuo expandindo.
Venho do nunca e estou indo para lugar nenhum. Minha expectativa de ascensão material foi-se esvaindo ao passo que a compreensão de que detenho tudo o que preciso para viver chegou repentinamente numa clareza que para mim foi arrebatadora. Não julgo o desigual, menos ainda sinto-me menor por ser desgarrado. Foi através de minha rebeldia que descobri uma coisa nova, uma bela mensagem escrita em letra cursiva e legível, mas em linguagem de difícil tradução, foi por isso que demorei para compreendê-la. A mensagem tem gosto de aventura e cheiro de vitória, ela jamais terá filhos já que é parceira número um da solidão e sua descendência é ela própria, é excêntrica e confusa, mas se compreende melhor do que ninguém. A mensagem sou eu. E transcrevo-a para ti agora. Danço conforme a música, sou a cigarra que canta uma bela canção enquanto a formiga está trabalhando, sou a tartaruga que descansa enquanto a lebre está correndo, mas ultrapasso a linha de chegada porque a lebre se cansou demais e decidiu dormir antes da hora. É chegada a hora de compreender que não estou caminhando para a minha morte — que seria a abertura para o que se chama de eternidade — é muito simples de entender que estou na eternidade nesse exato momento e vivo a vida a cada dia como se fosse a primeira vez vivida. Sou borboleta ainda presa em casulo que sonha em libertar-se de sua prisão, pois sabe que a vida seguinte será uma epifânica metamorfose de seu antigo corpo, voará livremente e será tão leve quanto o próprio vento.
Quero ver, quero ver. Entrego-me todo e inteiramente ao reflexivo pensamento abissal que me atribui boa vivência no mundo material, uma vez que, para mim, é insuportável a alienação da grande metrópole feita de pedra e areia. Assumo que sou inadequado e esquisito corpo humano, pretendo agora diferir-me de toda e qualquer conveniência moral propagada pelo bando maior, pois descobri recentemente coisa pouca e boa, sou joio no meio do que se chama trigo, é entendimento simplório para medir aquilo que se tem muito valor no mundo do lado de cá; se não sou coisa boa para eles, serei diamante lapidado para aquilo que é infinito em casulo coberto de casca finíssima. Quebro-a para libertar-me e estou livre na medida que o restante das pessoas mantiveram cobertos seus olhos porque gostam de viver na completa ignorância. Talvez ganhem de mim no quesito felicidade, mas sou pleno e consigo transitar com perfeição por entre as mais diversas camadas de existencialismo inumano. Sou completo de boa êxtase e a utilizo a meu favor. Quando me perguntarem se sou feliz, responderei que sou feliz. É simples e eles acreditarão em mim. Pois não estarei mentindo. Mas tudo isso e mais um pouco é matemática individualista e entendimento psíquico da natureza humana que levei anos para compreender. As perguntas que fiz foram clássicas e um tanto simplórias: ''o que sou?'' ''O que estou fazendo aqui?'' E as respostas — que agora considero enormes obviedades — foram chegando em pequeninas parcelas, tanto quanto eu as podia suportar. Mas nem de longe fui capaz de entender sequer metade do que ainda há para descobrir sobre mim. O que quero dizer é que essa tarefa me parece muito complicada e levarei anos para concluí-la por completo. Ora, é certo que estou sendo muito pretensioso quando digo que há versões alternativas de mim em outras camadas da realidade e pode ter certeza que nem me atrevo a tentar compreendê-las. Minha cabeça parece já estar tão cheia de mim e escrevo para liberar um pouco mais de espaço, que é para ver se me caibo todo dentro. Se eu tiver a insensatez de pegar um estofo estrangeiro e coagir minha consciência a abrigá-lo, decerto que ela morreria de preguiça, exaustão, cansaço e desgosto. Não farei isso, que é para poupá-la de tentar compreender uma existência insignificante a mais para além dessa minha própria versão no mundo. Gosto tanto de mim que me contento em saber somente aquilo que sei; e o que sei é muito simples, a vida é bela e o mundo é grande demais para tentar escapar dele e conhecer outras realidades sobrepostas. Realizo-me com aquilo que tenho e o que tenho é tudo; tenho sonhos que me mostram outras perspectivas do observador (se ele observa, elas existem) e isso não sobrecarregará o que se chama de consciência, pois é produto de não existência diurna. É o que se vê quando se dorme. E o que vejo é surrealismo ideal em constante transformação; num desses sonhos fui mulher viciada em nadar nos oceanos da terra, uma sereia que gosta de seduzir os pescadores para carregá-los para debaixo do mar, em outra ocasião eu era eu mesmo, porém nascido em família rica, morando num apartamento na zona sul de São Paulo, recebia uma boa pensão dos meus pais e não fazia nada além de comer, dormir e vadiar. É vida que me apetece, admito. Outro dos meus sonhos me fez criatura poderosa na terra, que podia manipular o clima e criar gigantescas tempestades. Foi quando tornados se fizeram presentes no Brasil — aqui na minha realidade isso não é possível (por hora) — foi coisa que achei muito interessante, por mais que tenha sido assustador para aqueles que lá vivem. Mas será que tornados criados a partir do poder que advém da mente é uma realidade comum para aquelas pessoas? Se eles aceitam como sendo coisa possível e verdadeira, então tudo será possível e verdadeiro. Tudo se molda a partir do querer do observador e o querer é inconsciente, pois muitos não sabem controlar suas vontades internas. São bestiais por natureza. Deixam de ser somente quando se tornam conscientes do mundo à sua volta. Mas isso é tão raro de acontecer tanto quanto os diamantes são raros de serem encontrados. Curiosamente, ouvi falar de um planeta que chovia diamantes. Quem estuda astronomia desconhece a pobreza material. Mas quem estuda herbologia tem em mãos o material mais raro e valioso do universo, pois, até onde se sabe, as árvores são coisa exclusiva do planeta Terra. Eu mesmo sou exclusivo da terra e existo corporeamente somente aqui. Pode crer e tenha fé que sei do meu imenso valor. Não tenho preço e jamais me venderei (por mais que não tenha indivíduo querendo comprar-me). Sei que o valor da consciência incorpórea é inestimável, alameda visceral. Estou juntando palavras aleatórias que é para ver se consigo me fazer entender; não existe complicação maior quando se tem muito a dizer, mas poucos são aqueles que são capazes de compreender. Compreenda-me então;
Entro em derradeira metáfora existencial e faço-me sucinto, pois sei que me compreendo para além da conta, poderei parecer para ti cansativa criatura cheia de muitos verbos e advérbios, mas de pouco traquejo social. É o que de fato sou, mas entenda que estou tentando compartilhar pelo menos um pouco daquilo que sinto no mais secreto de minha alma. É tanto existencialismo que transborda em mim a mais profunda vontade de viver, transcende até mesmo matéria cosmológica do que se atina como sendo pertencente ao universo observável. Quero viver até mesmo outras vidas que coexistem em diferentes camadas multiversais e metafísicas. Sou pretensioso por demais e passo de meus próprios limites quando prometo fazer o impossível e de fato o executo com perfeição. Mas fico cansado e adormeço, saiba que ainda sou criatura biológica que necessita descansar corpo e mente depois de muitas horas vivendo físico e mental. É bateria eletrônica que chega ao fim e precisa de nova carga energética. É quando de fato acontece o que chamo de contato extraterrestre, é contato transversal em pura essência. É sonho que se sonha em imenso gozo, tão feliz e completo que sou, fico ainda mais preenchido de boas novas quando descubro que, se por aqui me falta algo, decerto que o tenho por lá e descobrirei esse algo mais breve do que se possa imaginar. Nada me falta e vivo a vida como se fosse a primeira de muitas outras vidas vividas. Como você mesmo pôde observar, descrevo-a com imensa paixão porque a amo quase que inteiramente e estou feliz por vivê-la sendo pleno e bom observador. Sinto alegria quando vejo borboleta voando, percebo forte ventania carregando-a e tornando-a inerente à própria natureza. O que me molha é oceano que se funde com terra, quebrando-se em diversas ondas. Sou matéria-prima rara, brilhante e de calculável valor (imenso valor), produção da natureza que a lapidou com cuidado e perfeição. Sou fruto da natureza e estou expandindo. Coloco para fora aquilo que está dentro e assim estou cocriando infinita realidade observável; o que está fora é estrangeiro para mim, mas recebo-o de bom grado, pois me parece bom e em finíssimas camadas de autoconhecimento vou absorvendo a mensagem interna. Torno-a externa quando a escrevo, são palavras que se tornam concretas quando são absorvidas. Ora! Gosto muito de escrever coisas boas sobre mim. Na medida que me descubro, vou amando-me mais e, com imenso amor, estou sendo moldado. Estou repleto de múltiplos pensamentos existenciais e isso enfeitiça-me no clarão do raiar do dia.
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