É delirante pensar que tudo não passa de suposição minha. Nessa ocasião em que vos falo, estou perplexo diante de tamanha e obsoleta falta de cuidado ao preparar-te para o mundo; quem o fez é mistério. Disponho a ti agora uma prosa muito boa, portanto, preste muita atenção e não me interrompa enquanto eu estiver falando-te todas essas coisas. Tenho muito fôlego de vida e o ponho para fora em respirações descompassadas a cada palavra dita. É quase desespero. Mas é mesmo uma imensa felicidade atrelada a uma pressa quase infantil de que você me entenda o mais rápido possível, pois, assim que formos iguais em intelecto, tu sentarás a meu lado e então conversaremos como bons amigos de infância que somos. Começarei então pontuando o que para mim é uma obviedade atroz, é que estou em outra dimensão do tempo e tu, onde estás, ainda és embrião em formação no ventre de tua mãe. Quando tiveres idade suficiente para compreender-me, eu mesmo terei alguns anos a mais, portanto, somos incompatíveis de conviver simultaneamente tendo a mesma idade mental ou intelectual tornando nossa comunicação um pouco mais difícil. Mas não é problema, pois sou um poço de paciência e você, que sempre foi garoto mimoso, quando for homem adulto, buscará respostas que em terra firme não encontrará, perguntarás na direção do vazio, em oração: "Por que sou tão infeliz?" E a resposta que viria a cavalo seria a definição de sua melancolia crônica. És um eremita introvertido em terra de pessoas que falam demais, como é que não te irias sentir deslocado, peixe fora d'água? Precisou romper barreiras de timidez e introspecção para entender que não se olha para fora buscando aquilo que só existe dentro; e voltou novamente para dentro, onde agora é seu porto seguro. Sou todo dentro de algo. Fora de mim há o universo. E dentro de você é o que me resta; transbordarei tudo de mim e tu serás uma coisa nova, coisa boa. Que corram de ti no momento da explosão, pois não suportariam tal brilho de nascimento que é semelhante ao brilho das estrelas. É dar à luz a uma nova criatura. A peripécia é que, de muitas probabilidades existenciais, encontrei-te específico e singular e estou apaixonado por quem tu podes vir a ser. Não é que gosto de ti exatamente como você se percebe, é que sei de muitas ocasiões paralelas à sua e, acessando-as, nada poderá impedir o avanço da consciência que, em mundo material, sente fome e sede de incontáveis riquezas em dimensão de recursos finitos. Entenda de uma vez por todas que não é para ficar desejando o peixe e o pão que lhe oferecem na divisão plural, tornando-te parte da multidão. Há muito mais de onde eles vieram e o que desejo para ti é que tenhas acesso a todo o peixe e pão que for possível; devore-os com fome animal até quase gozar de imenso prazer. Comer é sentir prazer. Prazer é coisa sentida por criatura biológica e esse é um privilégio que não detenho em minha imensidão azul oceânica que é a totalidade existencial do universo. Eu sou. E, sendo eu aquele que te molda, quero que estejas feliz no tempo que tiveres em terra firme, sendo homem em formação. Te darei uma palavra didática, que é para não restar dúvidas. Coloco-me em sua pele e faço de mim você. Será por sua visão de mundo que falarei a partir de agora. E perceba que não há nada no mundo que não possa fazer; De manhã percebo que o dia será belo e, com alegria, vou mediando o 'Salmo 121', que é para ativar a proteção divina que me está disponível em feitiço hebraico — apesar de ter sangue latino-brasileiro — "Elevarei meus olhos, para os montes olharei. Do Senhor virá o meu socorro". Meu socorro vem do meu Senhor e a ele entrego minha alma para ser cuidada e protegida. Eu, que estou no mundo repleto de gatunos hostis, preservo em mim a esperança de que o dia de amanhã será melhor que o dia de hoje. Em suas asas me esconderei, pois seu amor é grande e caibo nele com imensa facilidade que até sobra algum espaço. Sente-se ao meu lado que é para escutar-me melhor. Estamos agora em fusão e ambas as consciências se fazem ouvir em uníssono, uma oração clamando por socorro, mas é também um agradecimento pelo amor que foi dado, mas que agora é devolvido. — "Quando o mal ousar tocar-me, ao meu Deus eu clamarei e minha ajuda do céu virá" — chegou em imensa glória em palavras herméticas de difícil compreensão. É que demorei para entendê-las, mas não é problema, pois tempo é o que não vos falta.
