Richard Feynman, e a Física no Brasil


Postagem enviada ao Recreio pelo comentarista Alessandro (ou Capitão Caverna)

Richard Philips Feynman, um dos mais importantes físicos do século XX, participante ativo do Projeto Manhattan, e vencedor do prêmio Nobel de física de 1965, esteve no Brasil por alguns anos dando aulas na década de 50, onde atuou como professor no CBPF e na Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro

No período em que esteve no Brasil, Feynman foi um grande crítico da maneira como se ensinava física no Brasil, onde ele dizia ser baseado em  sem estimular o pensamento científico.

Em um capítulo de seu livro, “O sr. está brincando, Sr. Feynman" ele descreve sua experiência que teve observando o ensino de física em nosso país,  Feynman cita seu inconformismo diante do ensino puramente mecânico, onde professores ditavam leis e regras e alunos simplesmente repetiam tudo aquilo, sem serem capazes de citar exemplos ou aplicações cotidianas daquilo que estudavam:

"Mais tarde, eu assisti a uma aula de engenharia. A aula, traduzida para o inglês, soava algo como “Dois corpos… são considerados equivalentes… se torques iguais… produzirem… aceleração igual. Dois corpos são considerados equivalentes se torques iguais produzirem aceleração igual.” Todos os estudantes estavam lá ouvindo o professor ditar, e quando o professor repetia, eles checavam pra ter certeza que escreveram tudo certo. Então eles escreveriam a próxima frase, e assim por diante. Eu era o único que sabia que o professor estava falando sobre objetos com o mesmo momento de inércia, e mesmo pra mim era difícil perceber isso.

Eu não consigo ver como eles vão aprender alguma coisa a partir disso. Aqui estava ele falando sobre momento de inércia, mas não houve nenhuma discussão sobre quão difícil é empurrar uma porta quando você põe pesos próximos ao trinco, comparado com a dificuldade quando eles são postos próximos à dobradiça – nada!

Depois da leitura, eu conversei com um estudante: “Você anota tudo – o que você faz com isso?”

"Oh, eu estudo elas”, ele disse. “Nós teremos um exame.”

E como será esse exame?

“Muito fácil. Eu posso lhe dizer agora uma das questões”. Ele olhou no caderno e disse: “ ‘Quando dois corpos são equivalentes?’, e a resposta é, ‘Dois corpos são considerados equivalentes se torques iguais produzirem aceleração igual.’”. Então, você vê, eles conseguiam passar nos testes e “aprender” todas essas coisas, e mesmo assim não saber nada, exceto o que eles tinham memorizado.”

Feynman também fez uma palestra no sobre o ensino de física, com base em sua experiência na educação local em 1952:

“O principal propósito de minha apresentação é provar aos senhores que não se está ensinando ciência alguma no Brasil.” 

Então ergui o livro de Física Elementar que eles estavam usando. “Não são mencionados resultados experimentais em lugar algum nesse livro, exceto em um lugar onde há uma bola, descendo um plano inclinado, onde ele diz a distância que a bola percorreu em um segundo, dois segundos, três segundos… Os números têm erros — ou seja, se você olhar, você pensa que está vendo resultados experimentais, no entanto, se você realmente fizer esse experimento, produzirá cinco sétimos da resposta correta, por causa da energia extra necessária para a rotação da bola (que o autor do livro desconsidera).

"Ao folhear o livro aleatoriamente, posso mostrar que não há ciência, mas sim memorização, em todos os casos. Por exemplo:

“Triboluminescência é a luz emitida quando os cristais são friccionados…”

Digo: e aí? Você fez ciência? Não! Apenas foi dito o significado de uma palavra, em termos de outras palavras. Não foi dito nada sobre a natureza — quais os cristais que produzem luz quando friccionados, nem por que eles produzem luz. Alguém viu algum estudante ir para casa e verificar isso experimentalmente?

Por fim, disse que não conseguia entender como alguém podia ser educado neste sistema autopropagante, no qual as pessoas passam nas provas e ensinam os outros a passar nas provas, mas ninguém sabe nada.”

Fontes: Médium Brasil