Por: Matheus======
A prática jornalística pode ser definida de diversas maneiras, entretanto, é seguro afirmar que o trabalho de um jornalista é passar informações corretas para o público acerca de determinada situação ou realidade. Há uma clara linha tênue separando a prática jornalística do século XIX e metade do XX, enquanto uma era notoriamente opinativa e por vezes ficcional, a mais recente investe nas noções de objetividade, apuração e contextualização dos conteúdos noticiosos.
A mudança de paradigma que a internet trouxe para o ramo jornalístico é refletida na velocidade com a qual as informações circulam no ciberespaço. Numa era onde múltiplas conexões espalham informações sobre o mundo todo ao alcance de um clique, as empresas de comunicação passaram a trabalhar numa velocidade astronômica para suprir o público com informações relevantes acerca de suas específicas realidades ou interesses. Essa rapidez no compartilhamento de informações atinge não apenas o webjornalismo, mas também outros segmentos como rádio e televisão. Toda a esfera multimídia foi configurada para transmitir notícias rápidas e de fácil entendimento para as pessoas.
Porém, toda essa rapidez vem com um custo, afinal, uma checagem/levantamento de dados é um trabalho lento que demanda tempo para ser concluído de forma a suprir todo o processo de apuração feito para melhorar o nível de detalhamento de textos noticiosos. Quando essa prática é "encurtada" nas gerações mais recentes do jornalismo digital, as consequências para a sociedade se tornam bastante visíveis com o surgimento em massa de fake news e do fenômeno da pós-verdade.
Uma das práticas mais comuns no webjornalismo é o chamado "jornalismo declaratório" ou "conta-gotas" que consiste na escrita de textos baseados unicamente em declarações de figuras públicas. O problema com essa categoria de conteúdo reside na ausência de outros dados que possam contextualizar o público a respeito das falas mencionadas, a pobreza nos detalhes das notícias têm sido cada vez mais frequentes, especialmente em matérias para a web.
A pressa para compartilhar a informação é tamanha que em algumas ocasiões, apenas a manchete é divulgada nas redes sociais, isso demonstra que vale mais a pena dar a notícia primeiro do que o concorrente a esperar para passá-la completa para o público. Um bom exemplo disso são as informações sobre a pandemia da COVID-19, pois, no início do contágio da doença no Brasil, era comum que as redes sociais de jornais como CNN, Globo ou Folha de s. Paulo divulgassem "grandes furos" da maneira mencionada.
Esse fato é ainda mais grave considerando que por ser uma doença pouco conhecida na época, essa divulgação precipitada abria margem para interpretações de caráter enganoso podendo levar à desinformação. Óbvio que nenhum jornal está isento de erros, a cobertura da pandemia foi uma novidade para as redações, porém era de se esperar um maior cuidado, especialmente, quando até o Governo Federal soltava informações confusas sobre a doença.
Toda essa introdução foi para dar contexto a uma ideia cada vez mais comum na vida de jornalistas: a apuração de notícias não consegue acompanhar a velocidade com a qual as informações aparecem na internet. E como resultado desse descompasso, o mercado de notícias se tornou fragmentado, abrindo espaço para novos veículos de informação que nem sempre se preocupam com a veracidade dos dados. Na época das eleições brasileiras em 2018, o Facebook constantemente bania páginas que semeavam fake news a respeito de candidatos que disputavam o cargo de Presidente da República. Porém, mais do que simplesmente semear desinformação, esses sites alimentavam um fenômeno crescente nos últimos anos, a pós- verdade.
Mais do que simplesmente um conceito, a pós-verdade se tornou bastante palpável na realidade de diversos países ao redor do mundo. Essa ideia afirma que as pessoas não estão interessadas em saber a verdade factual das informações, a não ser que as mesmas confirmem suas visões de mundo. Por exemplo, durante uma entrevista para a rádio Jovem Pan em 9 de outubro de 2018, o candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro (PSL-RJ), afirmou para os apresentadores do programa que Fernando Haddad (PT-SP), também candidato ao cargo na época, era o responsável pela criação do kit gay. Apesar de amplamente divulgado pelo Ministério da Educação e pelos jornais famosos que a informação dita por Bolsonaro era falsa, muitas pessoas não queriam acreditar, afinal, à época, uma forte onda antipetista tomava o país, logo qualquer ato que fosse considerado negativo e era atribuído ao PT, essa parcela do público enxergava como verdadeiros.
