O Messias veio mesmo — e diferente do que conhecíamos


Estava conversando com um amigo hoje e, do nada, ele me envia um vídeo um tanto quanto curioso: um pastor com um discurso inflamado e repleto de palavrões. Em pleno púlpito — e aparentemente sem qualquer rejeição ou discordância explícita por parte dos fiéis que o assistiam.

Do nada, passou um filme na minha cabeça que logo remeteu à minha infância. Minha mãe sempre foi contra que falássemos palavrão, mas essa sua aversão cresceu exponencialmente depois que ela se converteu ao evangelicalismo — ou, no bom e velho popular, "virou crente". Na época, lembro bem, falar palavrão era algo inadmissível para alguém evangélico. A ordem era se distinguir ao máximo do mundo, com base coerente em versículos bíblicos em que o apóstolo Paulo condenava com veemência o uso de palavras torpes pelos cristãos.

De uns tempos para cá, a aversão virou aceitação — e da aceitação passou à normalização. Não é raro eu me deparar com colegas evangélicos proferindo palavrões, não só sobre excrementos, mas até mesmo de cunho sexual. Dá pra explicar boa parte disso pela própria evangelização virando cultura mainstream no Brasil (meio que nos moldes do catolicismo de sempre), com uma leva de "evangélicos não praticantes" surgindo por aí. Mas essa é só uma parte da história — a que eu quero puxar aqui tem nome e sobrenome, e um sobrenome já bem conhecido dos cristãos antes mesmo de aparecer nesse universo.

Trata-se de Jair Messias Bolsonaro, ex-presidente que caiu nas graças dos evangélicos brasileiros desde sua primeira campanha, em 2018. É tratado como "mito" por muitos deles — e praticamente endeusado por pastores em pleno púlpito, espaço que se tornou cada vez mais político desde a ascensão do capitão.

Bolsonaro vai de encontro a qualquer estereótipo do evangélico perfeito que existia na minha época de infância. De dez palavras que saem da boca dele, onze são palavrões. Tem um jeito bruto e truculento de lidar com as coisas, além de aparentemente nunca ter virado evangélico de fato. Você pode argumentar que Lula é um candidato pior — e para os evangélicos, que pautam temas caros como o aborto ou a tal "ideologia de gênero", deve ser mesmo. Mas um lado ser ruim não justifica o endeusamento do outro, muito menos uma mudança comportamental tão evidente.

E essa mudança não ficou só no campo dos palavrões — esse foi apenas o gatilho que puxou a conversa com meu amigo. O armamento civil é outro exemplo claro de como Bolsonaro reposicionou boa parte dos evangélicos num tema em que eles historicamente estavam do lado oposto.

Pesquisas ainda indicam que a maioria da população evangélica se mostra contrária às armas nas mãos de civis, mas a aversão a essa possibilidade era bem maior no início dos anos 2000 — e o referendo sobre armas de 2005 mostra um pouco desse cenário. Na época, várias entidades evangélicas se uniram em campanhas anti-armamentistas, com base tanto no clássico "não matarás" quanto em outras passagens bíblicas — especialmente do Novo Testamento — que soam como um desincentivo claro ao armamento. Em parceria com a Polícia Federal, houve campanhas de destruição em massa de armas em igrejas (principalmente pentecostais) e até na Marcha para Jesus, uma delas liderada por ninguém menos que Silas Malafaia — hoje um dos apoiadores mais enfáticos de Bolsonaro.

Não vou entrar aqui no mérito do que leva um grupo a uma guinada tão radical na própria identidade religiosa por causa do apoio a um líder político. Mas é interessante ver como um movimento como o bolsonarismo consegue influenciar não só a esfera política, mas também a religiosa. Se outrora os evangélicos apoiaram políticos pacifistas como Marina Silva, hoje boa parte deles está entregue a um Messias que vai de encontro a praticamente tudo o que se atribui a Jesus Cristo — um contraste e tanto com o que se esperaria desse grupo.

Armamento, justiçamento, pena de morte (a mesma punição que o próprio Jesus sofreu injustamente do Estado) e, sim, até o palavrão — hoje tudo isso é plenamente normal e corriqueiro para o bolso-evangelicalismo tupiniquim. E sinceramente, perto disso, quando um pastor solta um palavrão do alto do púlpito é normal que ninguém estranhe.