Guia do Cinéfilo: Chucky, o Brinquedo Assassino (Parte 1)

Criado por Don Mancini, Chucky é um dos maiores ícones do cinema de terror desde sua estreia nos cinemas em 1988.



Após uma longa ausência, o quadro "Guia do Cinéfilo" faz seu retorno triunfal para o Recreio. Nesse especial de retorno, vamos explorar diversas curiosidades da trilogia original de BRINQUEDO ASSASSINO, uma das franquias de terror mais populares de Hollywood. E claro, falaremos muito sobre o boneco Chucky, um dos maiores ícones do cinema slasher ao lado de Jason Voorhees e Michael Myers. Mas antes de começarmos, não se esqueça de dar uma lida nas edições anteriores para saber outras informações e resenhas sobre o mundo do cinema.


Um serial killer ferido pela polícia se vê encurralado numa loja de brinquedos e para escapar da morte, transfere seu espírito para um boneco e começa a aterrorizar a vida da mãe solteira Karen Barclay e seu filho Andy, de apenas seis anos de idade. Partindo dessa premissa, BRINQUEDO ASSASSINO foi lançado nos cinemas em 1988 e instantaneamente tornou-se um novo clássico do terror por sua história divertida e assustadora. Mas você sabia que nem sempre essa foi a história? O roteiro original escrito por Don Mancini, criador e principal autor da franquia, era bem diferente do que vimos em tela. 

Mancini escreveu o primeiro vislumbre da trama do filme em 1985, mas, na época, o título da obra era "Baterias Não Inclusas", nome que faz referência à uma das grandes revelações da produção. Após apresentar sua história para um produtor, o título foi alterado para "Bloody Buddy", que tinha uma premissa bem diferente da que veríamos no futuro. Nessa primeira versão, o brinquedo seria uma manifestação sobrenatural da raiva do menino Andy e tinha um tom de mistério porque o público não sabia se os assassinatos eram cometidos pelo menino ou pelo boneco. A versão original ainda contaria com um forte teor crítico ao exagerado consumismo infantil que, nos anos 80, era presente em publicidade na televisão, especialmente envolvendo brinquedos e acessórios para crianças. O visual de Chucky foi inspirado em brinquedos da época e o cabelo ruivo foi escolhido pelo roteirista aproveitando o clichê de que personagens ruivos eram sempre vilões em filmes hollywoodianos.


Quando os direitos do filme foram adquiridos pela MGM, o roteiro passou por mudanças sendo reescrito pelo diretor Tom Holland e John Lafia, que mais tarde seria o diretor de BRINQUEDO ASSASSINO 2. Após as revisões, o elemento do voodoo foi acrescentado e o  serial killer Charles Lee Ray foi adicionado na história como a alma que possuiria o boneco. O nome do vilão é uma junção de nomes de famosos assassinos dos Estados Unidos como Charles Manson, Lee Harvey Oswald e James Earl Ray. Em entrevista ao podcast The B-Movies, Don Mancini revelou que não foi fã da inclusão de voodoo na história, mas que com o tempo, ele percebeu que foi a decisão correta pro filme ser mais ágil e Chucky ter um objetivo claro, que era escapar do corpo de boneco e voltar a ser humano. No final do filme, ele não consegue possuir o corpo de Andy sendo derrotado por Karen e o detetive Mike. O sucesso do filme logo gerou o pedido de uma continuação que seria lançada dois anos depois.

Lançado em 1990, BRINQUEDO ASSASSINO 2 foi escrito por Don Mancini e dirigido por John Lafia, um dos roteiristas do primeiro filme. Na trama, após os eventos da produção original, Andy Barclay é enviado para um lar adotivo quando sua mãe é internada num hospital psiquiátrico por dizer que o Chucky era culpado das mortes ocorridas. Ao mesmo tempo, os fabricantes dos bonecos Good Guy pegam os restos de Chucky e o reconstroem para provar que não há nada de errado com o brinquedo, porém eles acabam ressuscitando o assassino que vai atrás de Andy novamente.


