Crítica | Loki: 1ª temporada - (Disney+, 2021)


Por: Matheus Jornalista

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    Apesar de um começo promissor, nova série da Marvel parece com pressa de contar sua história, resultando num conteúdo sem personalidade.

    Ame ou odeie, mas é fato que a Marvel Studios se tornou referência em Hollywood no que tange a construção de um universo compartilhado de filmes, e agora, também de séries. Porém, essa intertextualidade entre as obras vem com um certo preço que a série do 'Loki' pagou a muito custo, não há personalidade no material do seriado, todo o plot é construído para movimentar os demais projetos do universo.

    A série dirigida por Kate Herron (Sex Education) carece de momentos genuinamente interessantes, sobrevivendo apenas de alimentar teorias na cabeça do público a cada episódio. Enquanto pode-se dizer que o engajamento com o conteúdo é a prova de sua qualidade, digo que a falta de interesse na construção dos personagens é prova de que Kevin Feige não estava tão interessado na figura de Loki (Tom Hiddleston) como estava com a Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) em 'WandaVision' ou Sam Wilson (Anthony Mackie) em 'Falcão e o Soldado Invernal'.

    A trama se inicia após os eventos de 'Vingadores: Ultimato' onde por um descuido dos heróis, Loki foge com o Teserract após o fim da Batalha de Nova York. A partir daí, somos introduzidos à AVT, uma agência de proteção cuja missão é arrumar problemas na linha do tempo e como Loki alterou a ordem dos acontecimentos com sua fuga, logo, ele é recolhido pelos agentes para ser reaolocado onde pertence. 

    Essa premissa básica é bastante interessante à primeira vista e os dois primeiros episódios são bastante promissores, no entanto, o desenvolvimento é completamente apressado. Vai parecer irônico, mas para um série que tem como temática o tempo, os roteiristas não souberam dosar a velocidade dos acontecimentos, deixando tudo bem difícil de crer de uma perspectiva natural. A redenção de Loki começa bem, o personagem passa por uma necessária desconstrução de personalidade ao ser confrontado com erros do passado, o problema é não haver tempo hábil para que as mudanças sejam implementadas com naturalidade, transparecendo que o roteiro precisa que ele ficasse bonzinho para que a trama continuasse.

    Essa pressa na condução dos personagens também é sentida no ritmo da trama, não há uma progressão definida de onde termina cada dia, logo parece que todos os eventos da série acontecem no mesmo dia, o que deixa ainda mais difícil acreditar no desenvolvimento súbito de certas figuras. Os novos personagens introduzidos são carismáticos, com o destaque para Mobius (Owen Wilson) e Sylvie (Sophia DiMartino), ambos conquistam com suas personalidades fofas e sarcásticas.

    Aproveitando a temática de viagem no tempo, o seriado explora o conceito de Multiverso que é bastante presente nas HQs. Segundo o que foi estabelecido, existem diversos universos paralelos nos quais existem diversas versões de uma pessoa ou acontecimentos. Na série, a função da AVT é impedir que a linha do tempo desses universos seja destruída por variantes, pessoas que ao fugir de seu destino pré-estabelecido, causam uma ramificação na linha temporal.

    O modo como o roteiro de Michael Waldron (Rick e Morty) trata disso é bastante simplório, o que poderia render uma discussão interessante sobre livre-arbítrio, vira apenas uma manivela do roteiro para movimentar a história, mas quando chega a hora de tratar do assunto com propriedade, tudo é esquecido porque o texto precisa deixar ganchos para futuros projetos. Todo o trabalho feito na relação de Loki e Sylvie já fora apressado, mas o carisma de Tom Hiddleston e Sophia DiMartino vendeu a ideia, mas tudo é jogado fora em nome do gancho.

    Com isso em mente, parece que a série andou em círculos e no fim não chegou a lugar algum, nenhum personagem foi bem tratado pelo texto, Mobius e os agentes da AVT são mal colocados no texto, não exploram o peso das próprias descobertas que os personagens fazem ao longo dos episódios. Toda revelação bombástica é tratada como algo importante, até que decidam que outra coisa tem mais peso e a revelação anterior perde espaço na narrativa.

    Se o texto é a parte mais fraca, a direção não fica atrás, o jogo de câmeras é muito travado, não há uma fluidez nas cenas de ação e muito menos nos momentos mais serenos. Por exemplo, a cena de luta na câmara dos Guardiões do Tempo é vergonhosamente mal coreografada com diversos cortes nas cenas para esconder. Pelo menos, a fotografia é bonita, cada episódio tem seu próprio tom, assim como cada ambiente, na AVT predomina um tom alaranjado enquanto Lamentis usa uma iluminação com tons de roxo, rosa e azul.

    Vale mencionar que para os fãs dos quadrinhos, há diversos easter-eggs e fan services que devem agradar quem busca algo mais saudosista. Nem todas essas referências são bem colocadas, mas elas dão um charme a mais para o material que já carece de algo especial. No que tange as atuações, todos os atores fazem bem seus papéis, não há o que se pode chamar má atuação aqui.

    Tom Hiddleston faz um Loki bondoso que está tentando não estragar sua segunda oportunidade, em termos narrativos, não difere da jornada do Loki original, mas funciona. O segundo destaque do elenco fica para Sophia DiMartino como Sylvie, uma variante feminina do anti-herói, por mais que pareça não confiável, a moça encanta com sua sede de justiça e ótimo senso de humor, a personagem é uma mistura da Lady Loki com a Encantor. Fechando o trio, temos Owen Wilson como Mobius, um sujeito gente boa que cumpre seu dever, gosta de ajudar e é tão ou mais esperto que o Deus da Trapaça.

    Lembram mais acima quando mencionei que Kevin Feige não estava tão interessado em explorar o Loki quanto outros personagens? Pois, agora você sabe o porquê, tirando toda a preparação para 'Doutor Estranho no Multiverso da Loucura', a figura de Loki não mostrou nada de novo do personagem para o público, toda a jornada dele foi requentada para essa série, mas não há nada de novo a explorar nele em termos dramáticos.

    'Loki' poderia ser muito mais que um mero filler para alavancar o MCU, mas diverte o suficiente em sua pressa contínua.

Nota: 6,0