Acaso: Determinista, Probabilístico ou Divino?  


Por acaso, em uma visita ao museu, reencontrei uma colega de estágio que não via havia cinco anos. Considerando que coincidências são comuns e que estávamos em um local turístico, minha percepção do ocorrido deveria ter sido mais comedida, mas como ultimamente tenho refletido sobre o «fundamento da minha existência» — obrigada, gravidez — inúmeras perguntas permearam minha mente durante todo o trajeto de volta para casa.

Seria o acaso um princípio ontológico genuíno da realidade, inerente às próprias leis naturais? Ou não passaria de uma aparência ilusória, decorrente apenas da limitação do nosso conhecimento sobre as causas envolvidas? A resposta estaria na metafísica, na ciência, ou em alguma articulação entre contingência e ordem?

A princípio, recorri à sabedoria de meu pensador favorito, Aristóteles. Em sua filosofia, ele distingue quatro tipos de causas: material, formal, eficiente e final. Para ele, tudo o que ocorre no universo está submetido a alguma forma de causalidade, mas o que chamamos de «acaso» é, na verdade, a confluência ocasional de diferentes cadeias causais que, apesar de regidas por suas próprias finalidades, acabam por se cruzar de modo não intencional.

Embora Aristóteles não tenha aplicado estritamente suas quatro causas a eventos fortuitos, é possível — de forma livre e analógica — usar sua estrutura causal para pensar em como até mesmo um encontro inesperado pode se dar dentro de uma rede ordenada de causas. Por exemplo:

Causa material: eu, minha amiga, o espaço físico do museu, o momento da visita;

Causa formal: reencontro entre duas conhecidas de estágio, após cinco anos, num ambiente literário;

Causa eficiente: minha decisão de visitar o museu naquele dia e, independentemente, a dela também;

Causa final: retomar a amizade, vivenciar novas experiências, ou cumprir algum propósito ainda não plenamente compreendido. 


Folheando alguns livros de São Tomás de Aquino, percebi que, para ele, o acaso não pode ser um princípio absoluto da realidade, pois tudo o que existe estaria inserido em uma ordem divina. Deus, em sua providência, não age de maneira arbitrária; permite que os eventos naturais sigam suas próprias causas. O acaso, portanto, existe apenas sob a perspectiva da limitação humana, uma vez que para Deus nada é verdadeiramente aleatório: tudo acontece dentro de Sua ordem.

Essa interpretação tomista, inclusive, se alinha com a ideia de contingência: existem acontecimentos que não são necessários em si, mas que ocorrem sem quebrar a ordem universal. Para exemplificar, considere que um incêndio destrua uma casa de campo. Isso não significa que o incêndio tenha ocorrido sem causa, mas sim que, dentro da ordem do mundo, ele não era inevitavelmente necessário.

Foi justamente a partir desse ponto que percebi a necessidade de fazer algumas separações importantes entre o que seria um «acaso absoluto» e um «acaso relativo». 

Acaso absoluto: envolve a ideia de que eventos podem ocorrer sem qualquer tipo de causa ou razão, isto é, eles não são determinados por uma causa anterior ou uma lógica implícita. 

Acaso relativo: percepção de aleatoriedade que surge da interação intrincada de múltiplas causas, mas que, em um nível particular, ainda obedece a uma estrutura ordenada

Levando em consideração esses dois conceitos, de que maneira eles se correlacionam — ou não — com as ocorrências que resultam em situações incidentais em nossas rotinas em outras abordagens epistemológicas? Por um momento, deixei a filosofia em segundo plano e concentrei minha atenção nas ciências.




A probabilidade condicional é um conceito matemático na teoria das probabilidades e na estatística. Sua fórmula afirma que P (A/B) representa a probabilidade de o evento «A» ocorrer, dado que «B» já aconteceu. Aplicando esse conceito ao meu caso, a probabilidade de encontrar minha amiga (evento A), visto que estávamos em um museu temático e compartilhávamos um interesse comum (evento B), é consideravelmente maior do que a probabilidade de nos encontrarmos aleatoriamente em qualquer outro lugar.

