A música Secretária (Assédio sexual) e os limites éticos entre as relações no local de trabalho



Sim, sou eu. Após cerca de um ano e três meses, cá estou eu de volta com um post próprio aqui no Recreio. Hoje, vamos falar sobre uma música de 2001, mas que poderia muito bem ter sido composta em 2022.

Provavelmente, a canção "Secretária", do cantor Amado Batista, não é conhecida por muitos de vocês — no máximo por um Alessandro ou Fujiro da vida. Exalando a mais profunda breguice que o estilo do artista costuma passar (sem juízo de valor aqui), não me parece um estilo que chegou a fazer parte do cotidiano da maior parte dos leitores/comentaristas/moiteiros do Recreio.

Mas por que o retorno com um post tão aleatório? Bem, isso nem eu sei responder. Apenas estava preparando o café da manhã no conforto de minha casa quando tocou a dita canção no rádio e me veio a ideia do post.



Ela não era de forma nenhuma desconhecida para mim, visto que fez parte de toda a minha infância e de boa parte da minha adolescência. Embora nunca tenha sido meu estilo musical preferido, o "brega" é bastante escutado no núcleo social onde nasci e cresci, de modo que seria bastante difícil crescer sem escutar títulos de nomes como Reginaldo Rossi, Odair José e até mesmo do próprio Amado Batista.

A música em questão, inclusive, me traz boas recordações de quando a ouvia de uma vitrola que pertencia a meu tio enquanto brincava com meus primos. Anos mais tarde, passou a tocar exaustivamente em um bar construído por meu bem perto de minha antiga casa — estas, não tão boas recordações.

Deixando um pouco a enrolação de lado, sempre escutei a música como uma canção de um homem apaixonado pela secretária, sem se atentar às inúmeras nuances que podem ser observadas na letra e que — embora composta há mais de duas décadas — parece se adequar mais ao período atual que à época em que foi lançada.

Ela chega tão meiga e tão bela

Puxa as cortinas e abre a janela

Sempre com a mesma delicadeza


E depois na sua sala ao lado

Atende o telefone, anota os recados

E coloca sobre minha mesa


Está sempre muito sorridente

Trata bem todos os meus clientes

Para ela não é sacrifício

As três primeiras estrofes da música mostram uma descrição do que é esperado por padrão para uma mulher na sociedade. Meiga, bela, delicada, sorridente e — principalmente — alguém que está ali para servir. Atender o telefone, anotar os recados, etc.

São todos atributos admirados pelos compositores — nesse caso, Amado Batista e José Teixeira —, os quais certamente contribuem para sua paixão. Até aí, tudo bem. Mas prossigamos com o restante.

Porém meu coração não quer entender

O que ela faz com tanto prazer

É um dever do seu ofício

Esta estrofe, isoladamente, é um dos pontos altos da canção e um dos motivos que a trazem para o ano de 2022. Afinal, estamos tratando aqui de um comportamento praticamente atemporal quando tratamos de relações humanas.

Primeiro de tudo, o eu-lírico percebe que os tais atributos almejados por ele para uma mulher não passam de características geralmente requeridas para a profissão de secretário. Certamente, para ele, há uma confusão mental que é bastante comum na cabeça de muitos homens — inclusive, já foi na deste que vos escreve.

Não é nada incomum lidarmos com casos em que uma mulher (ou homem) é demasiadamente educado — uma característica inata destes indivíduos —, e isso acaba sendo confundido com amor ou interesse sexual.

Este relato no Reddit que viralizou recentemente — seja ele uma fic ou não — mostra, por exemplo, um homem que colocou sua relação a perder por interpretar erroneamente o comportamento de uma colega de trabalho. No fim, ela apenas o enxergava como seu "amigo gay hétero".

O eu-lírico da canção entende muito bem da possibilidade de estar interpretando erroneamente o comportamento da funcionária, mas se vê envolto num dilema entre seu cérebro (sua razão) e seu coração (a emoção).

Infelizmente, para muitos homens é ainda difícil observar uma mulher que age de forma competente "com tanto prazer" pode o fazer apenas por vontade própria, por amor ao trabalho, e não por interesse.

O mesmo vale para a vaidade feminina, a qual é muitas vezes interpretada como uma estratégia para conquistar homens — e não como um desejo pessoal de se sentir bonita e realizada consigo mesma.

Secretária, que trabalha o dia inteiro comigo

Estou correndo um grande perigo

De ir parar num tribunal


Secretária, às vezes penso em falar contigo

Mas tenho medo de ser confundido

Por um assédio sexual

Ápice da canção, estas duas estrofes aumentam ainda mais o número de dilemas enfrentados pelo eu-lírico. Embora haja a possibilidade de não haver interesse por parte da secretária, seu coração pode estar apontando na direção certa. É algo que nunca saberemos, afinal, a obra é fechada e canções são livres para interpretação.

Como saberia, então, o eu-lírico se sua tão interessante secretária estaria ou não interessada? E como saber o limite entre o profissionalismo e a vida pessoal?

O medo de ir parar num tribunal, na época em que a música foi escrita, certamente resulta de um exagero artístico proposital do artista. Por isso que a canção se torna tão adequada para os dias atuais, visto que a possibilidade de ser alvo de uma denúncia e posterior julgamento devido a tal situação é exponencialmente maior hoje em dia.

Se antes pouco se pensava em dilemas como assédio moral e sexual no local de trabalho (ou em qualquer outro local), vivemos numa época em que o movimento Me Too virou um dos maiores símbolos de resistência feminina contra comportamentos do tipo.

Obviamente, o autor da canção sabia, já na época, das complicações éticas e morais que envolvem uma questão do gênero envolvendo patrão-empregada.

Embora não fosse a intenção dele assediá-la sexualmente — como é explícito quando ele observa que tem medo de ser "confundido" —, ele entende que está numa posição de privilégio em relação à subordinada e que ela, de alguma forma, poderia entender seu "avanço" como uma tentativa de oferecê-la algum benefício em troca de uma aproximação sexual.

E é isso, certamente, o que muitos patrões fazem — novamente, não o caso do autor da música —, deixando suas vítimas em uma situação de vulnerabilidade e muitas vezes agindo com chantagem e ameaças para conseguir tal aproximação.

Dessa forma, pode-se entender que as vítimas nem sempre carregam a responsabilidade por trás de tal aproximação — o famoso "cedeu, porque quis". Muitas vezes, elas apenas não contam com outra opção, visto que precisam do trabalho para sobreviver.

A relação dominante-dominado não se estabelece apenas nesse contexto corporativo, mas em muitos outros da sociedade. Em escolas, por exemplo, a relação entre um(a) professor(a) e um(a) aluno(a) extrapola os limites da ética pelo mesmo motivo: o agente dominante interessado pode simplesmente oferecer favores em troca de uma aproximação (uma nota mais alta, etc.) e ameaças como retaliação a uma não-concessão por parte do agente dominado.

Obviamente, em ambos os casos existem agentes dominantes bem intencionados — como o caso do autor de Secretária ou no da professora Raquel na novela "Mulheres Apaixonadas" (TV Globo, 2004) —, mas na maior parte dos casos a não extrapolação desse limite ético é a melhor solução.

Com isso, Amado Batista, mesmo com sua evidente admiração pela sua secretária, não estava nem um pouco errado de temer uma confusão por assédio sexual.