O "Experimento Canário": A Origem do Big Brother na Holanda

 

Sempre que uma nova edição do "Big Brother" começa, entramos em uma bolha. O mundo pode estar em guerra ou enfrentando pandemias, mas o assunto principal será o reality. Mas antes de mergulhar nas versões atuais, quero te contar como essa loucura realmente surgiu.

Esqueça a fic de que o programa nasceu apenas do livro "1984" de George Orwell — dele, John de Mol usurpou apenas o nome "Grande Irmão". A verdadeira faísca foi o "Experimento Biosfera 2",  que confinou oito pessoas no deserto em 1991. Foi um "belo fracasso" cheio de fome e brigas, mas John viu ali o ouro: o prazer de assistir humanos malucos sob pressão. Quem liga para a ecologia quando podemos assistir pessoas se pegando ou discutindo por bobeira?

Mas o mercado achou a ideia um tédio, leitores! Emissoras recusaram e para colocar o Big Brother no ar, De Mol fez uma jogada de mestre: ofereceu o projeto para o canal holandês Veronica que não figurava entre os maiores e bancou tudo do próprio bolso.

Ele não "deu" a marca do programa pra sempre, mas ele cedeu o projeto quase de graça para aquela primeira temporada. Ele mesmo custeou a construção da casa e a produção, prometendo ao canal: "Se não der audiência e vocês não venderem comercial, não precisam me pagar nada".

Foi o maior blefe da história da TV: ele abriu mão do lucro imediato na Holanda (quer dizer Paises Baixos, tá feliz Douglas?) só para provar que o formato era um vício. 

Só que o clima de pré-estreia foi de pânico moral. O Conselho de Saúde Mental e várias associações de psicólogos e médicos caíram matando. Eles diziam que o programa era uma "crueldade psicológica" e que o confinamento levaria os participantes a surtos psicóticos, depressão profunda ou até violência física. E o pior é que a própria emissora, estava se borrando de medo antes da estreia. Mesmo com o John de Mol bancando tudo, os diretores do canal ficaram em pânico com a repercussão negativa. Eles tinham pavor de que o programa fosse um fracasso de público ou, pior, que o canal respondesse por um processo milionário ou o reality fosse tirado do ar.

Só que, em vez de enterrar o projeto, essa polêmica toda foi o que deu o buzz que o John precisava. Quanto mais os médicos falavam que o programa era perigoso e antiético nos jornais, mais o público ficava curioso para ver o "desastre" de perto. Ele nem precisou gastar com propaganda, os próprios críticos fizeram o marketing de graça criando aquela expectativa mórbida: "Será que eles vão enlouquecer mesmo?". 

E para escolher quem ia entrar na casa, os caras não foram atrás de quem queria ser influencer, até porque isso nem existia. O processo durou só dois meses e eles peneiraram 3 mil pessoas até sobrarem apenas nove. A ideia do John de Mol era montar um elenco que fosse um "microcosmo" da sociedade: ele selecionou a dedo pessoas com idades e estilos de vida totalmente diferentes só para ver o choque acontecer. Assim, começou surgiu o esboço da tal cadeira elétrica.


“Big Boss, cadê a lista de participantes que não sai nunca?”

A estreia no dia 16 de setembro de 1999 foi bem diferente dessa festa que a gente vê hoje. O clima era meio "estranho", quase um documentário. Os apresentadores tinham a missão impossível de explicar pro público por que era legal ver nove desconhecidos entrando numa casa pra não fazer "nada". Não teve uma grande plateia, nem show; os participantes chegaram carregando as próprias malas e entrando num galpão industrial em Almere que tinha sido transformado em casa.

A mágica aconteceu quando o público viu, pela primeira vez, as câmeras escondidas atrás dos espelhos. Aquela tecnologia de vigilância total era algo que ninguém tinha visto na TV. No primeiro episódio, o povo ficou hipnotizado só de ver a galera escolhendo as camas e tentando puxar assunto. Foi um começo silencioso, mas que deixou todo mundo grudado na tela, curioso pra saber quem ia surtar primeiro naquele aquário humano.
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E olha o tamanho do absurdo: o plano do John de Mol funcionou tão bem que, na estreia, o programa bateu 1,5 milhão de espectadores. Pode parecer pouco perto dos números do Brasil, mas para a Holanda na época, isso foi uma explosão, ainda mais num canal que nunca figurou entre os mais assistidos.

