Rubra-Rosa Amarela - Especial de Halloween.



SINOPSE: ''Antonella, uma mulher de beleza fatal e desejos insaciáveis, vive uma existência cíclica entre sedução, destruição e redenção. Em sua juventude, marcada por relacionamentos perigosos e uma busca incessante por prazer, ela deixa um rastro de paixão e perversidade. Agora, em um tempo indefinido, usa sua experiência para influenciar outras mulheres, enquanto sua história, que começa onde termina, flui eternamente, desafiando limites narrativos e humanos.''
















Rubra-Rosa Amarela
1) Não sei como exatamente essa história começou, Apenas percebo fragmentos de uma narrativa que me parece realmente interessante e assustadora em sua essência, mas que não possui começo, meio ou fim. Na verdade, ela tem um encerramento, que não posso descrever com exatidão em palavras, pois a natureza de seu final é também a semente de seu nascimento. Ela é a filha de uma flor, seu perfume invade meus sonhos e me arrebata. Obtive imagens de sua aventura peculiar como um filme de enredo não muito popular. Acredito que não venderia muitos ingressos e as salas de cinema estariam vazias no dia de sua estreia, digo isso, pois tenho certeza de que as pessoas teriam medo ao assisti-lo – mesmo não sendo uma película de terror (apesar de, sim, ser inteiramente terrorífica). Teriam medo do mistério, medo da perversidade e do desconhecido. É a história de uma mulher que entregou sua alma a uma divindade, pois não queria perder seu amante tão desejado. Fez um pacto de sangue e em troca recebeu não o amor de um homem e sim a adoração de muitas mulheres. Consigo ver sua performance no alto de seu palanque, construído por seu ego gigantesco e uma imensa certeza de que viveria para sempre no imaginário popular. Seu nome é Antonella. E primeiro lhes direi qual será seu final para só então dar início à sua jornada. Ela está vestindo um longo vermelho, há um véu de fino linho cobrindo parte de seu rosto, mas ainda assim é possível enxergar um sorriso quente no canto de seus lábios, uma batucada constante toca ao fundo enquanto ela bate palminhas para si mesma. Ouve-se o louvor daqueles que a adoram e clamam por sua presença. Mas quando eles chamam por Antonella, não é esse o nome que sai de suas bocas, porém, ainda assim ela os escuta e certa feita até existe a intenção de atender suas orações. Talvez ela até os atenda. Mas só quando acabar seu regojizo. Se acabar. Rosas-vermelhas são jogadas em sua direção, talvez porque fosse a hora de receber sua oferenda, não tenho certeza, pois também existe a possibilidade desse ser seu estilo de banho. É a forma que ela arranjou para expulsar suas impurezas, utilizando do perfume mágico das flores. As pétalas vão formando uma cachoeira tão rubra quanto o sangue, elas caem na direção de Antonella espalhando graciosidade de mulher por toda a extensão de seu corpo, de sua mente, de sua alma. Alma Rubra. Rubra Rosa. As palminhas de Antonella seguem o ritmo da batucada. Ou seria o contrário? Não importa. Seu corpo vai girando, girando ao passo que a música vai acelerando. Antonella gira, gira enquanto vai se banhando de pétalas em adoração. Eu poderia ficar até amanhã lhes dando detalhes dessa performance, mas essa descrição não teria fim, pois não consigo saber se um dia isso acabará. Essa é a eternidade de Antonella, e não tenho certeza se é humanamente possível descrever a eternidade de alguém. Prefiro encurtar a história de modo que se entenda apenas o necessário. Antonella continuará, talvez usando sua influência e experiência de vida (ou de morte) para ajudar outras mulheres. Ela teve relacionamentos destrutivos e perigosos, com homens e também com mulheres, não necessariamente amorosos, mas todos danosos e perversos, uma vez que a própria Antonella fora uma mulher perversa em sua juventude, tinha uma beleza fatal e ela sabia disso. Podia ser a mais sedutora das mulheres, mas isso nunca foi suficiente para saciar sua vaidade, seu desejo, seu ego; que a faziam desejar sempre mais. Mais prazer, mais