PS: Esse conto é uma continuação 'prequela' de "O Designio de Acolá", que você pode conferir aqui: O Designio de Acolá.
"Depressão Pós-Nascimento de uma Estrela"
É que Gael parecia mais consciente de sua própria existência do que qualquer outra pessoa que ela já conhecera ou que viria a conhecer. O menino parecia estar cronicamente julgando o mundo à sua volta e, por consequência, sua própria mãe. Sempre que cruzavam olhares, havia aquele breve momento de julgamento consciente; era quando ela intuía em seu íntimo que ele a estava denunciando, sentindo uma imensa mágoa por tê-lo feito vir a esse mundo 'novamente', e Marcela sentia seus lábios tremerem como quem está prestes a fazer um pedido de desculpas, na direção de seu filho que sequer tinha aprendido a falar. Quanto mais a pensar. Era um gesto incoerente, mas que de alguma forma parecia fazer sentido. Sua paranoia estivera ficando pior a cada dia que passava; na hora de dormir, passou a sentir uma estranha sensação de que Gael poderia estar encarando-a com aquele olhar bovino, diretamente de seu berço — que Marcela havia colocado em seu próprio quarto, do lado esquerdo de sua cama, pois agora ambos estavam sozinhos naquela casa e não seria nada seguro deixar seu bebê dormindo sozinho no quarto ao lado —. E, após ficar deveras corroída com tal paranoia, ela passou a repensar essa ideia.
Talvez não tenha sido a melhor opção, pois passou a imaginar por noites a fio que havia, sim, dois olhos negros apontados diretamente para sua direção, quase em tempo integral, e isso a estava enlouquecendo. Duas ou três vezes levantou-se de sua cama no meio da noite para olhá-lo e ter a certeza de que Gael estava de fato dormindo e não a julgando ou culpando de qualquer coisa. E sim, em todas as vezes o menino dormia igual a todo bebê dorme, calmo e em paz, como um anjo. Passou brevemente por sua cabeça que aquilo poderia ser algum tipo de truque para enganá-la; ele poderia estar fechando os olhos para que ela pensasse que não havia nada de errado acontecendo naquela casa. Odiou-se por inteiro por considerar essa hipótese e tentou expurgar para longe de si esse pensamento, pois sabia que lentamente estava começando a odiar seu próprio filho por tirá-la de sua cama quando já estava tão cansada. Não poderia ela odiar seu primogênito; isso é coisa que não se faz. Além de ser loucura achar que um bebê teria autonomia para elaborar esse raciocínio tão complexo. Acreditar nisso seria ilógico e absurdo, mas isso não a impediu de ficar novamente paranoica no momento imediato em que se deslocou para sua cama na tentativa de voltar a dormir: novamente sentiu em sua espinha a estranha sensação de estar sendo constantemente observada e julgada.
2) No início foi difícil perdoar Pedro, seu ex-noivo, pois ambos tinham feito tantos planos juntos e, de parte dele, vieram muitas juras de amor canônico. Eram bons amigos e excelentes amantes. Mas, após o nascimento de Gael, tudo mudou. Pedro ficou frio, primeiro com ela e depois com o bebê, não olhava-o no rosto e sequer gostava de segurá-lo em seus braços; era uma rejeição completa e mal-disfarçada. Marcela ficou furiosa pela defesa do filho e as brigas de casal foram constantes e insuportáveis, algumas até violentas. Ela não sabia o porquê daquilo e nem queria saber; mas passou a sentir repulsa de seu — até então — noivo, pois, se tinha uma coisa que não suportava, era um pai relapso e ausente. Ele não havia dado sinais de seu comportamento ou foi ela quem não fora capaz de perceber. Mas agora havia a ausência de sua presença; Gael tornara-se órfão de pai vivo repentinamente e Marcela teve de lidar com essa situação da melhor maneira que pôde, ela que era tão jovem e não estava suficientemente madura, jamais tinha sido esposa de alguém e ainda não tinha a menor ideia de como ser "mãe". O resultado foi o fim de seu futuro casamento e, aos 29 anos, essa jovem parturiente tornou-se uma mãe solteira. Mas, dentro de si, ainda restava um pouco de esperança; sabia que nem tudo estava acabado — "enquanto há vida, há esperança", foi o que disse para si mesma. Ficou acordado que Pedro pagaria uma pensão e que faria visitas esporádicas para ver o filho, mas isso foi coisa que nem um dos dois estava fazendo muita questão. Marcela por mágoa e Pedro por displicência.
E eu poderia dizer que havia uma terceira pessoa nessa equação, que também não estava fazendo muita questão de receber as visitas desse moço, um pequeno pedaço de gente que, por enquanto, só sabia comunicar-se com os olhos. Marcela tentou entender qual seria a posição sentimental do menino enquanto pivô daquela separação, e o que seu olhar revelou foi uma profunda indiferença em relação àquele que se diz seu '''pai'.
— "Pois ele que vá pro diabo" — Marcela disse entre dentes quando teve outro de seus acessos de raiva. Estava sozinha em casa, exceto pela companhia de seu filho. Quando percebeu que seu acesso não teria qualquer resposta, levantou com impaciência o braço esquerdo, arfando um resmungo desgostoso, e voltou para a cozinha, pois tinha muita louça para lavar.
Mas não demorou muito para que as circunstâncias tivessem mudado drasticamente. Três semanas desde a partida de Pedro e ela estava sentindo a falta de sua companhia e não estava mais com tanta raiva — ainda havia a mágoa pelo abandono —, mas, no fundo, ela passou a reconsiderar sua posição. Em partes. Mas havia sim uma fagulha de dúvida sobre a súbita mudança de comportamento de seu homem. Pedro não era assim tão imprevisível; Marcela sabia que tudo começou com pequenos gestos de animosidade em relação a Gael. Era uma vontade louca de não estar perto do filho. Quando sua mulher não acompanhou seu raciocínio, decidiu afastar-se de ambos. E agora era ela quem não queria estar por perto, encarando diariamente seu próprio fracasso enquanto mãe, ficando constantemente exposta a todos os seus medos e seus pecados. Lembrava-se ainda do dia em que Gael veio ao mundo, quando acreditou que conheceria profundamente aquele pedaço de gente, achava que não havia mais ninguém no mundo capaz de receber todo seu amor quanto seu filho. Porém, agora, algum tempo depois, parecia não saber mais a quem deu a luz. Não sabia como conhecê-lo e nem como amá-lo com a mesma contundência de outrora; tudo estivera acontecendo tão rápido e ao contrário do que foi planejado por ela. A cada dia que passava, parecia reconhecer menos ainda o fruto de sua semente e isso a estava enlouquecendo.
Na quarta-feira, 23 de outubro, dia de receber o dinheiro da pensão, Pedro telefonou para informá-la de que já havia depositado o ordenado e ambos tiveram uma conversa estarrecedora.
— "Fala logo, Pedro, não posso ficar muito tempo no telefone, pois ainda tenho muita coisa para fazer. Já passa do meio-dia e ainda nem lavei as roupinhas de dormir do Gael.''
— "Eu só queria avisar que já depositei o dinheiro do menino. E mandei mais um extra pela conta da farmácia da semana passada.''
— "Tudo bem, obrigada" — ela parecia cansada. — "Pontual como sempre."
— "Tá tudo bem, Macy? Você parece... ah, distraída." — Pedro tinha o costume de parecer cínico sempre que não queria ir direto ao ponto ou quando estava desconcertado com alguma situação. Era o segundo caso. Isso irritava Marcela profundamente.
— "Eu não estou distraída. Estou cansada. De repente, tudo caiu nas minhas costas e eu tive que continuar de pé. Eu tô c-a-n-s-a-d-a'' — ela disse essa última palavra pausadamente, com muita ênfase para não restar mais dúvidas.
— ''Aconteceu alguma coisa?'' — ainda cínico, ainda ausente e ainda relapso.
— "É que ontem eu tive que ir a uma entrevista de emprego. Para trabalhar no balcão de uma farmácia lá no centro. Foi um inferno, tinha outras vinte moças atrás do emprego e eu estava uma pilha de nervos. Tenho certeza de que não fui bem e que perdi a vaga. Além do mais, tive que deixar Gael com a vizinha, pois não tinha mais ninguém que pudesse ficar com ele nesse meio tempo.''
— "Meu Deus, Marcy, você quer emprego? O menino não tem nem quatro meses e eu estou pagando as contas da casa; não precisa disso.''
— "Para de me chamar de Marcy. E você está achando que eu vou depender de você até quando, hein? Do jeito que você é fugidio, poderia muito bem mudar de ideia assim de repente e não querer mais me ajudar com as finanças aqui de casa. E, nesse caso, o que seria de nós?''
— "Eu não faria isso. Vou sustentar o Gael até quando for necessário. E você também. Eu só não estou mais morando na mesma casa com vocês porque tive que cuidar da minha vida.'' — Pela primeira vez durante essa conversa, Pedro pareceu estar sendo sincero.
— ''Tá. Mas o seguro morreu de velho.''
— ''E com quem você deixaria nosso filho durante o expediente? Se até para ir à porra da entrevista você deixou aquela mala sem alça com a vizinha'' — Pedro levantou o tom de voz. Deixou o cinismo de lado e adotou o nervosismo por completo. Marcela tinha razão; ele tinha a estranha mania de mudar da água para o vinho de uma hora a outra.