Não tinha essa de apresentador batendo papo com a casa todo dia. A voz que falava nos alto-falantes era seca, autoritária e só aparecia para dar ordens diretas ou passar instruções técnicas. Era uma parada meio tensa, feita para os participantes sentirem que estavam sendo observados por uma entidade, e não por uma equipe de TV.

Pra mim o jogo acabou, eu tô extremamente decidida no que eu quero.

A primeira desistência foi icônica porque deu o primeiro "banho de água fria" na produção. A participante era a Tara van den Bergh, uma policial de 20 anos. O motivo? Ela simplesmente achou o programa um tédio absoluto. No 10º dia, ela pediu para sair dizendo que não aguentava mais a falta do que fazer e o tédio que reinava a casa. Mal sabia ela que, do lado de fora, o país já estava começando a ficar animado para assistir aquele "marasmo".

"Em quem você vota e por quê?"

Cada participante deveria ir ao confessionário e nomear dois colegas para sair da casa, as votações e eliminações ocorriam às quintas-feiras. O público tinha uma semana inteira para votar por telefone em quem deveria sair, mas o ritmo era lento: tanto que a primeira votação só aconteceu no 28º dia e havia semanas em "off" sem qualquer paredão, focando apenas na convivência.


E o primeiro a enfrentar a eliminação foi o Martin e justamente ali que surgiu o momento em que a ficha finalmente caiu para todo mundo. Ele foi o primeiro eliminado da história e saiu da casa achando que ia pegar um táxi e voltar para a vida de empresário dele de boas. Só que, quando a porta abriu, o cara quase caiu (literalmente) para trás: tinha uma multidão maluca de desocupados na porta do galpão, fotógrafos atropelando uns aos outros e repórteres de todos os jornais do país querendo uma frase dele.

pobi do Martin ficou em choque total, ele não fazia ideia de que, enquanto ele estava lá dentro reclamando do tédio ou fazendo tricô, o mundo lá fora tinha virado de cabeça para baixo por causa do programa. Foi ali que os outros participantes, que ficaram assistindo pela porta, perceberam que não eram mais apenas "cobaias", eram as maiores celebridades daquele momento na Holanda. A partir desse dia, o clima na casa mudou completamente, porque agora eles sabiam que o mundo inteiro estava espiando cada passo deles.

"Atenção! Jenny cancelada. Kally, cuidado com o paiol. Rachel campeã"

Esqueça o Carelli: John de Mol viveu esse caos muito antes. Ele transformou o casa de Almere em uma fortaleza digna de filme americano. Para impedir que as invasões de fãs malucos e jornalistas estragassem o experimento, ele não hesitava: ao menor sinal de confusão ou interferência, a produção trancava todo mundo dentro da casa e aumentava o som para abafar os gritos externos. Era um isolamento forçado no meio do caos.


"Eu não vou sair!"

O Big Brother decidiu que na semana 6 não teria eliminação pelo público, então reuniu todos e fez a proposta: "Quem quiser sair agora, leva 10 mil florins no bolso e vai jogar no Vasco".

A essa altura, o "cheiro" da fama era mais forte que o dinheiro vivo. Eles sabiam que, se o programa estava oferecendo aquilo para eles saírem, é porque o prêmio final ou o que os esperava lá fora valia muito mais. Então todos escolheram a burra aposta de chegar à final em vez do dinheiro garantido. Foi o momento em que o ego venceu, e o público? Amou ver que eles estavam pra jogo.

"Eu vejo câmera em todo lugar, eu vejo sinal em tudo. Vocês são atores?"

Na TV, quem tinha operadora a cabo podia pagar uma assinatura extra para ter um canal exclusivo que não parava nunca — era o "Big Brother 24 horas". Mas a grande sacada foi a internet: o John lançou um site onde você podia ver as câmeras ao vivo pelo computador. Só que em 99 a internet era discada e lenta pra caralho, então a imagem parecia um vídeo de segurança travado, mas mesmo assim o povo pirou.



