Finalmente estou tendo a oportunidade de conhecer a obra de Clarice Lispector. Uma autora que para mim representa mistério e magia. Os poucos textos que já tive contato me arremessaram diretamente para uma intensa jornada de introspecção e autoconhecimento. E agora estou me aventurando nesse livro de título autoexplicativo, onde se encontram todos os contos já escritos por Clarice em ordem cronológica, publicado pela editora Rocco em 2015, assinado por Benjamin Moser, a obra promete reunir textos da autora que foram anteriormente publicados em antologias distintas, desde ''Laços de Família'' (1960) até ''A Via Crucis do Corpo'' (1974), incluindo também pequenas histórias publicadas em jornais, revistas e outras coletâneas, como ''Felicidade Clandestina'' e ''Onde Estiveres de Noite''.
Clarice é conhecida por sua escrita poética e profundamente psicológica, explorando temas como a condição humana, o existencialismo, a solidão, o amor, a morte e as complexidades que implicam relações familiares e sociais. Sempre dando enfase a uma essência que ela bem conhece enquanto mulher e humana, sem falar em sua condição financeira desde muito nova, classe média e bem nascida. Seus contos, na maioria das vezes, mergulham no mais secreto de suas personagens, evidenciando um conhecimento profundo de sentimentos humanos, vividos e sentidos. Ou, na incapacidade de senti-los, apenas imaginados. Em uma linguagem complexa que mistura o cotidiano com o filosófico, criando uma atmosfera unica e hermética que confunde narrativas tradicionais na literatura em geral.
É uma leitura densa, mas recompensadora, ideal para quem busca entender sentimentos humanos, aqueles que há dentro de si, e aqueles que existem empiricamente em outras pessoas.
Primeiras Histórias
O Triunfo: O conto de abertura — e também o primeiro publicado pela jovem CL — já demonstra uma imensa maturidade de quem o elaborou, embora também deixe explicito que foi escrito por alguém ainda muito jovem e sem muita experiencia de vida. Trata-se dos devaneios de uma moça que entra em conflito interno após acordar e não encontrar dentro de casa o que seria seu único e verdadeiro amor. Deu-se que o rapaz decidiu sair de casa, na surdina, após muitos episódios de desavenças entre o casal. A moça se desespera, pois existe a possibilidade de não mais o encontrar, caso ele não volte mais para casa.
Obsessão: Teoricamente esse deveria ser somente uma reflexão sobre um relacionamento abusivo entre homem e mulher. Mas unicamente sob a perspectiva da mulher. E de fato o texto vai seguindo essa linha de raciocínio. Mas somente até certo ponto. Embora, a narrativa demonstra ser muito mais complexa do que aparentava ser desde o início. Daniel é um personagem interessantíssimo, o rapaz demonstra uma capacidade quase mistica de enxergar a vida sem filtros convencionais. Melancolia e introspecção são traços de sua personalidade e sua enorme inteligência e eloquência com as palavras elevaram essas características na máxima potência. O problema é que sua arrogância o impede de ter um relacionamento saudável com qualquer outra pessoa que não tenha essa mesma capacidade intelectual. Cristina, sua companheira, sente-se humilhada e diminuída por Daniel quase o tempo todo. Por não saber enxergar a vida com a mesma clareza que Daniel a enxerga. Mas, sempre acaba voltando para ele, por achá-lo um homem fascinante.
''Cristina, você sabe que vive?'' — ''Cristina, é bom ser inconsciente?'' — ''Cristina, você nada quer, não é mesmo?''
Delírio: Um ensaio sobre um homem de meia-idade que está a beira de um ataque de nervos durante um episódio de febre intensa, enquanto se mantém convalescente na cama de um pensionato da qual ele é um dos hóspedes. O interessante é que esse homem é um escritor que costuma passar noites insones escrevendo seus textos — ''O que não é lá vida de gente'' — segundo o que diz a dona do pensionato. O delírio a que se refere o título da obra deu-se em um episódio mais severo de febre, onde ele ficou a noite inteira oscilando entre o sono e o despertar. Tendo muitos ''insights'' (mas também poderíamos dizer que eram inspirações, futuramente virariam textos a serem publicados), em sua maioria eram visões de nada com coisa alguma, confusas e fragmentadas. Mais tarde, tudo isso se transformaria em literatura. É um conto interessantíssimo, pois me pareceu que Clarice estava dando uma dica ao leitor de onde vinha a inspiração para algumas de suas obras.
Eu e Jimmy: É um texto sucinto. De poucas páginas. Mas surpreendentemente tem sua mensagem dita de forma clara e objetiva, homens e mulheres possuem suas próprias filosofias de vida, mas quando acontece deles se relacionarem amorosamente, são as filosofias da mulher que deixam de existir para dar espaço aos ideais do homem. A protagonista dessa história é uma rara exceção. Jimmy até tentou, mas jamais conseguiu fazê-la dar ouvidos aos seus devaneios de homem. Aqui Clarice estava flertando com o feminismo.