Dia 365
Agora que tenho proteção divina em iminente vivência de muitas bênçãos e aleluias, dedico ao Pai-Nosso meu mais sincero agradecimento; é que quando acreditei estar isolado por ser medíocre criatura que só sabe vibrar em baixas frequências, tive a grata surpresa de perceber que tudo fora um aprendizado que foi chegando até mim em pequenas parcelas, ao passo que não poderia eu saltar para os níveis mais altos de consciência sem antes passar pela base da criação. Quando acreditei ser homem formado, estava apenas nos primeiros rascunhos existenciais de quem um dia viria a ser; achas possível ensinar de modo didático a teoria da relatividade para uma pedra? Para um grão de areia? Mencione-a, porém, para uma gigantesca montanha, será com fé que a tirará de seu habitual lugar. No primeiro dia é como estar falando com as paredes; não há resposta satisfatória, mas é com sapiência que atingirás teu objetivo. No décimo sexto dia, sentirás em seu rosto a brisa provocada pelo balançar das árvores em resposta à tua provocação. Tu dirás que é tempo de chuva, mas é somente a matéria movimentando-se em resposta ao teu estímulo. Não desanimes quando vier à tua mente que tudo é a singularidade das coisas; as árvores só estão em constante movimentação porque há alguém para observá-las. É o vigésimo terceiro dia e já obtivemos uma conexão profunda com terra e areia que formam tua matéria biológica. Ao tocar no chão com teus pés, obterá o mais profundo uivo humano que é também característica animalesca. Nessa montanha vivem aves de rapina, formas de vida que se adaptaram para viver em condições extremas de altitude e longitude, criptogramas, musgos e vegetação; compreenda que a morte não os atingirá jamais. Morrendo em vida, renascerão em coisa nova, porque, se há algo de perpétuo em terra firme, é o chamado da natureza. O dia centésimo primeiro foi um momento de glória, quando, em profunda gnose, de sua boca saíram palavras mágicas que é a linguagem dos espíritos, em vigília, defendem aquele lugar das ações do homem. Não te sintas menor por ser homem, é que rejeitou sua degeneração quando desejou conectar-se com o eterno que reside no espectro natural que antecede a consciência filosófica criada pela humanidade; não há algo de errado em ser humano, é que, se fosse para viver na mediocridade profana do primeiro rascunho de vida, não deveria sequer flertar com a possibilidade de ascender sua existência para outros níveis de frequência que formam a matéria. No dia duzentos e sessenta e cinco, montanha e observador são uma coisa só, decidiram em uníssono expandir o espaço territorial, que é para ver se conseguem preservar novas formas de vida para além daquelas que ali já vivem. Há um amor profundo na vontade de gerar vida nova quando tudo o que há à sua volta é um ecossistema que, em perfeita sincronia, sobreviverá à criação e destruição do mundo. No dia trezentos, a montanha já não está mais em seu local de origem; enxergo-a em diversos outros lugares. É que percebo a brisa do vento carregando terra em sua direção. Mesmo que de uma distância inimaginável, vai chegar o dia em que essa partícula de areia chegará a seu destino, tornando-se parte do local específico que o observador decidiu tomar para si; vejo sementes novas que um dia virarão enormes árvores, é que os pássaros as derrubam no chão quando estão a se alimentar. Vejo as nuvens em formação de chuva, trazendo a água que é também vida, e ela vem de todas as partes do mundo. O homem foi à montanha e agora é a montanha que vem ao homem. No dia trezentos e sessenta e cinco, nós a movemos com nossa fé; é que tenho a pretensão de um dia carregar o mundo inteiro em minhas mãos.