Durante anos, os fãs da franquia questionaram Don Mancini pela ausência da mãe de Andy nas sequências de BRINQUEDO ASSASSINO. O escritor explica que, inicialmente, a personagem estava presente na versão inicial do script do segundo filme, mas por motivos salariais ou de agenda profissional, a atriz Catherine Hicks não retornou, fazendo com que a personagem dela fosse tirada de cena. Outra diferença perceptível na história foi a minimização dos elementos de voodoo, por mais que o objetivo de Chucky ainda fosse possuir o corpo de Andy, as menções ao sobrenatural foram bem sucintas. Mancini explicou que essa decisão foi para que ele e o diretor John Lafia não ficassem presos ao que foi estabelecido no primeiro filme, permitindo uma maior liberdade criativa na elaboração da história.

O ato final do filme se passa na fábrica de bonecos Good Guy. Andy foi sequestrado por Chucky que tenta mais uma vez transferir sua alma para o corpo do garoto, mas falha novamente porque ele já tinha passado muito tempo como um boneco. Possesso de raiva, ele tenta se vingar do menino, mas é impedido por Kyle, irmã adotiva de Andy. A dupla consegue ferir Chucky múltiplas vezes até que finalmente o derrotam quando o explodem com a ajuda de uma mangueira de ar. E assim, Chucky morre, de novo. Ou será que não?


Após o sucesso de BRINQUEDO ASSASSINO 2, a Universal Pictures apressou a produção de um terceiro filme da franquia, o que prejudicou totalmente o resultado final. Nove meses após o segundo filme, BRINQUEDO ASSASSINO 3 chegou aos cinemas e não teve o mesmo êxito que as produções anteriores. O roteiro foi novamente escrito por Don Mancini, que admitiu em entrevistas que esse é o filme da franquia que ele menos gosta porque o processo de produção foi muito apressado. A história se passa oito anos após os eventos do segundo filme. Andy, agora com 16 anos, é enviado para uma escola militar enquanto sua mãe ainda está no sanatório. Paralelamente, a companhia que fabrica os bonecos Good Guy retoma a produção em sua fábrica abandonada e traz Chucky novamente à vida.

Inicialmente, a ideia de Don envolvia trazer múltiplos Chuckys à vida, mas por questões orçamentárias, a Universal vetou a ideia. Então, o roteirista apostou no cenário da escola militar para dar uma renovada de cenário na saga e trazer novos dilemas para Andy, agora um adolescente. Infelizmente, devido à produção acelerada, falta um refinamento nas ideias e nota-se a falta de capricho em vários detalhes do filme. Mancini revela que não gosta de algumas escolhas de elenco e que alguns personagens não parecem verdadeiros, funcionando mais como vítimas esperando o Chucky matá-las ao invés de pessoas reais. 

Um exemplo que ele cita como ruim é o ator que faz o coronel da escola, porque no roteiro, ele deveria transparecer uma imagem assustadora, mas em tela, o ator escalado não conseguiu transmitir isso. O ato final do filme se passa num parque de diversões, onde Andy derrota Chucky novamente jogando-o num ventilador gigante, impedindo que ele possuísse o corpo do menino Tyler. Aliás, outro conceito que mudou foi em relação ao voodoo, pois agora que Chucky tinha um corpo novo, ele poderia contar seu segredo novamente para uma pessoa e assumir o corpo dela, a vítima da vez foi o menino Tyler da escola militar.


BRINQUEDO ASSASSINO 3 foi um fracasso de bilheteria e desagradou os fãs. Os críticos também não gostaram do fechamento da trilogia, criticando vários aspectos da história, especialmente a preguiça criativa. Após isso, Don Mancini não tinha mais ideias para novos filmes e a franquia ficou sete anos sem lançar novos filmes até o lançamento de A NOIVA DE CHUCKY em 1998, mas isso é assunto para uma segunda parte. Não percam o restante da história da franquia BRINQUEDO ASSASSINO que será lançada em breve, onde falaremos da fase satírica inspirada por slashers dos anos 90. Muito obrigado a todos leram o post e espero que tenham curtido o retorno do quadro. Não percam a segunda parte. Até mais!