O que nos leva a um novo ponto, as pessoas produzem os próprios fatos apenas para causar danos ou existe um problema maior nisso tudo? É possível que a invenção ou exagero de fatos não passe de uma tentativa de indivíduos que não têm suas vozes representadas na mídia tradicional de se sentirem incluídos na totalidade? Alguns podem pensar desse modo, mas afirmo, se a sua "realidade" depende de mentiras para ser validada, então ela não passa de uma enganação. É claro que o problema de representatividade na mídia não é nada novo, durante muitos anos, parecia que os jornais noticiavam uma realidade que o povo não reconhecia ou não se identificava. Com o tempo e o surgimento de jornais locais, isso foi melhorando, mas nacionalmente, os valores pregados pelos veículos de comunicação foram mudando radicalmente.
Antes havia (e ainda há) uma predominância de valores conservadores nas redações dos jornais, contudo, o avanço na tecnologia permitiu que novas formas de informação fossem ficando mais populares como vídeos, blogs e as redes sociais (Facebook, Twitter, Instagram). Esses novos suportes de conteúdo também abriram espaço para novas vozes compartilharem suas visões de mundo, valores mais liberais se difundiram numa velocidade impressionante, especialmente entre o público mais jovem. Logo, num piscar de olhos, a web estava cheia de pessoas com estilos, vidas e valores distintos dos mais conservadores.
Inevitavelmente, uma disputa entre esquerda e direita surgiu no seio das redes sociais, abrindo um desafio para o webjornalismo em como lidar com leitores que apenas buscam validar seus preceitos pessoais e não se interessam pela notícia factual. A credibilidade jornalística tem sido posta em dúvida por pessoas que duvidam do trabalho do repórter por considerarem que o processo de apuração é contaminado por questões políticas pessoais de cada escritor ou redação.
Para eles, é absurdo que o repórter tenha suas convicções políticas e ainda assim, possa realizar um trabalho objetivo na análise e coleta de dados sobre os fatos do dia a dia. A bolha presente nas redes sociais se fortaleceu tanto que jornais como o Globo e Folha de s. Paulo têm suas matérias questionadas pelos internautas simplesmente porque os textos apontam contradições nos comportamentos de mascotes políticos da esquerda e direita.
Talvez, o maior desafio para a produção jornalística em plataformas digitais esteja na própria plataforma. Veja bem, toda rede social usa uma base de algoritmos que selecionam os conteúdos que a pessoa pode gostar conforme as preferências selecionadas. Se, por exemplo, eu criasse uma conta no Twitter e escolhesse certas tags de interesse para seguir, dificilmente veria algo fora daquela bolha de informação que os algoritmos despejam na timeline. E é justamente aí que reside o problema, quando uma pessoa limita toda a sua rede de interesse a poucos temas, isso a torna mais insensível para assuntos que não combinam com sua linha de pensamento.
E é isso que ocorre com o jornalismo digital, ele se torna refém desses algoritmos, cada vez mais, os conteúdos produzidos visam atender a determinado nicho do mercado. Se você segue o Brasil de Fato, muito provavelmente segue doutrinas políticas de esquerda. Se seguir o Antagonista, provável que seja mais conservador. Tudo isso reflete uma tendência global amplificada pela internet, a necessidade de rotular pessoas, empregos, sexualidade e até mesmo jornais. É reducionista afirmar que uma informação do Jornal da Record sobre política é manipulada simplesmente pelo fato da emissora apoiar publicamente o presidente Jair Bolsonaro. Claro que se existir uma manipulação, a mesma deve ser desmentida e vice-versa.
Todos esses comportamentos on-line tornaram imprescindível que profissionais da comunicação façam apurações cada vez mais minuciosas antes da escrita de uma notícia ou artigo. Por mais que a internet tenha aumentado substancialmente o número de fontes da informação, igualmente, cresceram os números de alegações falsas e dados manipulados.
Como resposta a esses novos tempos em que a informação se espalha mais rápido que a velocidade da luz, nasceram as agências de checagem de fatos. A maioria dessas organizações não possuem ligações com grandes conglomerados e praticam uma apuração independente de informações veiculadas em todo o mundo. Para ter certeza de que o processo de checagem não cometa equívocos, cada agência cria seus próprios métodos de apuração, isso faz com que individualmente, elas possam checar dados por si próprias, eliminando possíveis dependências de outras agências ou de terceiros.