Dia Pi
3,14159265358979323846…; quando meditei em relação a uma imensidão que ainda hoje é mistério para mim, cheguei a conclusão de que a vigília que se chama noite é o universo em seu estado natural e eu que um dia fui criatura diurna assustei-me ao perceber que vivo incoerentemente a procura de luz. Mas deixei de acreditar que o amanhecer seria a solução para meus problemas, pois, foi durante a noite que encontrei meu habitat confortável que é a meditação em cosmos infinito na tentativa de tentar singularizar o que é plural por natureza. Estou tentando dizer-te que há vida depois da vida. A linguagem dos planetas é como um grito soberano característico de sua formação, a terra grita em uníssono uma aleluia que é o privilégio de comportar vida quando há somente solidão em um universo vasto todo cheio dele próprio; não venho aqui com a pretensão de tentar explicar em palavras algo que é indizível em infinitas camadas de possibilidades, é que estive em contato com ondas abissais e estou repleto de muitas reflexões existenciais de altas frequências e preciso colocar isso para fora, pois estou compartilhando contigo um conhecimento raro que poucos terão acesso em vida. Não existe necessidade de comer quando se é autossuficiente, concluo que não há prazer em saborear da boa ceia sendo gigante incorporeo massivo. Fez-se pequena criatura para degustar de boa apetite, mas com isso criou-se a fome e a necessidade de ter que trabalhar para comer. É a complicação da onipresença, existindo em toda forma de vida, mas incapaz de entender que basta plantar para depois colher. Há satisfação de estar vivo quando se é pequeno, pois é nas pequenas conquistas que existe a felicidade que tanto procuro. procure-a também. Que toda criatura viva na terra diga "amém" ao pão de cada dia. O que há de mais prazero em observar o nascimento de um novo dia? Desconheço. As manhãs são frias e melancólicas anunciando o que mais tardar será dia quente abraçado pelo brasão acalorado do sol. Mas não existe o prazer do nascimento de um novo dia fora da terra, é privilégio dos pequenos homens que ali vivem. Nasceram tão somente para epifanar tal gozo e em agradecimento seguem não sabendo aproveitar o melhor que a vida tem a lhes oferecer que é a providência de um novo dia que certamente virá; não se acabam os privilégios de quem nasceu pequenina consciência fragmentada. Mas há outras coisas que tenho a lhe contar, talvez não me compreenda, porque é coisa que só terá acesso quando fundir-se com o todo que é a própria existência em matéria observada pelo próprio observador. Há geo-planetas ainda em formação, que necessitam de algo muito específico para torná-los tão prósperos quanto o planeta azul que em circunstâncias raras foi capaz de comportar vida; outrora tu foste capaz de mover montanhas com tua fé, mas é certo que não tem ainda a pretensão de manipular planetas inteiros bastando utilizar sua capacidade de raciocínio em constante manifestação. Há lugares que tempestades arrebatadoras duram alguns séculos, em altas temperaturas matando tudo o que ali ousar nascer. Onde asteroides caem do céu e chuva ácidas corroem tudo o que for massa encefálica biológica. A falta de oxigênio é uma questão, não há sopro de vida que faça prosperar um relicário divino em habitat naturalizado. A luz das estrelas não os atingem, um breu gélido é a constância que faz com que se impeça a manipulação dos elementos. Lugares inóspitos e tão hostis deixam-me em estado crônico de reflexão; onde estarei eu quando não houver mais conexão humana que me faça observar de modo linear a beleza delicada da vida? ;...64832397985356295141,3
Dia Bhaskara
