O beijo gay



Postagem enviada ao Recreio pelo comentarista Leo

Nesta quinta-feira (06), o atual prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella, publicou em suas redes sociais um vídeo de "repúdio" à uma HQ, segundo o prefeito, a HQ continha cenas "pornográficas" e por conta disto, em defesa da "família" e dos bons "costumes", a HQ e os demais livros (LGBTQ) deveriam ser embalados em plástico preto para serem retirados da bienal. 

Na manhã da sexta-feira (07), todas as unidades da HQ disponíveis na Bienal do Rio tinham se esgotado, de acordo com as editoras.

O mais preocupante na atitude do prefeito, é que o fundamentalismo religioso nos órgãos públicos está em uma crescente nunca antes vista em nosso país. 

Para entender como a atitude do prefeito é nociva e não é somente uma histeria coletiva, é preciso de um pouco de história, segue o fio:

O termo "fundamentalismo religioso" surgiu nos EUA na década de 20's, fomentado pelo pastor Curtis Lee Laws. Integrante assíduo de uma Igreja Batista, ele era contrário ao avanço do "liberalismo" na igreja. Segundo o pastor, “fundamentalista” é alguém disposto a recuperar territórios perdidos para o """"anticristo"""". O pastor estava tentando criar um "movimento" à favor de princípios morais e familiares, para a manutenção do poder da igreja (puritana) nos EUA. 

Lembraram de alguma alusão histórica? Não? Pois então irei apresenta-los à idade média, segue o fio:

Durante a idade média, a igreja através do uso poder, determinava o que poderia ser lido ou não, os livros classificados como "hereges", eram levados ao fogo, queimados, como forma de bloquear o conhecimento da população e manter a manutenção da igreja e suas morais intocáveis.

Quando o Estado, agora não mais a igreja, censura, retira livros de estandes e os classifica como bem quer, isto é uma forma de bloquear conhecimento por um "bem" maior. 
E quando que o estado, exercendo o seu poder unilateral, queimou livros ou os censurou? Spoiler: "Nazismo". Segue o fio:

- No ano de 1922, Benito Mussolini, afirmou que Roma era o lar espiritual dos católicos de todo o mundo e que o fascismo ajudaria a promover os valores cristãos na sociedade italiana, um Estado católico. A parte curiosa, Mussolini era um ateu fervoroso. Por que ele falaria isso e logo após iria censurar livros contrários à igreja? A resposta é óbvia, a manutenção do poder e a alienação da população religiosa e burra. 

- No ano de 1933, houve uma grande queima de livros em diversos locais públicos da Alemanha nazista. O intuito desses atos eram para a alienação da população e o estímulo do sentimento de pertencimento a uma causa.


(Me lembrou 'vagamente' de uma outra imagem, mas seguindo o texto)

- Durante o Estado Novo, qualquer coisa considerada ofensiva à moral e aos bons costumes virava alvo do regime. Livros de Jorge Amado; como Capitães de Areia, foram incinerados em Salvador. (Leiam ou assistam, é uma obra impecável). 

- No ano de 1966, a rádio KLUE, de Longview, no Texas organizou uma queima dos discos do Beatles em uma fogueira, devido às declarações de Lennon sobre Jesus e o Cristianismo. Na ocasião, John Lennon fez o seguinte comentário: "Cristo não era mau, mas os seus discípulos eram obtusos e vulgares. É a distorção deles que estraga o Cristianismo, na minha opinião".

- O “Grande Dragão” da Ku Klux Klan Bob Scoggin apareceu pessoalmente jogando livros dos Beatles em uma fogueira na Carolina do Sul em 11 de agosto de 1966.

- No ano de 1977, a Polícia Federal incinerou 3 mil livros, CD's, e artigos culturais. A lista é variada: dos filmes Spartacus e Cleópatra a discos de Caetano veloso. 

- No ano de 2019, a prefeitura do Rio de Janeiro autorizou que uma tropa de homens armados sejam mobilizados para uma grande ameaça: "Livros". A tentativa de recolhimento de livros com teor "sexual" para a preservação da família e os bons costumes foi fracassada, os 14 mil livros foram distribuídos antes do recolhimento. 


Qual a correlação entre todos esses fatos históricos? 

A forma como lideres religiosos ou não, usam de suas retóricas preconceituosas e de manutenção social, para queimar e censurar obras científicas, literárias e musicais, durante a história. 

Para as considerações finais; um ato de censura como estamos presenciando nesse exato momento, não deve ser relativizado, aplaudido ou até mesmo inviabilizado. A famosa "passada de pano" que muitos fazem, é errada e de cunho ditatorial, graças à todos os Deuses existentes que nossa mídia foi implacável contra o prefeito. 

Não apoiem censuras por convicções políticas, religiosas ou morais. Beijos de luz. 

Fontes: 1, 2, 3 4 e 5