Hoje fomos ao cinema, e a sala era enorme, parecia um castelo, mas só tinham oito pessoas lá dentro. Eu contei nos dedos. E eu e a tia Lissa éramos duas dessas pessoas. Isso já era estranho. Branca de Neve, né? Devia estar cheia de crianças rindo, esperando ver a magia, o vestido brilhando, os animaizinhos coloridos. Mas não. Só oito. Como se todo mundo já soubesse de algo que eu não sabia.
A tela acendeu, e eu fiquei esperando. Esperando sentir alguma coisa, esperando o friozinho na barriga, esperando ver a história que eu conhecia. Aquela com a maçã, o espelho mágico, o príncipe encantado, a floresta, os anões brigando e cantando. Mas nada disso apareceu. Veio outra coisa. Outra história que só parecia, mas não era.
Branca de Neve não era encantadora, nem perdida, nem tinha aquela coisa de princesa que não sabe que é princesa. Ela era... diferente. Mas não de um jeito bom, sabe? Parecia mais uma adulta mandona. Nem sequer ajudou os anões a limpar a casa!
E os anões? Aquilo eram anões? Eles falavam de coisas chatas de adulto, tipo... sei lá, economia de dinheiro, alguma coisa assim. Dunga mudo falou! Hã?! Olhei para a tia Lissa, e ela também tava estranha, olhando para a tela meio torta, não entendendo nada.
A Rainha Má apareceu, mas nem dava medo. Ela não tinha aquela beleza assustadora, nem falava com aquela voz que fazia a gente tremer. E, tipo... ela era mais bonita que a Branca de Neve! Isso tá literalmente errado, né?!
O espelho? Sem graça.
A maçã? Meio nada a ver.
As canções? Bleh.
O Castelo? Pior que feio (Tipo feio de um jeito que não dá nem pra explicar direito).
E o príncipe? Bom… nem tinha direito. Príncipes podem roubar?
Fiquei tentando gostar. Eu juro que tentei. Fiquei tentando encontrar aquela sensação boa de quando a gente vê um filme e quer voltar e ver de novo, de novo, de novo. Mas só fiquei com uma coisa ruim por dentro. Tipo quando a gente quer uma Barbie no Natal e ganha uma meia.
Quando as luzes acenderam, tia Lissa suspirou. Foi um suspiro comprido, cansado. Parecia que ela tinha carregado um saco de batatas na cabeça. E eu fiquei ali, sem saber se falava ou se ficava quieta. Será que era só eu que havia achado ruim? Mas aí ela olhou para mim e disse:
— É… Era melhor ter visto o desenho, né?
Foi como se ela tivesse tirado um peso de mim. Eu não tava louca. Não era só eu. A história nova era só isso mesmo: nova. Mas pior. Pior de um jeito que nem dava raiva, só dava… tristeza. Como se tivessem pegado um quadro bonito e pintado por cima com tinta cinza.
Na saída, olhei para o pôster do filme. Ela tava lá, toda séria, com um olhar que parecia dizer “me leva a sério, me leva a sério”. Mas eu não queria levar a sério. Eu queria de volta a Branca de Neve de verdade, a que cantava com os passarinhos, a que corria na floresta com medo e encontrava uma casinha cheia de anões lindinhos.
Mas essa nova Branca de Neve não parecia estar num conto de fadas. Parecia que ela queria estar outro lugar. E eu também queria. Queria estar em casa, na minha cama, debaixo do edredom, tomando chocolate quente com machimelos e assistindo o desenho de novo.
Meg,
29/03/2025, 8:15 PM.