Metaverso: uma nova forma de viver e fazer negócios

Nova camada da realidade mostra que é possível interagir e executar ações de forma totalmente virtual e imersiva, simulando o mundo real.


“Esse é o OASIS, um lugar onde os limites da realidade são sua própria imaginação. Você pode fazer qualquer coisa. Ir pra qualquer lugar. Como o planeta férias. Surfar uma onda gigante de 15 metros no Havaí, descer as pirâmides esquiando, escalar o Monte Everest com o Batman. Você pode perder seu dinheiro. Pode casar e se divorciar. As pessoas entram no OASIS por todas as coisas que podem fazer, mas elas ficam por todas as coisas que podem ser. Altas, bonitas, assustadoras, de outro sexo, de outra espécie, gente, desenho animado, você escolhe. Como tá todo mundo aqui, é onde a gente se encontra e faz amigos. Esse sou eu. Bom, é o meu avatar, pelo menos até eu querer mudar”. 

O Metaverso

O Metaverso é um espaço virtual 3D que conecta os usuários em todos os aspectos. Esse espaço integra o mundo real com o virtual, proporcionando experiências da realidade, como o OASIS, relatado por Wade Watts em “Jogador nº 1”. O OASIS é um exemplo de realidade virtual que recria o mundo real e usa avatares para cumprir nosso papel, interagindo e executando ações como faríamos em nossa realidade 2D e até mesmo além disso. Como disse o personagem principal do filme, tirando dormir, comer e ir ao banheiro, o que as pessoas querem fazer, elas podem. 

A realidade virtual permite que você seja transportado para cenários criados digitalmente. Assim, é possível andar pelas ruas de Paris mesmo estando em sua casa, no Brasil. Com ela, usuários de um jogo podem entrar em um campo de batalha, participar de uma corrida de carros ou mesmo desenvolver habilidades especiais, como super-heróis. Para acessar essa realidade é preciso a utilização de um óculos especial, como os óculos rift, ou um capacete de imersão. Esses aparelhos permitem que as pessoas executem ações dentro dos cenários, garantindo uma experiência completamente realista. Um exemplo são os simuladores de montanha russa com óculos rift, que já estão presentes em alguns parques de diversão. Além disso, alguns treinamentos profissionais, como aeronáuticos, também se utilizam dessa realidade imersiva. 


Mas, o mundo de Wade Watts não é a única forma de se conectar com o metaverso. A realidade aumentada também cumpre bem esse papel ao projetar informações - como imagens, gráficos, personagens e textos-, no mundo real. Se você já jogou Pokémon Go, sabe do que estamos falando. O jogo que ficou mundialmente conhecido, é um exemplo dessa inovação. Nele, os personagens ficavam espalhados por diferentes ambientes do mundo real e deviam ser capturados neles. Para ficarem evidentes, era preciso apontar a câmera do celular ou tablet. Além deste, outro exemplo que faz parte do dia a dia de muitas pessoas é o uso de filtros do Instagram, utilizados nos stories, que incluem animações e acessórios sobrepostos às imagens captadas pela câmera do smartphone e trazem experiências de ambientação.

A realidade aumentada vem invadindo espaços e marcas, sendo aderida em: exposições de arte, conferindo movimento aos quadros e/ou inserindo informações complementares e áudios à obras; eventos, disponibilizando filtros referentes ao tema para serem usados; divulgação e experimentação; permitindo testes de produtos antes da compra; entre outros. Em 2021, a marca Mucinex colocou seu mascote para dançar junto com os usuários do tiktok no challenge #BeatTheZombieFunk. A campanha tem, hoje, mais de 5 bilhões de visualizações e, de acordo com o chefe de marketing de negócios globais do TikTok, Katie Puris, resultou em mais de 521 mil participantes. 

E vocês pensam que acabaram as formas de imergir no metaverso? Nem sempre você vai precisar de um óculos para acessar uma realidade virtual. Até universos mais simples, como o jogo Roblox e Fortnite, também fazem parte do que conhecemos como metaverso. Cenários são criados a fim de representar a nossa realidade e permitir interações por meio de avatares. Assim, é possível que seu “boneco” realize as mesmas ações que você, como trabalhar, fazer atividades físicas, assistir shows e etc. Assim, cada pessoa pode ter contato com o metaverso de diferentes formas. 