sexo, mais de seu homem amado, ele foi o fruto proibido de Antonella, por razões que a mais amoral das criaturas há de concordar. Deliberadamente decidiu morder até saciar sua sede, sim, apenas beber da fonte masculina nunca fora o bastante para ela, precisava mordê-lo com força suficiente até quase arrancar pedaço, se possível. Hoje (que não é dia, nem noite, é apenas o agora) é com toda essa experiencia que ela pretende, talvez, ajudar a quem precisa, porque ela quando jovem necessitou desse tipo de ajuda e não a encontrou. Ao menos, é o que ela acreditava até descobrir o contrário. Mas que momento seria esse, pergunto eu? Não tenho certeza, o tempo não sei; Antonella reside agora no âmbito de minha imaginação e talvez ela só queira que sua história seja contada. É isso que estou tentando fazer, mas acredito eu, não farei esse serviço com excelência — ''me desculpe querida, mas sua história começa onde termina e vice-versa'' — começou, mas nunca terminou, ao menos, não de modo convencional. Para qualquer autor isso é um baita desafio, mas decido beber dessa fonte até quase engasgar (a exemplo da minha anti-heroína) e terei o prazer de iniciar essa prosa contando tudo o que sei (ou o que acho que sei), mas para isso temos que regressar um pouco no tempo. Deixemos de lado a nossa Antonella de agora e a observaremos muito antes, quando era uma jovem imatura e repleta de insaciável desejo. Desejo esse que era tão intenso que chegava a fazer doer certas partes de seu corpo. É como uma coceira de ferida que você não pode coçar, assim sentia-se Antonella todo o tempo, era uma coceira em sua alma de mulher. Ela buscava saciedade, mas não a encontrava e talvez fora essa a grande causadora de todos os males dessa narrativa. Mas vamos começar de algum ponto específico, tentarei iniciar de onde acho que fará sentido, mas quero deixar claro e repito, não sei onde exatamente essa história começou, nem como, nem o porquê, acho até que estaremos no meio do caminho, quando deveríamos iniciar do começo, mas infelizmente não tenho essa informação, então começarei de onde for possível e acho que devo, e assim caminharemos até o desfecho. Mas não se decepcione se não encontrarmos esse final. Nem tudo precisar acabar e acho mesmo que Antonella nunca acabou.



2) Eu a vejo descendo uma ladeira, sensual, apesar de desconcertada, pois o ambiente não era muito propício a uma moça tão bonita quanto ela. Em comparação com as pessoas que viviam naquele lugar, Antonella era quase uma sílfide e não estou exagerando. Suas curvas femininas destacam-se no corpo magro, mas avantajado onde ficam seus seios, usava uma mini blusa branca que mostrava metade de sua barriga, e uma saia xadrez tão curta que quase não cobria suas partes de mulher — e que faria inevitavelmente os homens se perguntarem se ela estava mesmo usando uma calcinha. Consigo visualizar suas cabeças de macho tombando para o lado e para baixo, na esperança de ver algo a mais enquanto ela passa pela calçada; no fundo, eles sabem que isso é o máximo que eles verão de uma mulher tão bonita quanto essa. Antonella caminha sabendo que chama a atenção de muitas pessoas, despertando o desejo masculino e a inveja feminina (mas nem sempre era só inveja, às vezes era também o desprezo) ela podia sentir esse tipo de sentimento indo em sua direção tanto quanto sentiria um ataque iminente de abelha raivosa que do nada decidira lhe ferroar e, no fundo, ela até gostava disso. Gostava de ser desejada na mesma intensidade que era odiada, esses pareciam ser os únicos sentimentos que essa moça conseguia despertar nas pessoas. Quando penso nela, penso em amarelo, isso porque seus longos cabelos são tão dourados quanto um favo de mel. Sua pele, apesar de ser muito branca, apresenta também a coloração vermelha, um pouco mais intensa do que deveria, isso porque o sangue de Antonella é quente e parece querer saltar de suas veias. Ela é quente, talvez por isso goste de usar roupas tão curtas. E também pelo calor insuportável que costuma fazer no Rio de Janeiro.