Entretanto, vale destacar que se numa matéria normal da web, a apuração tem sido mais "curta", no fact-checking, ela é muito mais demorada dependendo do tema. Para chegar ao fundo da verdade, os responsáveis devem refazer todo o caminho da produção da notícia, ou seja, analisar toda a pauta novamente. Se uma informação duvidosa repercute nas redes sociais, as agências percorrem um longo caminho para achar a origem dessa declaração/dado e fazer uma nova pesquisa nos bancos de dados sobre a veracidade ou não dessas informações.
Por exemplo, recentemente, circulou um vídeo nas redes sociais que supostamente mostrava pessoas desmaiando nas ruas da Índia, após tomarem a vacina contra a COVID-19. O serviço de checagem da Globo, Fato ou Fake, foi atrás das origens do vídeo e descobriram que se tratava de uma gravação antiga em um acidente de vazamento de gás numa fábrica de resina. Esse acidente ocorreu em julho de 2020, muito antes do início da vacinação contra o coronavírus, iniciada no país em janeiro de 2021. Qual foi o propósito de usar as imagens dessa tragédia como se fosse algo atual?
Até o momento, o foco do texto foram os desafios consequentes da produção de conteúdo no jornalístico na web, mas onde há problema, surge uma oportunidade de superação. Usando o exemplo do vídeo indiano, quero salientar que sem a ajuda da internet e dos bancos de dados, seria impossível para o repórter do Fato ou Fake atestar a veracidade da postagem. Por mais que a web tenha dificultado o trabalho dos jornalistas nos aspectos mencionados em outros parágrafos, é inegável que facilita muito a pesquisa de dados.
Com a Globalização, tornou- se mais fácil saber o que se passa em outros países e culturas, a internet abriu portas para novas fontes de informação que permitem a escrita de notícias mesmo sem o jornalista estar próximo das fontes. Essa oportunidade trouxe uma nova gama de veículos de comunicação focados em trazer informações sobre assuntos de interesse internacional para seus países, por exemplo, quem gosta de cultura pop pode acessar o site Omelete ou Adorocinema e encontrar as notícias mais relevantes sobre cinema, séries, quadrinhos ou celebridades.
Essa categoria de cobertura existia antes, mas em menor escala, agora todo um novo mercado de informação abriu-se para que veículos especializados nesse conteúdo possam explorar novos leitores. Por mais que de certa forma todo nicho seja alienante, também possuem seus pontos positivos, afinal empregos são gerados nesses segmentos emergentes da informação, fazendo com que a indústria se mantenha renovada com novos agregadores de notícias. Outro ponto positivo é a possibilidade de uma interação mais ativa do público, pois, por mais que o jornalismo digital tenha melhorado a participação dos leitores no processo noticioso, ainda há uma postura passiva no modo de consumo. Novos portais testam ferramentas inovadoras de participação do público na construção da informação, por exemplo, numa entrevista ao vivo no YouTube, o entrevistador pode pegar algumas perguntas do público e fazê-las para o entrevistado.
Fundamentalmente, a produção de conteúdo jornalístico na web ainda tem um longo caminho a percorrer, os veículos ainda estão buscando a melhor forma de se comunicar com o público. Depois de toda essa análise, fica claro que não são apenas as pessoas que tornam o jornalismo digital difícil, mas também a própria tecnologia traz novos dilemas que nem sempre os jornalistas conseguem identificar com as rápidas mudanças no modo de fazer notícias. Tudo o que é novo traz oportunidades e desafios, cabe a sociedade e também a própria categoria fazer uma autocrítica de tempos em tempos para avaliar se a prática da comunicação factual consegue lidar com a velocidade das mudanças que chegam tão rápido quanto uma informação em algoritmos de busca.
Ninguém deseja que seu site seja apenas um Google, um agregador de informações sobre termos específicos. A prática jornalística não apenas agrega fatos da realidade, mas os narra para o público. Essencialmente, é dever de qualquer jornal informar a sociedade, mas também transmitir toda a conjuntura social, política e econômica da sociedade independente de ser rádio, televisão ou web.
Bibliografia:
> O processo de apuração no webjornalismo de quarta geração, Vilso Junior Chierentin Santi
>Fact-checking: o jornalismo regressa às origens, João Canavilhas e Pollyana Ferrari
>É #Fake que imagens mostrem pessoas caindo nas ruas após tomarem vacina na Índia
>Bolsonaro mente ao dizer que Haddad criou ‘kit gay’