Segundo levantamentos da Bloomberg, PWC e Statista, empresas especializadas em dados de economia, a expectativa é que o mercado movimente 783 bilhões de dólares em 2024 com essa nova realidade. Empresas como a Meta e a Microsoft já anunciaram que vão investir no Metaverso para os próximos anos. A expectativa, então, é que, cada vez mais, o mundo virtual e real estejam conectados. Segundo Patrícia Marins, especialista em tecnologia e sócia diretora do Oficina Consultoria, o metaverso é a nova internet: “O ambiente virtual do metaverso vai trazer novos contornos à comunicação humana, ao aproximar cada vez mais o mundo físico do digital. O universo digital amplia as possibilidades de interação e comunicação, além de otimizar os processos”. A especialista também adverte para a necessidade de as empresas estarem presentes no metaverso: 

“Os dados apontam, é o futuro. A realidade virtual já é nosso novo mundo e nos permite interagir com a sociedade de formas inovadoras. Uma loja de roupas, por exemplo, pode permitir que um avatar com as medidas exatas do cliente experimente uma peça antes de realizar a compra. Em uma campanha, a Sephora, através da realidade aumentada, disponibilizou filtros que permitiam que clientes experimentassem as maquiagens. Empresas que não entrarem para o metaverso vão perder espaço no mercado”.


Um dos elementos chave de funcionamento do metaverso são as criptomoedas. Todas as transações financeiras ocorridas dentro desses ambientes funcionam a partir desse recurso, ou seja, é a moeda “local”. Hoje em dia, é possível observar uma infinidade de jogos que trabalham no formato metaverso com suas próprias criptomoedas. A monetização pode ocorrer com a venda de terrenos virtuais, compra de skins e uma infinidade de possibilidades a serem exploradas por cada proposta. Desta forma, a compra de todo e qualquer bem dentro desses ambientes virtuais acontecem através das criptomoedas que poderão ser trocadas/vendidas por moedas tradicionais, como o dólar e o real.

Outra parte fundamental para que o mercado, sobretudo de itens colecionáveis, possa funcionar dentro do metaverso são os NFTs (Non-fungible token, ou Token não-fungível em português). Valores exorbitantes já são pagos, geralmente por celebridades, para ter a propriedade sobre um item 100% digital. Esse movimento tem sido tão expressivo que, de acordo com o site DappRadar, em 2021 (de janeiro a setembro) o volume de venda desses ativos foi de 13,2 bilhões de dólares. A importância desse recurso para o metaverso está em poder registrar a propriedade de bens únicos. Além disso, o NFT funciona como uma maneira de garantia de propriedade, que pode ficar ligada diretamente à ideia de exclusividade tão buscada por grande parte dos indivíduos, a partir da garantia de originalidade.

Metaverso como espaço de expansão das marcas

O uso de influenciadores digitais para alavancar as vendas de varejistas famosas foi apenas o primeiro passo para a expansão das marcas rumo ao potencial lucrativo do metaverso. Empresas de diversos segmentos econômicos buscam uma inserção nesse espaço virtual interativo a fim de conseguirem alcançar novos clientes e expandirem suas marcas para além do mundo físico.

Um dos exemplos mais bem sucedidos nessa ideia é a parceria da Nike com o jogo Roblox. Dentro do mundo digital, foi criada a Nikeland, domínio no qual os usuários podem adquirir skins baseadas em produtos da Nike para seus avatares. Os produtos disponíveis incluem calçados, bonés e camisetas personalizadas, todos licenciados exclusivamente para o Roblox.



A ideia de que os avatares possam adquirir roupas do mundo real dentro da realidade digital é um dos pontos fundamentais do conceito de metaverso, cujo principal atrativo é a interatividade social através das construções identitárias dos usuários. Esse aspecto se tornou uma fonte de capitalização para as companhias que buscam a todo custo investir em maneiras de se aproximarem das novas gerações.

A empresa pioneira no uso do metaverso é a Epic Games, desenvolvedora do jogo de ação Fortnite, que possui cerca de 350 milhões de usuários registrados. Além das missões e eventos, os jogadores podem se comunicar através de mensagens de texto e áudio, aumentando a interação social entre diferentes pessoas ao redor do mundo. A desenvolvedora ainda criou uma economia virtual própria, na qual através de criptomoedas digitais conhecidas como V-Bucks, os jogadores podem comprar skins, armas e recompensas a cada novo nível conquistado.

Ainda que tudo isso seja impressionante, a cereja do bolo fica por conta das apresentações virtuais de conteúdos de entretenimento no espaço virtual. Estrelas da música internacional como Ariana Grande, Travis Scott e Lil Nas X fizeram apresentações musicais transmitidas para todos os jogadores em diversas partes do mundo. Não apenas o Fortnite ampliou sua interatividade social, mas agora é fonte dos mais diversos tipos de cultura como filmes, séries e palestras.


Outra companhia que segue o mesmo caminho é a Riot Games, responsável pelo aclamado jogo League of Legends (LoL). Interatividade, criptomoedas, skins e entretenimento fazem parte do metaverso que a empresa expande todos os anos no universo de LoL. Em entrevista para o site O Povo, Priscila Queiroz, head de Publishing da Riot Games no Brasil, comenta sobre a expansão do mundo digital para o real.


"Desde o início, a Riot Games tem o compromisso de fazer com que o jogador sinta orgulho de fazer parte da comunidade gamer. Permitir que ele ou ela encontre referências dos seus jogos prediletos para além do game, em cadernos, itens de vestuário, na música ou na TV, é uma das maneiras que traduzimos nossa missão. No Brasil, nossa mais recente iniciativa no universo da moda aconteceu este mês, em parceria com a Renner, com o lançamento de uma coleção de camisetas temáticas de League of Legends que têm o recurso de realidade aumentada incorporado às estampas."

Para empresas que lidam diretamente com questões tecnológicas é mais fácil se inserir no metaverso para alcançar seus públicos, mas como uma empresa de carros faria isso? Para companhias como a Hyundai, a Honda e a BMW não parece uma ligação tangível de ser realizada, mas eles conseguiram. Você pode pensar que a venda de skins exclusivas baseadas em modelos de carros reais para jogos seria possível, isso existe também, mas não é o foco. As companhias citadas usam o metaverso de forma mais direta para incrementar suas vendas, mas como?

Por meio de showrooms virtuais, as montadoras de carros utilizam animações em 3D para que seus clientes tenham uma visualização prévia da aparência dos veículos. A BMW usou essa novidade na apresentação do carro SUV elétrico, conhecido como iX Flow. A prévia completa do veículo está disponível na página da empresa com uma lista das especificações técnicas.


O cliente também pode optar pela escolha de cores do veículo, através de um esquema que muda as cores tanto externas quanto internas do carro. Em comunicado à imprensa, Jorge Jr., chefe de Marketing da BMW Brasil, explica a nova estratégia da empresa com o uso do metaverso.


“A experiência do consumidor é cada vez mais digital antes da decisão de compra e seguimos acelerando a digitalização com foco nesta escolha dos clientes e fãs da marca. Sabemos que o consumidor está em fase de transição com seus hábitos e queremos cada vez mais proporcionar novas experiências.”


Essa inovação permite que o comprador tenha um contato inicial com o veículo antes de ir à loja comprá-lo. A animação exala um olhar detalhado da textura, tonalidade de cor, aparência, motor e noção espacial da parte interna. A Honda e a Hyundai adotaram essa novidade na apresentação dos modelos Acura e do HBS20. Se parecia que carros e metaverso tinham pouca relação, como será que uma empresa de bebidas como a Ambev usa o universo digital interativo para expandir a marca? A marca de bebidas brasileira abriu um processo seletivo para estágio que teria parte da seleção feita por meio da plataforma virtual Ambev Expo.


Nela, os candidatos criam avatares customizáveis e avançam cada etapa através de uma série de dinâmicas e jogos interativos, nos quais NPCs (personagens não jogáveis) representando funcionários da companhia dão dicas para o candidato chegar à fase final do processo e dicas de comportamento para entrevistas. Essa ação mostra que não apenas a venda de bens de consumo é impactada pelo metaverso, mas também as profissões, visto que em busca de novos talentos, as companhias podem usar mais processos como o descrito acima para selecionar futuros talentos. Todo o esforço da Ambev para se incluir no metaverso demonstra que independente do ramo de negócios, o mundo virtual interativo será uma ferramenta fundamental de publicidade para o futuro da indústria e do comércio.