A Sociobiologia Em Meninas Malvadas

No ano passado, ao reassistir Meninas Malvadas (2004), notei que suas dinâmicas são muito semelhantes aos processos descritos em Sociobiology: The New Synthesis (1975), de Edward O. Wilson. O livro analisa padrões de acasalamento, cooperação, competição, cuidado parental e hierarquias, combinando genética, ecologia e biologia evolutiva para explicar comportamentos que aumentam a sobrevivência e o sucesso reprodutivo das espécies.

Na narrativa do filme, a disputa por status, a formação de alianças e a competição por recursos estratégicos dentro de uma localidade específica refletem, em escala humana, práticas que, assim como em diversas espécies, desempenham papel fundamental para a sobrevivência e o sucesso em contextos de intensa competição.


Em Meninas Malvadas, seguimos Cady Heron, uma jovem que, após crescer na África, muda-se para os Estados Unidos e se depara com as peculiares dinâmicas de seu novo colégio. No primeiro dia de aula, Cady experimenta momentos de isolamento, mas com o apoio de seus novos amigos, Janis e Damian, ela começa a desvendar as normas que regem seu “ecossistema escolar”. Esse ingresso da protagonista pode, à maneira, ser visto como exemplo de plasticidade fenotípica: assim como organismos ajustam comportamentos a pressões ambientais, Cady modifica seu repertório para enfrentar os desafios iniciais.

Essa necessidade adaptativa de Cady também se revela em seu primeiro contato com o trio “Poderosas”, cuja dinâmica lembra a de uma colmeia. Regina é a abelha-rainha que dita regras e mantém a ordem, enquanto Gretchen e Karen atuam como operárias que reforçam a liderança e garantem a coesão do grupo, tal como as abelhas que sustentam e protegem a colônia. Cady, ao ingressar, é como uma jovem abelha introduzida ao ninho, submetendo-se a um processo de calibragem para se encaixar na engrenagem coletiva.

Na cena em que Regina, ao usar uma vestimenta inadequada para a segunda-feira, é expulsa da mesa do refeitório por Karen e Gretchen, é possível traçar um paralelo com o que ocorre em colmeias, onde, caso as operárias estejam insatisfeitas com a liderança da abelha-rainha, podem forçá-la a deixar a colônia. Esse processo, conhecido como “expulsão da rainha”, envolve, em alguns casos, a interrupção da alimentação, a restrição dos movimentos ou até mesmo a morte da rainha. A ação de Karen e Gretchen sinaliza uma necessidade de remover o elemento que causa desequilíbrio no grupo. 

Outro elemento interessante que notei, especialmente no segundo ato do filme, foi o “mimetismo defensivo”, um fenômeno análogo ao mimetismo batesiano observado em certas espécies. Da mesma forma como as borboletas-vicerreias, podem imitar características de animais perigosos para evitar predadores, Cady incorpora os aspectos das Poderosas para reduzir sua vulnerabilidade colegial, mesmo que inconscientemente. A emulação de estéticas sobressalentes do grupo — as roupas, maquiagens, marcas de luxo e os acessórios — representa uma tática visando maximizar suas chances de sucesso conservativo.



Durante seu período com as Poderosas, Cady gradualmente adere a inúmeras práticas “morfológicas”, incluindo espalhar mentiras sobre a Srta. Norbury. Além disso, ela recorre a manobras para derrubar a liderança de Regina, o que pode ser comparado a certos hábitos observados em babuínos e hienas, onde as fêmeas manipulam o ambiente ao eliminar rivais ou reduzir sua influência, garantindo acesso a melhores recursos e posição mais elevada para reprodução. Similarmente, Cady desestabiliza Regina sabotando sua dieta, cria desacordos entre ela e Gretchen, expõe sua traição a Aaron e faz ruir sua soberania. Embora esses atos tenham sido inicialmente motivados por vingança, o título simbólico de nova “abelha-rainha” confere status a Cady. 

A interação intragrupal é um componente fundamental na trama e pode ser analisada sob diversas perspectivas etológicas. Quando Cady, Damian e Janis se unem em uma colaboração estratégica para enfrentar os desafios impostos pela “biosfera escolar”, essa parceria pode ser correspondente às coalizões formadas por golfinhos, que se agrupam para se defender contra ameaças. Todavia, o comportamento de Cady, dentro dessa aliança, pode igualmente ser equiparável ao “dilema do prisioneiro”, onde a cooperação pode gerar benefícios maiores que ações isoladas, embora a traição, como demonstrado por Cady posteriormente, ofereça ganhos imediatos a custo de penalidades sociais no longo prazo.

Contudo, as supostas vantagens adaptativa apresentadas no enredo também vêm acompanhadas de custos significativos. Na biologia evolutiva, a carga adaptativa se refere ao impacto detrimental das pressões seletivas, em que características vantajosas em um contexto podem ser prejudiciais em outros. À medida que Cady adota as atitudes das Poderosas, ela enfrenta conflitos internos, prejudica seu envolvimento amoroso, degrada amizades valiosas, reduz seu desempenho escolar e compromete sua identidade original, exemplificando as consequências negativas de uma adaptabilidade meramente superficial.

Com elementos típicos de uma comédia adolescente dos anos 2000, Meninas Malvadas completou vinte anos em 2024. Seu legado inclui a inspiração para peças de teatro, um musical na Broadway e um impacto duradouro na cultura pop. O filme recorre ao humor satírico para mostrar que comportamentos aparentemente triviais podem ter raízes evolutivas, ao mesmo tempo em que expõe os riscos do bullying feminino amplificado pela pressão para conformar-se ao ambiente. A trajetória de Cady Heron evidencia a importância de manter a individualidade sem sacrificar a capacidade de adaptação, demonstrando que autenticidade e flexibilidade podem coexistir.





Referência

- Wilson, E. O. (2000). Sociobiology: The New Synthesis. Harvard University Press.