Estava perdida, buscando a casa de uma senhora relativamente conhecida na praça, precisava receber concelhos de uma velha que fosse experiente e essa pessoa não poderia jamais ser dona Clotilde (Dona Clô, para os mais intimos), a mãe de Antonella, — ''mamãe me mataria se soubesse o que ando fazendo'', pensou ela, enquanto caminhou por uma rua transversal, olhando para onde deveria estar a casa da dona ''Clorcy'' a cartomante que uma amiga de Antonella indicou alegando ser uma ótima adivinha — ''Vá até lá e conte tudo a ela, não esconda nada. Ela lhe dará bons conselhos, vocês está mesmo precisando'', dissera ela, enquanto escrevia em um pequeno papel o endereço da senhora em questão. Antonella segura o papel em uma das mãos, estava insegura, pois nunca foi boa em encontrar endereços, jamais teve o talento de se localizar em lugares que nunca esteve antes. Ela estava sempre perdida no mundo, mais vezes do que a maioria das pessoas.
Ela parou. O prédio em frente não era o 'sobradinho' de dona Clorcy, e sim uma oficina mecânica, nela havia três pessoas, dois homens e uma mulher. Um dos homens estava mexendo com uma chave de fenda na parte dianteira de um carro que era quase tão velho quanto ele próprio, enquanto o outro estava de pé e gesticulava alguma coisa em sua direção, como quem dá alguma ordem — ''aquele deve ser o dono'', pensou ela, enquanto se aproximava do local. Tentou não mexer muito os quadris ao perceber que a mulher em questão era a esposa do homem que gesticulava. Ela simplesmente soube. Às vezes, ela simplesmente sabe das coisas.
O homem que estava de pé não era muito bonito, devia ter por volta de seus quarenta anos, era magro demais e tinha uma barba por fazer, cabelos pretos que certamente precisavam de um reparo. Estava sujo de graxa em várias partes do corpo e não cheirava muito bem, mas Antonella simpatizou, pois a fazia lembrar de seu falecido pai. Usava uma camisa regata e calças jeans (apesar de estar muito quente naquela tarde de domingo) havia um certo volume naquela calça. — ''Deve estar suando à beça ai embaixo'' esse pensamento invadiu Antonella por um breve momento, mas ela o expulso de imediato, pois o homem lembrava seu pai e não era lá muito correto ter pensamento dessa natureza a quem lhe deu a vida.
— Com licença — Disse ela, na direção das três pessoas que estavam ali, mas claramente estava falando especificamente com o suposto dono da oficina. — Podem me ajudar?
Todos a olharam, com certo espanto, talvez, Antonella claramente não morava por aquelas bandas, parecia uma garota zona sul perdida entre a plebe, mas foi nem questão de um segundo, logo as convenções sociais se ativaram e todos agiram normalmente. Exceto pela mulher do mecânico, que estava sentada em uma cadeira de balanço lendo o jornal, e por se sentir intimidada pela presença de Antonella perante seu marido, fingia ler o jornal só para não ter que falar diretamente com aquela jovem garota, — ''se eu falar pouco, talvez ela vá embora logo'', pensou ela.
— Claro, mocinha, do que você precisa? — Disse o dono, seu nome é Ed, mas Antonella jamais saberia disso.
— Eu estou procurando a casa de uma pessoa, mas não encontro o local correto. Ela deveria morar exatamente nessa rua de acordo com o endereço que me deram, mas não encontrei nada. Vocês devem saber onde ela mora, já que ela é 'conhecida' por essas bandas, é uma cartomante.
— Menina, aqui é um bairro de gente pobre como você já pôde perceber. Então temos uma cartomante a cada esquina — Ele pigarreou e cuspiu no chão, soltando um enorme escarro, coisa que todo mecânico gosta de fazer esporadicamente— Como é o nome dela?
