Na semana passada, conversei com uma amiga que sempre demonstrou ceticismo em relação a determinados temas científicos. Durante uma discussão sobre novas descobertas na farmacologia, ela questionou a validade da ciência em contextos de incerteza, argumentando que, se não é possível garantir 100% de certeza, não deveríamos confiar plenamente em suas conclusões.
Essa confusão é comum. A forma como a dúvida é apresentada pode revelar diferentes intenções: alguns usam lacunas no conhecimento como espaço para inserir crenças pessoais, enquanto outros, como minha amiga, interpretam a ausência de certeza absoluta como se toda forma de certeza fosse inválida. Se Agostinho de Hipona estivesse presente, lembraria que a certeza absoluta, nesta vida, é inalcançável, pois todo conhecimento humano é limitado e sujeito a erro, dado que se baseia em percepções e raciocínios imperfeitos.
A ciência reconhece e incorpora a incerteza como elemento essencial para o avanço do conhecimento, pois sua natureza é dinâmica e evolui com a acumulação contínua de evidências. O filósofo Karl Popper, por meio de sua tese do falsificacionismo, argumentou que a ciência não busca verdades absolutas, mas hipóteses que possam ser testadas e, se necessário, refutadas. Segundo Popper, o progresso científico se dá pelo método de tentativa e erro, com teorias sendo constantemente avaliadas, corrigidas ou substituídas à medida que novos dados e observações surgem.
O desconhecimento pode ser um poderoso motor de descobertas científicas. Antes de formular a teoria da relatividade, Albert Einstein deparou-se com problemas não resolvidos pela física clássica — como a constância da velocidade da luz e a incompatibilidade entre gravitação e eletromagnetismo — o que o levou a reformular profundamente os conceitos de espaço e tempo. De forma semelhante, Marie Curie, ao investigar a radioatividade, observou fenômenos que não se encaixavam nas teorias químicas e físicas vigentes. Essa dúvida inicial a conduziu à descoberta de novos elementos, como o polônio e o rádio, conquistas que lhe valeram dois Prêmios Nobel.
Farmacologistas não tratam a dúvida como obstáculo paralisante, mas como motor para a pesquisa. Suponha-se, por exemplo, que a molécula fictícia NZT-48 seja um agonista parcial de um GPCR envolvido na regulação da resposta inflamatória. Para testar essa hipótese, é necessário realizar diversas etapas: ensaios de ligação competitiva para avaliar a afinidade, reporter assays para medir a ativação da via de sinalização, e microscopia confocal para observar internalização e sequestro do receptor.
Esses testes podem ser complementados por modelagem in silico, para prever interações nos sítios ortostéricos e alostéricos do GPCR; estudos de metabolização hepática, para verificar estabilidade; exames de toxicidade celular, para avaliar segurança; e modelos animais, para validar efeitos anti-inflamatórios observados in vitro.
Nenhum desses experimentos, isoladamente, fornece certeza absoluta sobre a eficácia da NZT-48. Mas a convergência dos resultados, obtidos por diferentes abordagens, pode sustentar com alto grau de confiança que a molécula modula a resposta inflamatória por meio da ativação do GPCR.
Se, após uma investigação metodologicamente rigorosa, a hipótese não for convincente para leigos, há pouco que se possa fazer para persuadi-los. Por outro lado, se múltiplos estudos convergirem para a mesma conclusão e, ainda assim, profissionais da área rejeitarem as evidências, isso indicará que não estão agindo segundo o pensamento científico.
Referências
- Katzung, B. G., & Masters, S. B. (2012). Basic And Clinical Pharmacology. McGraw-Hill Education.
- Kant, I. (2007). Critique of Pure Reason. Penguin Classic.