A Espiral Descendente De Desmurget

Durante a leitura de Screen Damage (2019), recordei-me imediatamente do livro Dune (1965), de Frank Herbert. Neste universo fictício, um dos principais motivos para a Jihad Butleriano acontecer foi devido os efeitos nocivos que a tecnologia estava provocando nas pessoas. A sociedade chegou em um estágio tecnológico tão elevado que não queriam mais pensar, tudo era transferido para os computadores, estavam se transformando intelectualmente em rizópodes. Esse evento funcionou como um conto advertência de Herbert—ainda em 1965—sobre os perigos a prazo prolongado de usarmos a tecnologia com imprudência. Apesar desta crítica não ter sido iniciada por Herbert, pois, inúmeros livros de ficção científica discorreram acerca desse tema antes, é impossível não refletir a partir dele e recear sobre como consumimos tecnologia hoje em dia, especialmente entre os mais jovens.




Michel Desmurget, um pesquisador e neurocientista de renome internacional, é reconhecido por sua posição como diretor do Institut National De La Santé Et De La Recherche Médicale. Ele também ganhou destaque no campo da neurociência por suas teses perspicazes e críticas incisivas sobre os impactos das telas no desenvolvimento cerebral. Seu trabalho nesta área tem sido uma contribuição significativa para a compreensão dos efeitos da tecnologia na contemporaneidade. Em seu livro de 2019, intitulado Screen Damage: The Dangers Of Digital Media For Children, ele convida os leitores a refletirem sobre o que descreve como o maior embrutecimento cerebral da história.

O livro inicia descrevendo a infância como uma fase de intensa plasticidade cerebral, na qual o cérebro está altamente receptivo a novas informações, habilidades e experiências. É nesse período que o córtex pré-frontal de um bebê, ainda profundamente imaturo, é estimulado por três elementos fundamentais: luz, som e movimento. Quando essa área cerebral fica exposta de maneira descomedida às pantallas, o processo de maturação pode sofrer prejuízos irreparáveis. Embora a neuroplasticidade persista ao longo da vida, é o princípio neurocientífico de “use it or lose it” que pode tornar a curva de aprendizado mais íngreme.

De acordo com Desmurget, a partir dos dois anos, as crianças ocidentais passam, em média, mais de 2,5 horas por dia em frente às telas. Esse tempo aumenta significativamente à medida que crescem, chegando a ultrapassar 7 horas diárias quando atingem a idade de 13 anos. O aumento do consumo digital recreativo—seja em smartphones, tablets, consoles de jogos ou TVs—destaca como a utilização desregulada de certos aparelhos eletrônicos pode ter efeitos adversos em nossas habilidades perceptivas, sobretudo numa tenra idade, momento crucial onde ocorre a formação e a organização inicial das conexões neurais.

A comunicação humana nos primeiros quatro anos de vida é crucial para o desenvolvimento dos filhos, visto que a janela de aquisição adequada de linguagem se estreita e acaba depois desse período. Se os displays touch, sejam eles de uso comum ou educacional, ocupam de 20% a 30% das crianças nessa faixa etária, subtraem uma parcela respectiva do crescimento cognitivo, não devolvendo nada em troca, exceto potenciais problemas de saúde, comportamento agressivo e ansiedade. O livro evidencia os benefícios da restrição nos primeiros anos de vida e como o ensino digital responsável é terreno fértil para desafios futuros.




O autor detalha como a constante interação prolongada com touchscreen pode levar à sobrecarga do sistema nervoso central. Esta prática repercute negativamente nas capacidades atentivas, na concentração e no controle dos impulsos. Essas alegações têm respaldo em evidências que mostram uma correlação entre o tempo de exposição aos painéis interativos e alterações no funcionamento do cérebro semelhantes aos padrões observados em pessoas diagnosticadas com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Uma revisão sistemática no Journal Of Technology In Behavioral Science encontrou associações entre alta exposição à tela e os consectários negativos na saúde mental de adultos, abrangendo depressão, ansiedade, estresse, esgotamento e menor contentamento.