— "Não fale assim do meu filho. E da minha vida cuido eu. Não enche o saco, Pedro. Se era só isso que você tinha a dizer, eu vou desligar.''
— "Não, calma..." — ele fez uma longa pausa e, quando disse, foi como um sussurro, como quem diz algo a si próprio e não a outra pessoa. — Desculpe, mas... você deve estar fazendo isso para ficar longe dele, não é?
— "O que foi que você disse?"
— ''Você quer ficar longe dele, não é?''
Marcela não soube o que responder, pois mal estava acreditando que realmente escutara aquilo. Era um pouco surreal. Pedro sabia ser insolente quando queria. Outra de suas artimanhas que irritava Marcela profundamente era sua incrível capacidade de deixá-la embasbacada; era quando as palavras fugiam de sua boca.
Escapavam-lhe de tal modo que essa artimanha prosaica fora suficiente para que as relações interpessoais com seu ex-companheiro fossem cortadas por completo, não que qualquer um deles tenha lamentado o fato, mas isso serviu de ruptura e quebrou de uma vez por todas os laços de afeto que ela ainda mantinha com a antiga vida que costumava levar. Era agora uma outra mulher, e essa nova criatura estava sendo moldada ao passo que sua sanidade variava em momentos de muita compreensão e repentinos sentimentos desesperados de exaustão. Ela queria mesmo era desaparecer do mundo, como se nunca tivesse existido — se não existo, não sofro —, mas quem cuidaria de Gael quando ela já não estivesse mais aqui? Tal raciocínio cortou pela raiz qualquer flerte que ela poderia ter tido com o suicídio. Mas isso não impediu que a angústia a tomasse para si, fazendo de seus dias mais melancólicos do que deveriam.
3) Marcela nunca aprendeu a lidar com o fato de que existem pessoas sencientes no mundo, por nunca ter tido em seu caminho alguém que fosse capaz de provocá-la no sentido filosófico e existencial, aventando a possibilidade de que seria melhor continuar fazendo parte da irrealidade do que vir ao mundo como seu filho estivera fazendo nos dias em que fez parte de sua vida. Gael sempre foi desgostoso da própria matéria e não fazia a menor questão de esconder isso. Mesmo sendo criança de colo, o menino já demonstrava que não estava gostando de ser carregado e, quando aprendeu a dar os primeiros passos — muito precocemente, com sete meses de nascido —, passou a demonstrar descontentamento com o fato de ter que carregar a si mesmo, demonstrava irritação e impaciência, sentimentos direcionados à única pessoa no mundo capaz de saber e sentir o que se passava em sua pequenina cabeça, sua mãe. Marcela, ao mesmo tempo que demonstrava firmeza, pois, sim, o menino teria que aprender a andar de modo autônomo mais cedo ou mais tarde e carregar a si próprio, tratava logo de desviar o olhar para não ter que encarar de frente sua injusta acusação: "Isso tudo é culpa sua!", ele lhe dizia — ambos estavam num impasse, mas, nesse caso, a criança tinha mais direitos do que o adulto. A situação se resolveu quando Marcela, a contragosto, comprou um andador azul-bebê (pago por Pedro); Gael andaria e seria carregado, e o problema estaria resolvido. Mais tarde, houve situações que a deixaram constrangida. No primário, quando Gael, já crescido, entrou em período pré-escolar, ela tinha que sair do trabalho constantemente, pois as professoras estavam denunciando uma situação que até poderia se repetir com outras crianças da mesma idade, mas com ele era diferente por ser um ato de rebeldia consciente, e, no fundo, ela sabia (e, certamente, as professoras intuiam também) deu-se que o menino se recusava veementemente a ir ao banheiro, fazendo suas necessidades in natura, sujando as roupas e tudo mais o que podia. Maria da Graça, sua primeira professora, sugeriu que ele continuasse usando fraldas e, depois de muita luta para convencê-lo — "É de bebê", ele dizia — e Marcela, que já estava irritadíssima com o filho, esbravejou a plenos pulmões: — "Então pare de cagar nas próprias calças, seu coisinha!" — Ele recuou, pois, mesmo sendo altamente crítico e naturalmente disruptivo, ela ainda era a sua mãe e, então, sua vontade foi feita.