Antonella precisou conferir o papel novamente antes de responder — Dona Clorcy, acho. Você conhece?
— Dona Clorcy? — O mecânico falou em voz alta e levou o rosto para trás fazendo uma careta e mostrando os dentes, foi uma cena engraçada, como quem diz: ''Que porra de nome é Clorcy?'' — Não conheço nenhuma Clorcy. Você conhece Ninja?
Ninja é o outro mecânico, ele parou de mexer no carro por um estante e fez um movimento de negativa com a cabeça, com impaciência — Não sei de nada disso, Ed. A única cartomante que eu conheço é a ''puta do vigário''. Aquela que me cobrou vinte pela mamada, mas depois quis cobrar o dobro quando esporrei na boca dela sem avisar antes e...,
— Ei! — A mulher do mecânico o interrompeu e fez uma cara feia na direção do homem — Isso é coisa que se diz seu velho boca suja?
Ninja nada respondeu, apenas virou o rosto com antipatia e continuou seus afazeres na oficina.
— Puta do vigário é uma das cartomantes que temos por aqui — Ed falou, na direção de Antonella, mas logo se virou para sua esposa para dizer-lhe; — Mas o nome dela é outro, né? 'Benhê'?
— Uhum — A mulher ainda estava indiferente a Antonella, mas aos poucos as barreiras que separavam as duas estavam começando a se dissolver — O nome dela é Socorro, acho. Nós frequentamos o mesmo açougue. Ela compra mais linguiça do que deveria, mas a linguiça é sempre a de sangue. Aquela que é mais escurinha, sabe?. — Disse isso com um sorriso sarcástico no rosto, mas Antonella não teve certeza se entendeu o comentário.
— Então... — Disse Ed, novamente na direção de Antonella — Puta do vigário é o nome de guerra, entende? Toda cartomante tem um. Você não vai achar nenhuma Clorcy por aqui, tem que saber o nome de guerra.
— Eu não sei se ela atende por outro nome. Minha amiga não me disse nada.
— Então, acho dificil conseguir te ajudar, menina.
— Mas não deve ser tão dificil encontrá-la nesse bairro. Afinal de contas, não deve ter tantas cartomantes por aqui ao ponto de vocês confundi-las, né?
— É como eu te disse, aqui é um bairro pobre e naturalmente somos muito supersticiosos, todo mundo por aqui tem um pé de 'comigo ninguém pode' atrás da porta. E também temos muitas cartomantes, obviamente.
— Oh — Antonella parecia decepcionada, pois estava ficando tarde, ela já havia caminhado bastante, fazia bastante calor e ainda não conseguira fazer o que fora fazer — bom, acho que irei para casa e falarei com minha amiga na próxima vez que nos encontrarmos. Talvez eu peça pra ela me acompanhar na próxima vez que eu inventar de falar com a Dona Clorcy, assim não tem perigo de me perder novamente.
— Ou, você poderia ir até a casa da dona 'puta do vigário' e perguntar a ela onde se encontra a tal dona Clorcy, pode apostar que ela saberá. Todas elas se conhecem.
— É uma boa ideia, sabe? — Antonella de repente se animou, como uma lampada que se acende como passe de mágica. A esposa de Ed levantou uma das sobrancelhas. Ela estava enciumada novamente — Farei isso, se não for muito longe daqui. Assim não perco a viagem.
— Claro, claro… — E então, Ed explicou como Antonella faria para chegar no endereço da cartomante; ele falava e gesticulava sem muitas pausas. Ed era o tipo de homem impaciente que não gosta de muita conversa com ninguém, e só teve tanta paciência com Antonella, pois estava sendo paternal (talvez pela primeira vez na vida) sentia que a moça loira e sensual poderia ser sua filha e estava perdida. Queria ajudá-la. Mas não apenas isso, ele a estava desejando. Não teve a intenção, nem mesmo tivera vontade de despertar deliberadamente esse sentimento, simplesmente aconteceu. Enquanto passava as coordenadas para Antonella, uma ereção fez seu membro endurecer como pedra e ele ficou imaginando se Antonella percebera. Tomou-se imediatamente por um enorme constrangimento.