A galera ficava horas no trabalho ou em casa vigiando o monitor só para ver se pegava algum "segredo" que não passava no resumo da noite na TV aberta. O site oficial teve milhões de acessos, algo que ninguém acreditava que ia acontecer naquela época. O pay-per-view provou que o ser humano é fofoqueiro por natureza: o povo pagava caro para ver os participantes dormindo ou jogando conversa fora na cozinha. O vício foi tão pesado que as empresas na Holanda entraram em surto. Os chefes começaram a perceber que os escritórios estavam num silêncio estranho, e quando iam ver, tava todo mundo com o site do Big Brother aberto, acompanhando o pay-per-view no trabalho. Como a internet era uma porcaria, os vídeos travavam e consumiam toda a banda da empresa, deixando o sistema lerdão só porque a galera queria ver o Ruud fazendo massagem ou o Bart jogando conversa fora.


Chegou num ponto que várias companhias tiveram que bloquear o acesso ao site do programa nos computadores do trabalho, porque ninguém mais produzia nada. Virou notícia de jornal: "O Big Brother está parando a economia holandesa".

“No meio de tanta maldade e de tanta guerra, eu consegui me apaixonar por você.”

O romance do Bart (nosso campeão) e da Sabine foi o rascunho quase perfeito do que rolou com Alemão e Siri anos depois, porque quase perfeito? Enquanto aqui não teve sequer um beijo na casa, lá o carinha se autodescobrindo de 22 anos, e a estilista de 25, protagonizaram a primeira noite de sexo da história do Big Brother, com direito a uns cigarettes after sex. O edredom de 1999 chocou a Holanda: ninguém acreditava que veria algo tão íntimo na TV aberta.


Só que isso irritou os outros participantes que não gostaram do relacionamento e tiveram a ideia de isolar os dois e assim tramaram de colocar o casal num paredão direto. O público, amava o Bart mas achava que a Sabine o "atrapalhava", e eliminaram a moça sem dó, dando a coroa de primeira rejeitada da história do Big Brother para ela, que saiu escorraçada com 84,45% dos votos. O Bart ficou devastado, chorando pelos cantos, e essa imagem de "herói quase solitário" foi exatamente o que ajudou a garantir sua vitória meses depois.



"Eu não vim do lixo pra perder para basculho, meu amor!"

Imagine confinar fumantes e cortar o orçamento de compras. A Sabine e o Bart (o casal) viviam em pé de guerra com os mais velhos porque o estoque de tabaco literalmente havia acabado, deixando claro, não tinha reposição de cigarro diariamente, era quando a produção queria. O clima ficou tão pesado que os participantes começaram a esconder bitucas uns dos outros, risos. Teve gritaria na cozinha com a Karin (a dona de casa) reclamando que o vício deles estava tirando a comida da mesa. O público amava ver o "desespero" dos viciados em rede nacional.



"Arthur Picoli de Conduru, você aceita ser meu parceiro no amor e no jogo?"

Bart nunca se prendeu a rótulos dentro da casa. Ele era conhecido por ser extremamente carinhoso com os amigos, especialmente com o Ruud. No dia a dia, ele frequentemente demonstrava que não via barreiras no afeto masculino, o que alimentava as discussões do público sobre sua sexualidade na época (em off, os dois faziam um belo casal desde o começo e o público aceitou e viveu isso, não atoa preferiram o Ruud do que a estilista, Países Baixos nunca te critiquei). No pay-per-view, logo após a saída da estilista, o clima mudou. Bart e Ruud passaram a dominar a narrativa da casa com ainda mais força. O garoto confessou sentir-se finalmente livre: e não precisava mais performar o papel de galã heteronormativo. Ele sentia que a ex-ficante tentava policiar a relação deles ou diminuir a importância do que eles construíam na simplicidade do dia a dia.


A saída da querida removeu o último filtro de julgamento que restava na casa. Sem o policiamento da estilista, o 'endgame' entre os dois floresceu sem amarras. Bart passou a tomar junto de Ruud o controle da horta e do cotidiano com a certeza de que a beleza daquela conexão era "bruta, terna e real" mal sabia que era exatamente o que o país, do lado de fora, estava hipnotizado em assistir.


As madrugadas no quarto eram o momento em que a "armadura" de entretenimento do programa caía e a relação entre Bart e Ruud atingia seu nível mais confessional. Enquanto o resto da casa dormia, o pay-per-view revelava uma intimidade silenciosa e quase magnética.

Bart, que frequentemente se sentia sufocado pelas regras e pela vigilância, viu Ruud como seu terapeuta e porto seguro. Eles falavam sobre a estranheza de serem observados e sobre como se sentiam "fora do lugar" em relação aos outros confinados mais "artificiais".


Diferente dos outros participantes, que mantinham uma distância em suas camas, Bart e Ruud estendiam a mão um para o outro, ou sentavam-se na beirada da cama do outro para finalizar uma conversa. E no dia seguinte, Ruud que acordava mais cedo ia cuidar dos animais ou da horta e logo Bart estava junto e os dois ficavam presos naquele mundinho deles por horas, só os dois (e os milhões de assinantes).

"Eu quero a minha casa, eu quero a minha família, eu quero meus filhos."

A última semana foi um misto de agonia e euforia. Com apenas Bart, Ruud e Willem na casa, o tédio deu lugar à ansiedade pura. Eles passavam o dia ouvindo o barulho de desocupados acampados do lado de fora da casa, o que confirmava que eles eram os maiores fenômenos da Holanda.

O dia da final, 30 de dezembro de 1999, o país parou: mais de 15 milhões de pessoas (quase a população inteira do país na época) sintonizaram naquele que era um canal de TV minúsculo para ver o final do reality.

Bart foi finalmente anunciado o grande vencedor com 47,8% dos votos e garantiu 250.000 florins no bolso. A saída como diz Milton Cunha foi apoteótica: eles foram recebidos com fogos de artifício, tapete vermelho e uma histeria coletiva que os deixou completamente em choque. O Bart mal conseguia falar, e o Ruud, seu "amigo" que ficou em segundo, saiu rindo da ironia de ter virado uma lenda nacional por causa de um "experimento de laboratório". Foi o fechamento completo para o ano em que a TV holandesa mudou para sempre.


E para encerrar ainda mais o primeiro Big Brother como um fenômeno absoluto, Bart e Ruud entregaram a cena mais icônica e inesperada da final: um beijo que transbordava afeto e euforia. Livre das pressões de "galã", Bart encontrou em Ruud no reality um porto seguro. Aquele gesto não foi apenas comemoração, foi a celebração de uma conexão física e emocional tão profunda que desafiou os rótulos da época.


Fama? Um pós de celebridade? Pro Bart, nem pensar...

"Eu detesto o que o programa fez com a minha privacidade, mas o Ruud... o Ruud é a única memória positiva que eu guardo com carinho. Ele é a única coisa verdadeira que levei daquela casa para a vida."


Em suas poucas entrevistas, desde que optou por voltar ao anonimato, Bart sempre faz questão de dizer que Ruud foi a única pessoa que realmente o entendeu naquele isolamento. Ele descreve a relação deles como algo que ia além de uma amizade; era um suporte emocional físico e constante.

"Isso quem tá dizendo não sou eu, são os quase 24 milhões de seguidores que você tem nas redes sociais"


O John de Mol e o canal Veronica ficaram em choque, mas com o bolso cheio! O que começou como um "experimento de risco", que muitos chamavam de "TV lixo", virou a maior galinha dos ovos de ouro da história. O faturamento com o PPV e as ligações foi tão absurdo que eles renovaram para a segunda temporada antes mesmo da turma sair da casa.

Para Mol, foi a consagração total: ele percebeu que tinha uma máquina de imprimir dinheiro baseada na curiosidade humana. O sucesso foi tão bizarro e instantâneo que executivos de diversos canais do mundo correram para a Holanda para brigar pelos direitos. A CBS (dos EUA), o Channel 4 (do Reino Unido), a RTL (da Alemanha) e a Telecinco (da Espanha) foram as primeiras a bater na porta para levar o nosso queridinho para seus países. O cara deixou de ser um produtor comum para virar o "dono do mundo" dos reality shows com sua produtora, e a casa em Almere virou o modelo que mudaria a televisão para sempre.

Fontes: Dados do Wayback Machine, big-brother.nl e FOK.nl, além de registros audiovisuais da Endemol diretamente do acervo pessoal do loiro que vos escreve.