A Maldição da Residência Hill é sobre fantasmas, mas eles podem ser qualquer coisa

Criada por Mike Flanagan, A Maldição da Residência Hill é uma série de terror levemente inspirada no romance homônimo de Shirley Jackson. Lançada em 2018 e contendo dez episódios, destacou-se no streaming da Netflix, sendo aclamada tanto pelo público quanto pela crítica.



A trama acompanha a trajetória da família Crain, sendo Hugh e Olivia pais de cinco filhos: Steven, Shirley, Theodora e os gêmeos Eleanor (Nell) e Luke. A ideia inicial dos Crain no verão da década de 1990 era reformar a mansão e transformá-la num empreendimento familiar, com a intenção de vendê-la por um preço mais alto e construir a casa dos sonhos. Entretanto, seus planos são frustrados conforme eventos estranhos começam a envolvê-los. 

Nell, em um momento aterrorizante, relata ter visto a figura de uma “moça do pescoço torto” em seu quarto. Paralelamente, Luke desenvolve amizade com uma misteriosa criança chamada Abigail, visível apenas para ele. 

Enquanto isso, Theo e Shirley, assustadas, se encolhem em seu quarto mediante a batidas violentas reverberantes pelas paredes. Ao mesmo tempo, sua mãe, Olivia, sofre de dores de cabeça intensas.

Hugh luta para lidar com a crescente tensão na família, enquanto tenta manter a calma e o foco nos planos originais. A mansão, que deveria ser um recanto, começa a se transformar em um verdadeiro pesadelo.

No presente, sob a ótica do irmão mais velho, nos é mostrado como cada irmão seguiu sua vida: Shirley dirige uma casa funerária e esforça-se para manter seus irmãos juntos; Theo trabalha como psicóloga infantil e seu dom parece mais uma maldição; Luke vem lutando contra o vício em drogas há anos; Nell é emocionante instável — alucinações persecutórias têm sido constantes em sua vida; e Steve, tornou-se um escritor e, tal como Dr. Montague do livro de Shirley Jackson, investiga lugares assombrados. Contudo, é um cético e, apesar de algumas ocasiões possa parecer irritante, desempenha um contraponto importante por propor ao público que abandone a armadura supersticiosa e questione sobre nossos fantasmas internos. 

À medida que somos apresentadas as perspectivas individuais dos Crain, compreendemos como a estadia na Residência Hill os transformou em adultos quebrados. Cada membro encontrou sua maneira única de lidar, buscando refúgio de formas distintas. Alguns optaram pela negação, evitando encarar o passado, enquanto outros foram envolvidos pela culpa e pelo trauma, incapazes de avançar. Este aceno da série é um dos pontos-chave e remete ao psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. De acordo com Jung, o inconsciente pessoal contém memórias reprimidas e não processadas, exerce uma influência considerável em nossas vidas, emoções, comportamentos e atitudes. A série não busca racionalizar os fantasmas, pelo contrário, o componente sobrenatural é tão válido quanto as perspectivas psicológicas; coexistem de maneira orgânica. Porém, a narrativa subjacente torna evidente certos aspectos, como a criação de Mr. Smile por Kelsey, que servia como uma autodefesa para seu cérebro.




A formulação dos episódios é um destaque à parte. Flanagan juntamente de sua equipe desenvolve com maestria as diferentes linhas temporais, numa alternância que nos leva a reconstituir, gradualmente, todos os eventos que a princípio pareciam inconclusivos, mas que ao transcorrer, acabam sendo fragmentos de um quebra-cabeça que se encaixam perfeitamente. Um exemplo notório é o sexto episódio, amálgama entre drama e terror atingindo o ápice. Pela primeira vez, em muitos anos, a família reúne-se e rancores acumulados surgem, evidenciando a tormenta de uma família debilitada. Aliando diálogos enervados com junção entre épocas, o episódio denota altíssimo nível. O uso de transições é impecável, chegando a mesclar às duas linhas temporais ao levar um dos personagens de um local para outro, onde um personagem adulto fecha uma porta e seu “eu mais jovem” abre-a (sem interromper a tomada), regressando mais de 20 anos — em uma cena meticulosamente planejada. 

O trabalho técnico também é digno de elogios. A iluminação, som e cinematografia foram empregados de modo a estabelecer um clima escalofriante. O uso de segmentos simbólicos e imagens herméticas contribui para uma sensação de desconforto em momentos centrais. Isso ocorre com enquadramentos eficazes, seja por meio de ângulos de filmagem sugerindo uma figura distorcida à espreita, assim como a trilha com efeitos dissonantes potenciando a inquietação.


A presença do estilo “flanaganismo” que o cineasta popularizou com seu longa-metragem Absentia, pode ser observada em vários momentos, tanto de forma direta quanto por meio da linguagem semiótica. As cores acentuam o simbolismo e refletem o estado psicológico dos personagens: vislumbres do passado aparecem em tons mais quentes, enquanto o presente é retratado com cores desbotadas e frias, ressaltando tristeza e solidão. Os cinco filhotes encontrados pela jovem Shirley representam tanto os cinco irmãos quanto um lúgubre prenúncio, simbolizando também os cinco estágios do luto. A insidiosa Residência Hill pode representar figuras de pais supressores, um “eu fraturado” ou simplesmente a personificação dos traumas dos personagens, oferecendo miríades de significados.

O subtexto do Quarto Vermelho insinua a representação de um espaço nos recônditos da mente dos personagens, onde afloram seus anseios mais íntimos. É um local onde as emoções reprimidas revisitam, permite uma exploração densa da psicologia dos protagonistas. A escolha da cor vermelha indica paixão, desejo, raiva, violência e perigo, evidenciando a aura ambígua do quarto. É por meio de um gerenciamento consciente que podemos transformar esses espaços internos em fontes de crescimento e realizações. 



O encontro familiar no último episódio é comovente. Entendemos as difíceis escolhas de Hugh e a construção insânia do estado de Olivia que, inclusive, pressupõe certa impermanência psicológica antes mesmo de conhecer seu marido. Posteriormente, numa cena idílica, Nell revela que o tempo não é como uma série de dominós, cada um caindo sobre o próximo numa sequência, em vez disso, é como “chuva, neve ou confete”. A revelação sobre a ímproba jornada de Nell ressoa em sua família como uma sensação de tristeza e angústia pelo que aconteceu, mas também como aceitação e paz diante de sua condição inevitável.

O roteiro entrelaça suspense, horror, drama e transforma-os numa obra profundamente humana. A série funciona também como uma desconstrução das diferentes formas de superar traumas — em paralelo propõe reflexões sobre os distintos mecanismos de defesa que desenvolvemos ao longo da vida. A Maldição da Residência Hill é, sim, sobre fantasmas, mas eles podem ser qualquer coisa, estar em todos os lugares, incluindo, na nossa própria cabeça.



Trailer 




A História Completa da Residência Hill