Por: Fujiro Nakombi
A história mais incômoda da corrida espacial é sobre este que Fujiro Nakombi irá vos escrever.A história desse homem não cabe em narrativa de herói, também não cabe em narrativa de vilão. Ela cabe na zona cinzenta onde ciência, guerra e política se encontram.
Desde que o Fujiro Nakombi cursava Engenharia, tinha nessa pessoa como uma de suas inspirações. Com certeza não pela ideologia que outrora ele serviu, mas por gostar de música clássica ao ponto de consetuir tocar canções de Beethoven e Bach de memória, pelo seu amor pela engenharia e sua persistência em realizar seu sonho de desbravar o universo, meu post hoje é sobre o alemão/americano Wernher Von Braun.
Wernher Von Braun nasceu em 1912, na cidade de Wyrzysk, na Alemanha (hoje, Polônia). Aluno dedicado, na infância foi presenteado por sua mãe com um telescópio após seu batismo na igreja luterana, então desenvolveu uma paixão pela astronomia. Destaque na área de exatas, o jovem quando adolescente sonhava com viagens ao espaço e planetas vizinhos. O problema é que o sonho dele precisava de dinheiro, e na década de 1930, já formado em engenharia mecânica pela Universidade Técnica de Berlim, e com Ph.D em física voltada para estudo de combustão em foguetes, só havia um cliente com dinheiro infinito: o regime nazista, que acabara de chegar ao poder na Alemanha e fazia um forte investimento na área de infraestrutura e ciência e tecnologia.
Aos 25 anos ele já liderava o programa de foguetes em Peenemünde, um vilarejo na Alemanha onde ficava uma base militar secreta e que realizava pesquisa em mísseis bélicos. Nesse lugar, cientistas nazistas criaram o primeiro míssil balístico do mundo, o V-2, e também a bomba voadora V-1 já durante a 2ª Guerra Mundial. Liderado por Von Braun, o local estabeleceu as bases da tecnologia aeroespacial moderna, mas, como não é nenhuma surpresa, utilizou trabalho escravo, a grande maioria de judeus.
Entre todas os resultados do local liderado por Braun, o V-2, primeiro míssil balístico de longo alcance da história, foi o mais impactante, mesmo que não tivesse um local exatamente certo de acerto e explosão, podendo talvez cair em uma area rural ou não atingir monumento algum, o diâmetro de acerto em quilômetros era correto, e assim foi uma revolução técnica na área e na engenharia bélica na época.
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| Von Braun quando pertencia a SS nazista |
Mas essa revolução teve um preço humano. Os V-2 mataram alguns milhares em Antuérpia e principalmente Londres, locais onde foi testado e depois lançados, visto como era dificil uma invasão a Grã-Bretanha devido sua marinha poderosa bem entrosada com sua força aérea bem preparada, era através dos mísseis que a cidade inglesa mais importante era alcançada. E para construí-los, como ja dito, trabalho escravo foi utilizado. Mais de 20 mil prisioneiros escravos morreram na construção dos mísseis, acredite, mais do que o numero total de civís vítimas dos bombardeios pelas V-2.
Von Braun sempre disse que era "apenas um engenheiro". Que não tinha escolha, e que desconhecia o trabalho escravo nas bases onde trabalhou. Mas ele usava uniforme da SS, era membro do Partido Nazista e visitava as fábricas. Negar responsabilidade não apaga o fato: sem o V-2 não haveria Saturno V.
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| Von Braun quando ainda era um pesquisador a serviço da Alemanha nazista |
A corrida pelo cérebro alemão
Em 1945 a guerra acabou. E começou outra corrida: não só por território, mas por cientistas. Os americanos chegaram primeiro em Peenemünde. Na Operação Paperclip, os EUA trouxeram mais de 1.500 cientistas alemães para a América. Por puro interesse estratégico, Von Braun foi trazido em segredo para os EUA. Era o prêmio principal!
A escolha dos EUA foi pragmática e fria: "melhor nós do que os soviéticos". O julgamento de Von Braun nunca foi realizado e seu passado foi arquivado. Enfim, o uniforme foi trocado por um terno e em poucos anos ele estava dando entrevistas na Disney onde participou de filmes educacionais, explicando foguetes para crianças, com sotaque alemão e um sorriso fácil.
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| Von Braun e Walt Disney |
O arquiteto da Lua
Com apoio e investimento de sobra, nos EUA, von Braun fez o que sempre quis: construir foguetes para ir ao espaço, não para matar. Ele virou o diretor do Centro Marshall da NASA, e foi o cérebro por trás do foguete Saturno V, aquele que levou Armstrong, Aldrin e Collins à Lua em 1969. Pense nisso: o mesmo homem que projetou armas para Hitler 20 anos antes, agora projetava a maior conquista pacífica da humanidade. Ele não pisou na lua, mas sem ele, ninguém pisaria.
Foi um dos maiores líderes dos EUA na corrida espacial, e sua contraparte é rival foi Sergei Koroliov, o brilhante engenheiro de foguetes e projetista soviético do lado vermelho da corrida espacial, considerado por muitos o pai da cosmonáutica prática, um que também merece um post no Recreio. Por que, não?
Wernher Von Braun se tornou um símbolo do "Sonho Americano": imigrante, gênio, redimido pelo trabalho na América.
São conhecidas e documentadas duas visitas de Von Braun ao Brasil. Uma em 1964 e outra em 1972 quando ele visitou a capital Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro, também conhecendo o Cta, o INPE e a Embraer.
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| Von Braun e ao fundo o Saturno V |
Mas romantizar von Braun é tapar os olhos para uma parte escura da história. É fingir que ciência acontece no vácuo, sem política e sem ética. Os EUA fizeram um acordo com o diabo na Guerra Fria. Pegaram o conhecimento nazista e usaram para vencer os soviéticos. Uma estratégia de quem não fica de braços cruzados, mas que independentemente disso, continuou investindo e desenvolvendo. Deu certo do ponto de vista técnico, do ponto de vista moral, a conta nunca foi fechada.