Não encontrei dados suficientes no site do 'Bronte Parsonage Museum' para tentar modelar um cenário que tornasse nosso reencontro minimamente verossímil, mas algumas estimativas podem lançar luz sobre a improbabilidade envolvida. 

Suponha que eu visite esse museu uma vez por ano, e que ele receba, em média, 100 visitantes por dia. A probabilidade de um reencontro com minha amiga — sob a hipótese de que ambas decidam visitar o museu no mesmo ano — pode ser estimada pela seguinte expressão:

P(encontro) ≈ P(ela visitar o museu no ano) × P(de ser no mesmo dia) × P(de haver reconhecimento mútuo)

Assumindo, para fins ilustrativos, que a chance de ela visitar o museu nesse ano seja de 10%, que essa visita ocorra exatamente no mesmo dia que a minha (1/365), e que, estando ambas presentes, haja uma chance de 30% de nos reconhecermos, obtém-se:

P(encontro) ≈ 0,1 × (1/365) × 0,3 ≈ 0,000082, ou 0,0082%.

Embora esse resultado não represente fielmente o evento real, ele serve como uma estimativa simbólica para dimensionar e quantificar excepcionalidade associada. 




Esse resultado estatístico nos direciona ao tratamento científico da causalidade. Por muito tempo, a ciência considerou o determinismo como a principal visão da realidade. O físico Pierre-Simon Laplace, no século XIX, formulou que, se fosse possível conhecer todas as posições e velocidades das partículas em um determinado momento, poderíamos prever todos os eventos futuros com precisão resoluta. Essa visão, conhecida como «determinismo laplaciano», exclui a existência do «acaso verdadeiro», o reduzindo à ignorância humana sobre as causas subjacentes. 

Com o advento da mecânica quântica no século XX, a visão determinista foi contestada. Os experimentos quânticos mostraram que, ao nível subatômico, as partículas não seguem um comportamento estritamente determinístico, mas sim probabilístico. O «Princípio da Incerteza de Heisenberg» estabelece que não podemos conhecer simultaneamente a posição e a velocidade de uma partícula com precisão absoluta. 

Aqui entra o conceito de «indeterminístico quântico». Por exemplo, a «Função de Onda» descreve uma superposição de estados possíveis, que colapsa em um estado específico no momento da medição, gerando incomensuráveis resultados. Trazendo esse conceito ao nosso cotidiano, seria como se tivéssemos uma infinidade de encontros acidentais, ocorrendo em diversos lugares e momentos, refletindo a probabilidade intrínseca dos eventos que moldam a realidade em numerosos universos possíveis.

Contudo, cientistas como Albert Einstein eram céticos em relação a essa visão. Sua famosa frase «Deus não joga dados com o universo» expressa seu entendimento de que a aparente fortuidade quântica se deve a fatores ocultos momentaneamente desconhecidos. Essa noção levou ao desenvolvimento da hipótese das «Variáveis Ocultas», que sugere que há causas latentes ainda não detectadas que determinam o comportamento das partículas. 




Diante de pensamentos filosóficos, religiosos e científicos, seria então razoável inferir que o acaso, entendido em seu estado absoluto, como um acontecimento incausado ou sem inserção de uma ordem precedente, é inexequível? Ou, de fato, tudo ocorre sem necessidade de uma estruturação causal recorrente? 

Aparentemente, o que percebemos como aleatoriedade não constitui, na realidade, em uma negação de uma ordem subentendida do universo; trata-se de uma manifestação complexa que permeia o cosmos, onde incontáveis variáveis e interações convergem para gerar o que interpretamos como imprevisível. 

O cérebro humano tende a dar atenção especial a coincidências marcantes, desconsiderando a imensa quantidade de eventos que poderiam ter ocorrido, mas não aconteceram. Essa tendência faz com que encontros inesperados pareçam impossíveis, embora sejam resultado de uma combinação improvável de circunstâncias. Isso, todavia, nos leva à questão inicial: existe uma verdadeira natureza do acaso?