4) O tempo passou e Marcela fez o que pôde para criá-lo da melhor maneira possível. O menino já estava crescido e tinha uma enorme desenvoltura com as palavras; era muito inteligente e tinha facilidade de aprender coisas novas. Era como se fosse um protesto que ele fazia inconscientemente, dizendo-lhe: "Eu não preciso ir à escola. "Eu sou a minha própria escola." Por vezes ela o surpreendeu encarando o nada, em reflexão. Nesse momento de sua vida, o menino já aprendera a andar sozinho, ficava de pé por tempo demais, visando o horizonte. À vista não era nada impressionante, pois a janela da cozinha dava diretamente para a rua, onde outras casas semelhantes à de Marcela completavam o ambiente. Havia algumas árvores, trazendo um inspirador tom de verde em meio ao típico cinza cor de asfalto adotado em abundância pelas cidades grandes. Catatônico e pensativo, ele parecia estar fascinado pela figura do sol que se projetava ao fim do dia, escondendo-se lentamente no muro da casa vizinha mais próxima. Marcela intuiu que o menino buscava aquilo que é eterno e misterioso, contraponto à sua própria natureza mortal. Sua conclusão foi que Gael tinha tendências escatológicas quando o assunto era o momento que se fazia presente e que lhe era imposto; mas o eterno ele respeitava religiosamente, ficando em silêncio e fazendo movimentos esparsos que eram somente sua respiração. Achava aquilo curioso e engraçado; parecia uma miniatura de homem que, em meditação, era capaz de esquecer do mundo à sua volta, sequer percebia sua presença. Ela, assim como ele, ficava parada entre a porta da cozinha e o corredor, analisando-o friamente sem nem entender o porquê; os cabelos estavam presos em um rabo de cabelo, o pano que ela usava para tirar o pó dos móveis estava jogado no ombro esquerdo e ela utilizava um avental que estava quase inteiramente salpicado de areia vermelha — areia vermelha e barrenta que vinha diretamente da rua e que ela odiava, pois, por causa disso, sua casa parecia estar sempre suja, não importando quantas faxinas fossem feitas. Marcela era a figura perfeita de uma mãe, mas Gael, de jeito nenhum, estivera fazendo seu papel de filho. Ele não se enquadrava nos padrões que lhe foram impostos e não fazia a menor questão de encaixar-se em tal geometria — "tudo isso foi uma ''criação'' da humanidade e meu filho não gosta de nada que seja mortal.". "Ele só respeita aquilo que é eterno" — um de seus suspiros angustiados foi profundo demais, e Gael percebeu. Foi quando ele deu por encerrada sua parcela de introspecção melancólica do dia e encarou a mãe com um belo sorriso infantil, mas seus olhos, evidentemente, continuavam tristes.
— "Mamãe, estou com fome."
— ''Sim, filho, vou já fazer seu leite com chocolate. E tem pão de forma no armário. Vou buscar.''
Ele fez menção de que iria até a cozinha, mas parou por um momento, pois achou que esse seria um momento conveniente para sanar ao menos uma de suas muitas dúvidas.
— "Filho, por que você fica encarando o sol pela janela? Você faz isso pelo menos uma vez ao dia desde que era muito pequeno.''
— "Eu acho bonito. É curioso a forma como o sol se esconde e logo depois é que vem a noite.'' — Ele ponderou, e seus olhos ficaram vagos por um momento, parecia estar buscando na própria mente uma centelha de pensamento que ainda estava em formação e, quando esse pensamento finalmente se fez, ele continuou: — ''Não entendo o porquê do dia ter que deixar de existir para que se faça a noite; seria interessante se ambos pudessem estar juntos ao mesmo tempo, você não acha?''
— "Sim. Acho. Mas existem os eclipses, filho; é quando a lua entra na frente do sol e então tudo fica muito escuro. Mas isso é um fenômeno raro, difícil de acontecer.''
E, depois de processar essa nova informação e entendê-la com uma facilidade admirável, ele disse: — "Eu queria que fosse eclipse todo dia."
Marcela até pensou em argumentar e dizer-lhe que, se fosse assim, seria sempre escuro. Sempre à noite. E que as pessoas nunca mais veriam e nem sentiriam o calor humano que residia no nascimento de cada dia, mas ela nada disse, pois ficou com medo da resposta que Gael lhe daria. Ele tinha medo de que seu filho tivesse preferência pelo breu escuro da noite; isso poderia ser um traço de isolamento que mais tarde se configuraria em depressão. Quanto mais o tempo passava, mais Marcela ficava cheia de dedos para conversar com seu próprio filho, por medo e angústia do que poderia vir a seguir. Gael era uma caixinha de surpresas melancólicas.
5) Em uma noite quente de quarta-feira, em que ambos assistiam a um filme infantil na televisão, Marcela animou-se ao vê-lo dando risadas alegres com as trapalhadas do desenho animado; era um pai pateta tentando fazer seu filho adolescente e rebelde sorrir, como se quisesse ganhar sua aprovação. Mas era Gael quem estava se divertindo com suas palhaçadas. Ela ficou feliz ao vê-lo feliz e resolveu puxar assunto.
— "Filho, você gostaria de ter um irmãozinho para brincar com você? Às vezes te acho tão solitário nessa casa. E na escola você não tem feito muitos amigos, sua professora me disse. Eu sei que você não gosta muito de se misturar, mas com um irmãozinho seria diferente, né?''
— ''É. Seria legal.''
— "Sim. Acho que ele iria se chamar Gabriel. É um nome tão bonito quanto Gael.'' — Ela hesitou e começou a rir, cheia de tonterias. — ''Bom, mas isso é bobagem. Eu não estou namorando ninguém. Nunca mais tive outro homem depois do seu pai. Resolvi dedicar-me inteiramente a você, meu amor.''
Ele sorriu. E seus olhos lacrimogênicos acompanharam seu sorriso de um jeito adorável. Marcela passou a gostar dessa característica de seu filho, achando-o encantador.
— "Tem um Gabriel na minha turma. Ele é um chato e bobão. "Não coloca esse nome, mamãe."
— ''Mas seu irmão não seria um chato e bobão. Ele seria um bom menino, assim como você é.''
Ele torceu o nariz, sorrindo, demonstrando que, mesmo assim, continuava a rejeitar esse nome, e ambos começaram a rir.
— "Bom, se algum dia eu tiver outro filho, deixo você escolher o nome dele, tá bem assim?"
— ''Tá.''
— "Qual nome você daria?"
Ele parou. Ponderou. Ficou pensativo. Coisa que era típica e Marcela já estava acostumada. Esperou até que ele tivesse uma resposta para lhe dar.
— "Acolá" — disse lentamente, como quem não sabe muito bem o que está dizendo, mas ainda assim acha que está dizendo algo válido. — "Acolá seria meu irmão. E seria um irmão bem legal. Muito melhor que Gabriel.''
— Mas Acolá não é nome de gente, filho — ela achou graça e voltou a divertir-se, pois estava curtindo esse momento de descontração em família, que era tão raro. — ''E se fosse uma menina, qual nome você daria?''
— ''Dévora.''
Gael respondeu prontamente e parecia estar mais sério do que o normal. Mas logo voltou a curtir o filme.
Mais tarde, Marcela o colocou para dormir, incitando seu sono com um copo de leite morno (mas não em grande quantidade, pois ele poderia fazer xixi na cama), e logo após ela própria se recolheu em seu quarto. Estava cansada e profundamente preocupada com o futuro, que era incerto e aparentemente solitário. Não sentia-se verdadeiramente na companhia de seu filho nem quando estava bem a seu lado, pois Gael era profundamente monossilábico e introspectivo; encontrava-se em seu próprio silêncio, tinha longas conversas consigo mesmo e, sempre que ela tentava tirá-lo de sua gnose pessoal, ele levantava o rosto de supetão, como quem havia esquecido de que ainda estava nesse mundo. E então ambos dialogavam coisas prosaicas sem muito estofo abrangente; Marcela tinha a sensação de que jamais conhecera como seu filho era de verdade, por dentro, desejava descobrir, nem que fosse um pouco de seus mistérios. E foi naquela noite que ela pôde saber um pouco mais da mente conflitante de seu filho, pois ele tivera pesadelos abstratos, como quem entra numa gnose alucinada, só que dessa vez era fruto de sua inconsciência e não deve ter sido nem um pouco agradável, pois Marcela o encontrou gemendo bastante e suando frio, apertando os olhos com força como quem avistou algo desagradável e decide se afastar por sentir repulsa.
Ela acordou, pois ouviu seus solilóquios angustiados. Não eram verbais, mas palavras desconexas e sem significado que estavam sendo abafadas por seus gemidos infantis. Foi até seu quarto e percebeu logo que sua cama estava encharcada, mas não era de xixi, e sim de suor. Marcela começou a acordá-lo dando leves tapinhas em sua bochecha.
— ''Gael. Acorda, filho, vamos!''
— "Humm?."
— "Filho, acorda, você teve um pesadelo."
Ele abriu os olhos, confuso, não entendendo o porquê de sua mãe estar em seu quarto quando ainda era noite, mas ficou aliviado de imediato por estar desperto e de volta ao mundo real. Pois o mundo apresentado em seu sonho era, no mínimo, algo que nem ele próprio saberia definir.
— "Tá tudo bem, filho, você só teve uma noite difícil. Agora se acalme e me conte com o que você estava sonhando." — Gael estava sendo abraçado pela mãe, ambos deitados na cama e ela o ninando como se ele ainda fosse bebê de colo.
— "Eu não sei. Eu sonhei com muitas coisas ao mesmo tempo.''
— "Isso acontece com todo mundo. Sonhos são muito confusos. Mas você viu algo que te assustou ou que te deixou com medo?''
— "Sim. Eu acho." — Ele franziu a testa, parecia desorientado, tentando lembrar-se do que viu. Ou tentando colocar em palavras o que viu. É o equivalente a explicar de modo linear um quadro de arte abstrata; existem obras inerentes da forma e da cor, e o sonho de Gael se parecia com isso. — "Era como se eu não fosse eu. Eu não tinha um corpo, mas ainda era capaz de pensar. Eu tinha mente.''
— ''Você tinha uma consciência.''
— ''Isso. Uma consciência. Eu estava em um lugar totalmente escuro, que não acabava mais; era como se fosse o céu durante a noite e, abaixo, estivesse o oceano. Que também era muito escuro, então eu mal enxergava. Eu flutuava, mas fiquei com medo de cair e me afogar; eu não sei nadar, mamãe.''
— "Eu sei, meu amor" — ela parou e ponderou — "Acho que vou pagar aulas de natação para você; pode ser esse o problema, algum tipo de fobia por não saber nadar."
— "Mas não foi só isso. Eu não estava sozinho. Havia outros milhares que flutuavam também; eram incontáveis luzes brilhantes, e eu conhecia a todos. Poderia até mesmo chamá-los pelo nome.'' — Ambos estavam confusos, Gael por não conseguir decifrar seu próprio sonho e Marcela por não saber dar um significado a ele, mas ela também estava um pouco desconcertada, pois a mente de seu filho, aparentemente, era capaz de produzir sonhos fascinantes e abstratos. Gael era dotado de muita imaginação e inteligência, sem dúvida alguma. — "Acolá estava lá. Lembra que te falei sobre ele ser meu irmão?''
— "Sim, eu me lembro."
— "No sonho, Acolá era meu irmão. E centenas de outros que ali estavam. Eu estava desesperado porque tinha que ir a algum lugar, mas tinha uma espécie de fila, pois não podem ir todos de uma vez só. Eu era o próximo da fila, mas Acolá tomou meu lugar e passou na frente. Ele me roubou, mamãe!'' — Ele levantou o tom de voz e parecia nervoso. Marcela ficou sem entender que importância aquilo tinha, afinal, mas não verbalizou. Só continuou a abraçá-lo, esperando que ele acabasse de contar-lhe a história. — "Ele passou na frente e me deixou naquele lugar escuro e molhado, onde eu ficaria por mais uma eternidade antes de poder passar pela fila novamente."
— ''Entendo. Olha, filho, você tinha me dito que Acolá seria uma pessoa legal. Um bom irmão para você. Mas eu tô vendo que não é bem assim, não é?'' — Ela tentava sorrir, falava em tom apaziguador para reanimar Gael. Mas o menino parecia-lhe irredutível. Preso em sua própria casca.
— ''Mas ele foi legal, mamãe, eu não estava pronto para atravessar o portal e Acolá sabia. Mas eu sou rebelde e quis ir assim mesmo. Ele sabia que eu sofreria se viesse para cá; então tomou meu lugar e foi na minha frente; eu fiquei para trás.''
— "Como assim 'vir para cá'? "O que você quer dizer com isso, filho?"
— "Eu me via preso naquele abismo e queria sair. Saindo de lá, eu nasceria aqui. Acolá tentou me impedir, mas, assim como ele foi capaz de furar a fila, eu também fui; roubei o lugar de outra "pessoa" e então nasci no mundo.''
— "Bom, filho, esse seu sonho é tão rico e cheio de detalhes; tenho certeza de que você dará um bom romancista no futuro. Mas agora se acalme, vou te dar um banho e te colocar na cama novamente, tenho certeza de que os sonhos ruins te deixarão em paz.'' — Marcela não era uma pessoa espiritualista, mas, no fundo de sua mente, ela aventou a possibilidade daquilo ter sido uma visão de vidas passadas ou algo assim, mas logo descartou a hipótese, pois, mesmo que fosse verdade, de nada aquilo adiantaria; o que ela queria mesmo era criar seu filho em paz. Mas ela não teve mais paz pelo resto da noite, depois de ouvir o que seu filho disse logo em seguida:
— ''Eu acho que não foi uma boa ideia.''
— "O quê?"
— "Vir a esse mundo" — ele não olhava nos olhos da mãe, estava olhando para a parede do quarto, para o nada. Parecia estar falando sozinho. — "Acolá tinha razão, eu não estava pronto."