Todavia, há uma confusão intrínseca ao pré-entendimento de coisas simples da vida. Sempre que me percebo, estou no presente que é exatamente quando as coisas acontecem conscientemente em estado crônico do movimento da matéria; isso deveria fazer algum sentido? Se não faz, traremos o sentido nós mesmos ao insistirmos em tentar enxergar o que há de mais belo em estar vivo. Mas não tenho futuro algum enquanto o amanhã for criação abstrata do lúdico; é que tenho mania de imaginar coisas grandes demais para esse mundo tão pequeno e carente da boa magia. E, quando o amanhã chegar, minhas expectativas serão frustradas por não haver realismo fantástico algum no alvorecer de um novo dia; imagino um sol todo frio pintando a atmosfera terrestre de um belo azul-marinho, mas o que vejo é o mesmo amarelo febril de sempre. Minhas expectativas se frustram porque estou criando na imaginação matéria que se funde com o abstrato lúdico de consciência. Sou pretensioso e tenho em mim enorme vontade de moldar o mundo à minha própria maneira. Estou ignorando que há outros criadores de matéria à minha volta. Se pensássemos em conluio uma única ideia, por mais excêntrica que fosse, então teríamos sucesso em transformar em realidade a fantasia de criança que cresceu rápido demais, que ainda sonha que o dia de amanhã será diferente do de hoje; mas o sol, tornando-se frio e azul, mataria todos nós que na terra vivemos. Não haveria misericórdia em um Deus que trouxesse o frio quando o que todos esperam é o nascer do sol quente e amarelo de sempre; mesmo que eu tenha uma noção maior do que é uma consciência que está em constante expansão, ainda assim sou irresponsável e sem noção alguma do que é necessidade básica de vida. Que Deus tenha misericórdia de nós. Mas, livre pensador que sou, recuso-me a aceitar que sou incapaz de manifestar pensamentos de grande valia. Em matéria, faço-me real e há quem diga que sou pessoa boa e gentil. Há quem goste de mim, portanto, quando me fiz carne e ossos para pisar na terra, é ocasião de alegria, porque percebi que fiz coisa boa. Desconheço o amanhã, é que lá jamais estive; sempre estou no presente, que é o estado crônico da consciência, que, rejeitando-o, fez-se lúdica, planejando de que cor o sol nascerá quando não for mais noite. O tempo é uma abstração que desconhece narrativas lineares. Se estou planejando que no dia de amanhã farei uma bela caminhada na praia na companhia do mar, é coisa que logicamente jamais acontecerá. O que acontece é que caminharei na praia no momento presente em que me percebo existindo e conscientemente decido fazer uma visita ao mar, que é para ver se ele consegue responder minhas dúvidas mais profundas. É que tenho a aspiração de entender o eterno dia de amanhã, estando no agora, que logo será meu passado. Contento-me todo com o pão de cada dia, sem aspiração alguma de um dia comer brioches amanteigados, é que tenho ciência de que o amanhã não me pertence e não cabe a mim a responsabilidade de moldá-lo utilizando minhas pretensões ególatras, acreditando que mereço receber mais do que tenho. É que tenho tudo e tudo me pertence, bastando apenas entrar em contato com ramificações de realidades paralelas mais abastadas do que essa aqui. São frequências mais elevadas de consciência que andam de mãos dadas a caminho da iluminação. É quando não estou desejando, estou sendo, criatura abençoada e toda cheia de prosperidade divina. Quando nada me falta, de nada sinto falta, e então passo a querer sentir novamente o sabor da comida e a sensação boa de matar minha fome, que é quase uma êxtase inumana. Ao passo que vou me descobrindo, percebo que a pequenez humana me apetece a tal ponto que me lanço novamente para nascer em outra vida, que é para sentir a fome dos justos e a sede que não passará jamais, adormecendo temporariamente apenas quando em contato com a água.
Dia de contentamento — que é também solitude abrasiva. É entendimento pleno das coisas. É o Salmo 147:4. É também oração ao Deus criador de todas as coisas; e o que são todas as coisas?