História Interrompida (contém spoilers): O primeiro parágrafo do texto resume por completo o enredo do conto. Há um acontecimento no final que me fez voltar para o início e reler tudo outra vez, pois, agora, sabendo do destino trágico de um dos personagens principais (justificando o título da obra) tudo o que Clarice escreveu anteriormente passou a ter outro significado. Um significado mais profundo e trágico. É basicamente uma declaração de amor, de uma mulher para seu amado. O rapaz é descrito com sendo um homem terrivelmente melancólico, mas por talvez demostrar certa inclinação para a autodestruição na maior parte do tempo. Mais uma vez a autora conseguiu me surpreender com suas reflexões filosóficas sobre a vida, que inevitavelmente passam por relações humanas, seus amores e suas frustrações. Também percebo certo toque espiritual aqui, pois tudo se resume a uma pergunta, uma indagação. Mas é uma resposta metafisica que nunca vem de modo literal. Talvez lendo o texto pela terceira vez, eu a encontre; mas só talvez.
A Fuga (contém spoilers): Muito Perspicaz. No início, pensamos se tratar de devaneios de uma mulher recém divorciada. Após doze anos de casamento ela se vê perdida pelo mundo sem saber que rumo tomaria dali pra frente, mas estava confusa, feliz, apaixonada pela vida e com vontade de viver (nos últimos doze anos ela sequer sentia 'fome', enfatizou a narradora) mas agora estava sentindo de tudo um pouco. E em hipótese alguma voltaria para casa. Seguiria em frente, não importando o que aconteça.
Mas Clarice jamais faria uma prosa tão simples, sem ter a intenção de tocar na ferida mais profunda de seus personagens — e por osmose, de seus leitores — de modo inquietante, provocador e visceral. Ao passo que a personagem não tem condições financeiras de fazer as viagens que havia planejado, além de estar sentindo intenso frio por ter pego muita chuva enquanto andava pelas ruas de sua cidade, fracassadamente ela decide voltar para casa, onde estava seu marido a esperando para jantar. Houve uma quebra de expectativa que me deixou surpreso, afinal de contas não se tratava de um divórcio literal, estava mais para um estado de espírito. E ao voltar para casa, a moça percebe que está presa nessa situação, desejando liberdade, mas não tinha ideia de que maneira faria isso.
Trecho: A curta história de uma mulher a espera de um amor que demora a chegar. Ela está em um café a moda antiga e sente-se pequena diante das pessoas ao redor. Constrangida, como se todos a sua volta fossem capazes de ler seus pensamentos e adivinhar que essa moça está a espera de alguém que ama muito, mas que provavelmente não irá aparecer. É muito interessante a forma sutil que a timidez e a vergonha foram retratadas nesse texto, Flora, com certeza, sofre de ''síndrome do protagonista'', que é basicamente quando alguém se acha o centro das atenções em locais públicos e fica constrangido por isso. Mas quase sempre é tudo fruto de sua imaginação.
Cartas a Hemengardo: Um texto difícil de definir ou obter um esclarecimento interno sem ter feito uma releitura antes, mas se entendi um pouco do que se trata posso dizer que a mente de quem o elaborou fervia em genialidade. Uma mulher que tem de tudo para ser feliz e diz que nada lhe falta, mas repentinamente se vê coberta por uma infelicidade genuína que chega de repente e demora a ir embora. Suas cartas são escritas na direção de José — o tal Hemengardo — e ao que parece há uma espécie de ritual feito pela autora antes de entrar em contato com seu interlocutor: uma oração, repetindo por diversas vezes seu nome até estar cheia por completo (cheia do quê?) e só então dar início ao processo introspecção profunda, até atingir uma espécie de epifania, em transe mediúnico espiritual. Trata-se de uma pessoa 'desperta' tentando direcionar outra pessoa a despertar também. Talvez Clarice estivesse falando de expansão de coincidência. Em dado momento é citado no texto a quinta sinfonia de Beethoven, quem conhece sabe que essa canção tem o poder de acordar certas áreas do cérebro que há muito estavam adormecidas. A escrita é magia, oração e canção, também.
Gertrudes Pede um Conselho: Uma jovem decide procurar uma doutora que fosse capaz de lhe dar conselhos e um direcionamento na vida. Pois tinha somente 17 anos e estava perdida, sem saber o que fazer, para onde iria ou o que faria da vida quando fosse mais velha. Me identifiquei, pois já fui e ainda sou esse jovem. No final a moça tem um encontro consigo mesma e descobre que enxerga a vida com mais clareza que qualquer outra pessoa a sua volta. E nem mesmo uma doutora formada em psicanálise poderia ajudá-la nesse processo.
Mais Dois Bêbados: Uma situação prosaica entre dois bêbados que mal se aguentavam de pé deu início a uma conversa filosófica sobre vida e morte; o filho de um deles estava em casa provavelmente morrendo de doença e o outro bêbado que ainda mantinha um pouco de lucidez tentava convencer seu parceiro a voltar para casa e fazer companhia para sua esposa, pois foi dito que a mulher estava sozinha com o filho acamado — entre a vida e a morte — e caso houvesse de fato a morte a mãe não saberia fazer outra coisa senão morrer também, de tristeza e angustia. Mas o bêbado pai seguia indiferente — ''Para quê, pois se ele já morreu?'' — essa é uma frase marcante e repetitiva do texto. No fim, percebo que, ao discorrer sobre a suposta morte de um suposto filho (abandonado e rejeitado pelo pai), o bêbado mais lucido estava falando de si próprio.
E, essas foram as primeiras hisórtias de uma extensa coletanea de contos. Esse post continuará em uma parte 2 trazendo os contos de ''Laços de Familia'', em breve:
