Crítica | A Substância

Filme da Mubi estrelado por Demi Moore acompanha a jornada visceral de uma celebridade pela juventude a qualquer custo.

Coralie Fargeat estreou sua carreira em Hollywood com o excelente Vingança (Revenge) de 2017 que contava a história de uma mulher abusada que se vinga de seus algozes. Apesar da premissa já ter sido bastante explorada em outras obras, a cineasta francesa suberveteu as expectativas adicionando um olhar feminino para a situação que costuma ser contada sob lentes masculinas. Passados sete anos, ela repete o mesmo êxito em A Substância, agora utilizando o body horror para fazer comentários ácidos sobre a obsessão de Hollywood por corpos jovens e como essa pressão é cruel com as mulheres.

A trama do filme acompanha Elizabeth Sparkle (Demi Moore), uma ex-atriz de sucesso que comanda um programa de exercícios na televisão até que é demitida por ser considerada muito velha para o formato. Arrasada e desesperada para ter outros momentos sob os holofotes, Elizabeth descobre uma substância que permite criar um clone mais jovem de seu corpo. O processo permite que ela e sua duplicata coexistam com cada uma tendo sete dias acordadas enquanto a outra descansa. Para que tal procedimento tenha sucesso sem efeitos colaterais, elas devem trocar de lugar no dia combinado sem exceção.

A partir desse momento, a duplicata Sue (Margaret Qualley) passa a ser uma sensação em Hollywood, encantando a todos com sua beleza e sensualidade. Enquanto isso, Elizabeth entra numa espiral de depressão por sentir inveja de sua versão jovem, ainda que, em teoria, elas sejam a mesma pessoa. A força motriz do roteiro escrito por Fargeat reside nas alegorias feitas sobre abuso de procedimentos estéticos, baixa autoestima e o valor de uma mulher envelhecida perante uma sociedade que valoriza a juventude acima de tudo. Não é um filme com muitos diálogos, mas nada fica inexplicado, pois a diretora mostra como cada processo da substância funciona e como ele afeta a psique e o corpo da protagonista.

Cada crítica tecida pelo roteiro sobre a indústria da beleza é reforçada pelo aspecto grotesco dos homens no filme. A figura de Harvey (Dennis Quaid), ex-chefe da protagonista, é utilizada para demonstrar o quanto homens repulsivos se sentem a vontade para criticar a aparência de uma mulher. Exemplos disso são rotineiros nas redes sociais. A pressão pelo corpo magro, pelo rosto perfeito, pela pele sem rugas ou celulites sobrecarrega as mulheres com padrões estéticos impossíveis de alcançar, o que gera uma busca obsessiva pelo "corpo perfeito" através de cirurgias estéticas que podem matar ou destruir o corpo dessas pessoas.

E é isso que Elizabeth representa, uma pessoa incapaz de aceitar que as circunstâncias de sua vida mudaram e que busca formas autodestrutivas de manter relevância através de Sue. O preço dessa jornada é revelado aos poucos pelo filme que faz um trabalho de maquiagem notável nas figuras grotescas que aparecem em tela conforme a situação avança numa escala inimaginável. Nesse caos poético, Demi Moore dá tudo de si para dar uma profundidade para Elizabeth que vai oscilando entre diversas emoções negativas ao longo da obra e que Moore entrega todas de forma espetacular.

No lado oposto, Margaret Qualley encanta com a superficialidade e o egocentrismo de Sue, que sacrifica tudo para garantir que seu mundo de contos de fada não se desfaça. Por fim, vale destacar o excelente design da produção. Cada locação é bem representada pelas cores e sobre como elas refletem os personagens do filme. A amplitude dos cenários explicita como, no fundo, todos que estão ali são vazios, apesar da aparência de vitalidade que as cores vivas querem aparentar. Ao final da obra fica a questão, o que você daria para ser a melhor versão de si mesmo? A resposta cabe a cada espectador, mas algo certo, é que A Substância entrou para a lista de melhores filmes de 2024. Obrigado a todos que leram o texto e até a próxima! No meio tempo, cuidem-se.