6) Aos dez anos de idade, o menino quase não verbalizava seus anseios e suas vontades, despejando em cima da mãe tão somente seu olhar indagador, esperando que ela traduzisse em palavras qual era sua necessidade da ocasião (ele esperava que ela fizesse por ele o que ele não queria fazer; Gael estava com preguiça de viver). Em uma de suas raras visitas, Pedro insinuou que Marcela procurasse ajuda psiquiátrica, pois certamente havia algo de errado com o menino e isso poderia piorar com o passar dos anos — assim como vinha piorando de uns anos para cá. Ela sabia que ele tinha certa razão, mas argumentou que seria muito difícil convencê-lo da necessidade de fazer qualquer tipo de tratamento dessa natureza: "Ele é um contestador, sempre foi assim. Se a adaptação na pré-escola já foi uma tarefa completamente cansativa e fracassada, dizer-lhe para ir a um psicólogo seria uma verdadeira luta de cabo de guerra. Eu contra ele.'' Pedro piscou e indagou:
— ''Mas ele tem ido à escola regularmente, certo?''
— ''Certo, mas os primeiros anos foram muito difíceis. Você não sabe disso porque não estava aqui para ver; mas o meu menino sempre fez muita questão de deixar bem clara sua insatisfação protocolar de ter de frequentar aquele lugar quando já não era mais necessário.'' — Marcela colocou muita ênfase quando disse "meu menino"; Pedro percebeu, mas ignorou.
— "Como assim não era necessário? Ele estava em idade pré-escolar.''
— "Sim. Mas ele já tinha bom vocabulário muito antes disso; aprendeu a ler e a escrever já no primeiro ano. Gael é muito, muito inteligente.''
— "Mas agora ele já é um rapazinho, tem idade suficiente para entender que existe uma hierarquia entre pais e filho. Ele deve respeitá-la caso você decida pela ajuda profissional.'' — Dessa vez, Pedro falou sério, em tom apaziguador; parecia que realmente queria ajudá-los de alguma forma (para além da ajuda financeira). Marcela percebeu e foi quase complacente, ainda que a raiva e a decepção pelo ex-companheiro continuassem mais vivas do que nunca.
— "Eu sei que você tem razão, mas com Gael isso não funciona. Busque no dicionário o que significa ser um 'contestador' e você entenderá que essa hierarquia, para ele, vale menos do que merda.''
Naquele momento, Gael estava em seu quarto, "estudando". Teoricamente, seu pai havia aparecido para visitá-lo, mas, após algumas carícias frias e distantes, ele recolheu-se em seu abrigo, como fazia sempre, e deu para sua mãe a tarefa de fazer sala para Pedro. Os três já estavam acostumados com essa situação. Mas estudar era a última coisa que Gael estivera pensando em fazer; o que estava realmente fazendo era escrever em seu diário secreto pensamentos profundos de sua gnose pessoal. Tentando compreender questões filosóficas e existenciais que angustiavam-lhe a alma, mas que também o enchiam de fascínio e curiosidade, conhecer a si próprio era o mesmo que conhecer o próprio mundo, verdadeiramente, sem qualquer máscara social que alguém possa ter inventado. Mas sua mente fascinante permitia-lhe fazer duas coisas difíceis ao mesmo tempo, que era escrever em fluxo de consciência ininterrupto e abstrato, descrevendo a própria geometria da vida segundo sua própria cosmovisão, e também escutar toda a conversa de seus pais, por mais baixo que estivessem falando. Foi falado algo sobre ajuda psiquiátrica; ele tinha certeza, pois achavam que havia algo de errado com ele, mas, sendo naturalmente áspero e crítico, ele achava mesmo que errados eram os outros. Ele mesmo não tinha que mudar, tinha somente que descobrir-se verdadeiramente, tarefa que seria difícil de executar tão brevemente, pois tinha somente uma década de vida. Para descobrir-se, teria que viver mais. Conhecer o mundo de dentro para fora. Mas, para isso, precisaria primeiro pular para fora de seu ninho. Gael fora precoce em muitas outras coisas e essa seria só mais uma delas. Já havia deixado seu pai para trás (mentalmente, sentimentalmente) e agora era a vez de fazer o mesmo com sua mãe; apesar de amá-la profundamente. Mas, para que ela não sofresse muito, estava deixando-lhe uma carta de despedida, que era também uma oração.