A obra também destaca os riscos do sedentarismo e adverte sobre as incontestáveis consequências físicas desse estilo de vida, incluindo obesidade, postura inadequada, fadiga ocular e questões vinculadas ao sistema osteomuscular. Essas preocupações são relevantes principalmente para jovens, uma vez que atravessam uma fase vital de desenvolvimento físico e cognitivo. O artigo Digital Screens and Eye Strain: Do Blue Light Glasses Help, do site National Center For Health Research, revelou que aproximadamente 80% dos americanos entre 10 e 17 anos relatam experimentar episódios de tensão ocular digital devido à exposição excessiva a interfaces táteis.

Desmurget adota uma abordagem ríspida ao analisar a disseminação dos dados científicos nas mídias. Ele argumenta que, com frequência, essas informações são apresentadas de maneira incorreta, propiciando interpretações distorcidas e, consequentemente, decisões fundamentadas em elementos errôneos. O neurocientista questiona a validade de diversos estudos inconclusivos e reprova como esses resultados são comunicados ao grande público. Ele enfatiza que a imprecisão na divulgação desses indicadores podem acarretar implicações desastrosas, mimando a confiança da sociedade na ciência.

Os capítulos finais apresentam uma variedade de métodos para mitigar as incidências prejudiciais do tempo excessivo de tela na fase infanto-juvenil. É salientada a importância de estabelecer limites claros para o uso de gadgets, sugerindo que os responsáveis devem ser proativos na definição de brincadeiras ao ar livre. Além disso, recomenda-se criar ambientes que promovam a saúde e a comodidade. Isso pode incluir a organização de espaços de estudo livres de distrações online, o incentivo a hobbies saudáveis e atividades não relacionadas à tecnologia, e garantir que as crianças tenham tempo suficiente para descanso e sono adequado.





Para além das recomendações estabelecidas pelo autor, seria proveitoso considerar a inclusão de diretrizes que abordem a educação de valores éticos e morais para crianças e adolescentes. Apesar de reconhecer que esse aspecto não constitua o cerne do livro, sua integração poderia enriquecer as estratégias para atenuar os efeitos adversos decorrentes do uso demasiado de dispositivos digitais. 

A história de Pinocchio (1883), de Carlo Collodi, serve como um exemplo para a importância dessa compreensão dos valores. O boneco, trazido à vida pela Fada Azul, carecia de discernimento moral. Em todas as situações de potencial risco em que Pinocchio se encontrava, a distinção entre ações corretas e equivocadas muitas vezes prevalecia sobre a compreensão mais profunda da moralidade subjacente às suas escolhas. Essas falhas destacam a responsabilidade de Geppetto, como pai, em ensinar adequadamente sobre princípios virtuosos.

Nesse contexto, essa questão também se aplica aos adolescentes de hoje. Para muitos deles, a diferenciação entre condutas certas e erradas comumente é mais relevante do que compreender os princípios que orientam tais ações. No entanto, essa abordagem deveria ser inversa. Antes de tomar uma decisão em relação a uma escolha específica, os jovens deveriam primeiro compreender a lógica por trás das normas. É preciso priorizar o entendimento da moralidade em detrimento do simples cumprimento de regras.

Embora alguns trechos não distingam claramente entre o uso passivo e ativo de monitores, ao analisar o impacto das telas de TV e dos visores sensíveis ao toque de forma agregada, Screen Damage: The Dangers Of Digital Media For Children oferece uma análise envolvente de inúmeras implicações tecnológicas. Ao destacar a necessidade de uma educação digital mais consciente e crítica, a obra apresenta-se como uma leitura imprescindível para aqueles que se preocupam com o bem-estar individual, assim como com o potencial danoso que a tecnologia poderá ter em nossa sociedade a longo prazo.