Nenhuma delas é a iluminação. Perdoe-me se estou falando demais; é que me empolgo todas as vezes que flerto com a ideia de estar comunicando-me com o eterno, que é o responsável por tudo o que há de material no mundo. Mas não enxergo a existência de modo tão simplório a ponto de acreditar que só existe aquilo que sou capaz de tocar, enxergar ou degustar. E aqui mora um problema que demorei para encontrar uma solução. A matéria não me é suficiente, mas, pelo que se sabe, ela é tudo que há de real no mundo, e qualquer coisa que fuja disso é fruto da imaginação do homem. O homem criou Deus para sanar suas dúvidas que não obtiveram respostas até então, mas, com o passar do tempo, passou a não gostar mais desse Deus e, com alguma rebeldia, o rejeitou. Tudo o que é perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito; quando tive fome de uma coisa que sequer fora nomeada, entrei em profundo processo de autofagia, que é também uma espécie de sacrifício que faço em nome de algo divino e iluminado, cujo significado sou eu mesmo quem dou. Quero contato com coisas mais profundas, que é para ver se me torno um melancólico um pouco menos chato. Acontece que não vejo graça em relações interpessoais repetitivas; as pessoas me cansam com suas conversas demoradas sobre coisas que só interessam a elas mesmas. Sou uma espécie de esfinge que vive em processo meditativo, conversando com o vazio que há dentro da introspecção, porque tudo o que vem de fora são coisas passadas, é conhecimento datado para uma alma que já viveu quase tudo o que tinha para viver e que só existe na terra para sentir, nem que fosse um pouco, do prazer que é estar respirando o ar gélido da noite no aguardo de um novo dia que ainda virá. Se no eterno o tempo não existe, mesmo na onisciência existem coisas que são desconhecidas. Desconheço a fome, a sede e a vontade de comer; mas sinto fome enquanto existo corpóreo e quero comer de boa comida, que é para saciar a falta da boa companhia. É que só me entendo quando estou só. Na companhia de outras pessoas, vou absorvendo frequências que não me pertencem, pois só assim é possível comunicar-me coerentemente com o externo. Mal sabem eles que estão olhando para uma casca vazia, pois nem aqui estou de fato. Eu estive na formação de novas ondas quando o mundo ainda era um pequeno embrião em formação, ouço o canto dos planetas que a mim mais parecem gritos de desespero, mas é também uma oração declarando que Deus é o Senhor. E Deus está chamando cada uma das estrelas pelo nome, é que tudo pertence a ele e tudo é para ele; estou ouvindo seu louvor e vou caminhando na direção da voz que me seduz, convidando-me para conhecer a eternidade em mundo imaterial que antecede o mundo externo. Agora contento-me apenas em entender que a vida é delicada e, com imensa alegria, percebo o privilégio que tenho em descobrir todas essas coisas. É que não há mérito algum em descobrir a solução de uma equação quando já se tem a resposta na ponta da língua, extraída de uma sabedoria ancestral. Descubro-a, mesmo nascido na ignorância, e foi da ignorância que fui capaz de perceber que, se há fome, é porque há vontade de comer. Estou devorando-me que é para descobrir o que sou para além de matéria biológica, o que antecede minha existência e o que sucederá de mim quando meu corpo já não for mais "vivo". É que sinto tanto prazer pela vida que quero vivê-la mesmo depois que a vida passar. A morte não me atingirá no dia de amanhã. É que estou sempre no "hoje", e hoje escrevo isso que é para fidelizar pela eternidade um pensamento que me ocorreu cedo de manhã; quando na eternidade eu estiver, sentirei vontade de experienciar o êxtase que há em saciar a fome e, no momento seguinte, estarei nascendo humano mamífero na terra, que é para saciar-me, nem que seja temporariamente, essa fome eterna que sinto pela vida e vivo-a à procura de algo que ainda não sei o que é. Não a encontrei enquanto homem, menos ainda enquanto eterno. Penso se é possível existir algo entre essas duas coisas, um meio termo entre a onisciência e a consciência que agora nascida desconhece o mundo até que ele se apresente a ela. Eu tenho essa mania chata de flertar com o impossível.