7) Quando havia um problema que o envolvia diretamente, Gael sempre deixava claros sinais de que havia algo de errado acontecendo, mas, sem verbalizar nitidamente, entendê-lo e traduzi-lo era tarefa dos outros. Marcela esteve nos últimos dias procurando por seu filho mais vezes do que deveria. Quando chegava do trabalho, não o encontrava em casa; tinha que procurá-lo chamando-o pelo nome; o encontrava por vezes andando pelo bairro, catatônico; às vezes o via no quintal encarando as estrelas durante a noite. Às vezes ele estava dentro de casa mesmo, mas sua ausência silenciosa era quase hostil e, mesmo que não fosse uma casa muito grande, ela normalmente demorava alguns minutos para surpreendê-lo; ele não respondia quando ela chamava. Ficava em silêncio e, quando a mãe deu-lhe uma bronca por causa disso, ele lhe deu uma resposta que a angustiou profundamente: "Esse não é meu nome, mamãe, me chame pelo nome correto e eu lhe responderei". Ele estivera fazendo isso para que ela ficasse acostumada com a ideia de ficar sozinha. Senão sozinha, então acostumar-se com a ausência do filho. Ele sabia que, a longo prazo, ela ficaria bem, pois, mesmo sentindo a dor que todas as mães sentem quando perdem seu filhote, ela sentiria um alívio profundo e secreto de quem acabara de livrar-se de um enorme problema. Pedro sentiu o mesmo quando saiu precocemente de casa e agora era a vez de Marcela ficar em paz.
Gael recolheu-se por inteiro e fez-se desaparecer silenciosamente, furtivo e consciente, caminhando na direção do desconhecido.
Houve um dia em que, chegando do trabalho, já habituada com aquela situação, ela o procurou pela casa e não o encontrou. Depois foi para o quintal, imaginando que ele estivesse por ali (já era quase noite e algumas poucas estrelas já podiam ser avistadas), mas a ausência do filho se fez mais presente do que nunca. E ela começou a ficar genuinamente preocupada. Andou pelo bairro e nada. Depois de quase quarenta minutos, decidiu voltar para casa e procurar um pouco mais pelos cômodos, pois ele poderia estar escondido em algum canto que ela não tinha avistado antes. Estava pedindo a Deus para que seu filho estivesse na segurança do lar. — Mas, em seu íntimo, que já estava machucado e cansado, desejou que aquela situação terminasse de uma forma ou de outra, fosse como fosse — repreendeu-se por esse pensamento, mas não tanto quanto da última vez. Naquele dia, ela estava sentindo-se no direito de estar cansada, chateada e magoada. Sabia que o filho não tinha culpa de ser assim, mas sentia raiva, pois as coisas para ela poderiam sim ter sido mais fáceis. Ela estava só e andava só. Era seu próprio suporte e, naquele dia em específico, desejou não ter que ser cronicamente forte pelos outros. Quando chegou à sua casa, chamando-o pelo nome que ela lhe deu, mas entendendo que seria inútil, pois Gael rejeitava até mesmo o próprio nome, intuiu com aflição a possibilidade de estar completamente sozinha naquele recinto. Pois, em outras ocasiões, mesmo quando ela não o encontrava, sentia em seu íntimo um pouco de calor humano; dessa vez, a única coisa que ela estava sentindo era um frio e solitário silêncio.
8) Não o encontrou. E, por dentro, ela sentia um misto de desespero atrelado a um sabor amargo em sua boca; sempre intuiu que seu filho jamais pertenceria a ela própria. Gael era do mundo e pertencia a ninguém. Sempre foi assim. Caminhou até seu quarto e sentou-se em sua cama, sentindo de leve o cheiro de Gael. Seria a última vez que ela teria contato com aquele aroma específico e infantil que pertencia somente a ele; deitou-se encolhida e ali ficou aguardando seu possível retorno. Acabou cochilando, inundada pelo silencioso espectro da noite, e, quando despertou, duas horas depois, a casa estava completamente tomada pela escuridão; esqueceu-se de acender as luzes. Seu braço, que esteve depositado o tempo inteiro debaixo de sua cama, simulando um travesseiro, deslizou para a parte de cima da cama e foi de encontro a um pequeno caderno que muito se parecia com um diário. O diário de Gael, do qual ela própria desconhecia a existência, estava preenchido com escritos em letra torta e disforme, porém legível, com quase metade das páginas já preenchidas com o que pareciam ser os pensamentos mais secretos de seu filho. E na última página continha o que parecia ser sua carta de despedida — na verdade, foi isso que Marcela supôs —, mas tratava-se de um texto grande em fluxo de consciência, explicando, talvez, para quem fosse capaz de entender, sua decisão de "fugir de casa" e ir para algum outro lugar. O texto foi intitulado "O Desígnio de Acolá" e, com muita calma, Marcela passou a lê-lo, tentando encontrar ali alguma resposta que pudesse lhe oferecer algum tipo de conforto.
Nervosa, porém concentrada, ela imergiu no fluxo de seu filho — "Esse é o único registro de minha passagem pela terra...''