Nenhuma delas é a iluminação. Perdoe-me se estou falando demais; é que me empolgo todas as vezes que flerto com a ideia de estar comunicando-me com o eterno, que é o responsável por tudo o que há de material no mundo. Mas não enxergo a existência de modo tão simplório a ponto de acreditar que só existe aquilo que sou capaz de tocar, enxergar ou degustar. E aqui mora um problema que demorei para encontrar uma solução. A matéria não me é suficiente, mas, pelo que se sabe, ela é tudo que há de real no mundo, e qualquer coisa que fuja disso é fruto da imaginação do homem. O homem criou Deus para sanar suas dúvidas que não obtiveram respostas até então, mas, com o passar do tempo, passou a não gostar mais desse Deus e, com alguma rebeldia, o rejeitou. Tudo o que é perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito; quando tive fome de uma coisa que sequer fora nomeada, entrei em profundo processo de autofagia, que é também uma espécie de sacrifício que faço em nome de algo divino e iluminado, cujo significado sou eu mesmo quem dou. Quero contato com coisas mais profundas, que é para ver se me torno um melancólico um pouco menos chato. Acontece que não vejo graça em relações interpessoais repetitivas; as pessoas me cansam com suas conversas demoradas sobre coisas que só interessam a elas mesmas. Sou uma espécie de esfinge que vive em processo meditativo, conversando com o vazio que há dentro da introspecção, porque tudo o que vem de fora são coisas passadas, é conhecimento datado para uma alma que já viveu quase tudo o que tinha para viver e que só existe na terra para sentir, nem que fosse um pouco, do prazer que é estar respirando o ar gélido da noite no aguardo de um novo dia que ainda virá. Se no eterno o tempo não existe, mesmo na onisciência existem coisas que são desconhecidas. Desconheço a fome, a sede e a vontade de comer; mas sinto fome enquanto existo corpóreo e quero comer de boa comida, que é para saciar a falta da boa companhia. É que só me entendo quando estou só. Na companhia de outras pessoas, vou absorvendo frequências que não me pertencem, pois só assim é possível comunicar-me coerentemente com o externo. Mal sabem eles que estão olhando para uma casca vazia, pois nem aqui estou de fato. Eu estive na formação de novas ondas quando o mundo ainda era um pequeno embrião em formação, ouço o canto dos planetas que a mim mais parecem gritos de desespero, mas é também uma oração declarando que Deus é o Senhor. E Deus está chamando cada uma das estrelas pelo nome, é que tudo pertence a ele e tudo é para ele; estou ouvindo seu louvor e vou caminhando na direção da voz que me seduz, convidando-me para conhecer a eternidade em mundo imaterial que antecede o mundo externo. Agora contento-me apenas em entender que a vida é delicada e, com imensa alegria, percebo o privilégio que tenho em descobrir todas essas coisas. É que não há mérito algum em descobrir a solução de uma equação quando já se tem a resposta na ponta da língua, extraída de uma sabedoria ancestral. Descubro-a, mesmo nascido na ignorância, e foi da ignorância que fui capaz de perceber que, se há fome, é porque há vontade de comer. Estou devorando-me que é para descobrir o que sou para além de matéria biológica, o que antecede minha existência e o que sucederá de mim quando meu corpo já não for mais "vivo". É que sinto tanto prazer pela vida que quero vivê-la mesmo depois que a vida passar. A morte não me atingirá no dia de amanhã. É que estou sempre no "hoje", e hoje escrevo isso que é para fidelizar pela eternidade um pensamento que me ocorreu cedo de manhã; quando na eternidade eu estiver, sentirei vontade de experienciar o êxtase que há em saciar a fome e, no momento seguinte, estarei nascendo humano mamífero na terra, que é para saciar-me, nem que seja temporariamente, essa fome eterna que sinto pela vida e vivo-a à procura de algo que ainda não sei o que é. Não a encontrei enquanto homem, menos ainda enquanto eterno. Penso se é possível existir algo entre essas duas coisas, um meio termo entre a onisciência e a consciência que agora nascida desconhece o mundo até que ele se apresente a ela. Eu tenho essa mania chata de flertar com o impossível.