3) Era um sobrado enorme, de dois andares, não havia pintura na parte de fora e a cor cinza predominava, pois a casa nunca recebeu o devido acabamento e Antonella achou que jamais receberia. Mas era de longe a casa mais bonita do bairro, exibia muitas samambaias, peperômias e lambaris penduradas por toda parte e o colorido da vegetação compensava a falta de pintura da casa, as paredes foram tomadas por cercas vivas. As janelas eram pretas e os telhados eram feitos de tijolos de barro, coisa não muito comum de ver por aqueles bandas. Um muro acompanhado de um enorme portão preto separava a casa da rua e era o que, naquele momento, estava separando Antonella da cartomante — considerando que ela estivesse mesmo em casa — antes de apertar a campainha, tomou-se por um enorme sentimento de inveja que quase a fez pigarrear saliva, pensou que aquela casa era muito melhor do que a casa de sua mãe onde morou sua vida inteira, desejou poder morar ali. Mas o sentimento passou quando ela olhou em volta e lembrou-se em qual bairro a casa estava localizada, rapidamente mudou de ideia. Era um bairro pobre, sujo e as pessoas que ali moravam eram piores ainda, burras e sujas. 'TomTom' fez uma cara de nojinho e apertou a campainha, foi quando sinos natalinos badalaram por todo o interior da casa. Antonella convenceu-se de que a pessoa que vive naquela casa deveria ser alguém de bom gosto. — ''Não era como aquele mecânico idiota e sua esposa porca que mal tinham instrução para dar-me uma simples informação.'' — Pensou, enquanto aguardava a dona da casa aparecer. Achou até que poderia fazer sua consulta ali mesmo, se ela fosse uma boa cartomante, pois estava cansada e queria ir logo para casa. Não tinha mais intenção de ir até a casa da Dona Clorcy, mesmo que descubra seu endereço.
— Pois não? — era uma senhora de aproximadamente 60 anos, seus cabelos eram uma mistura de castanho, ruivo e branco e estavam presos em um coque mal feito. Ela usava saia colorida que descia quase até os joelhos e uma blusa azul-marinho cheia de flores, tinha muitas tatuagens e brincos por toda parte do corpo. Era uma mulher excêntrica, mas estranhamente condizente com o ambiente em que vivia.
— Oi, senhora, me chamo Antonella. Seus vizinhos disseram para bater aqui, pois estou procurando a casa de uma pessoa e talvez só a senhora saiba indicar o caminho.
— Quem você está procurando, menina?
— Uma tal de Dona Clorcy, ela também é cartomante.
— Dona Clorcy sou eu. Prazer.
— Você é a Clorcy? — Antonella sobressaltou-se, mas logo ficou feliz. Após algum contratempo, tudo ficou como dantes no quartel de Abrantes — Que ótimo, então. Preciso fazer uma consulta com a senhora. Mas é estranho, pois me disseram que a senhora era uma outra pessoa que atendia por outra alcunha.
— Tenho muitos apelidos. Mas meu nome de batizado é Clorcy Socorro da Silva. Que Deus o abençoe. Não é um nome comum e nem todos sabem que me chamo assim. Para a maioria sou apenas Socorro. Para alguns sou santa e para outros sou puta. Mas imagino que para ti serei cartomante, não é isso?
— Ah, sim, isso mesmo. Preciso conversar com a senhora sobre algo que vem acontecendo comigo e que tem me deixado bastante preocupada.
— Ora, então entre menina, tenho a tarde toda livre para você — ela ponderou — parece até que eu já estava lhe esperando. Alguém me indicou, foi?
— Sim, minha amiga Carmem conhece seu trabalho e disse que seria bom vir aqui para entender certas questões que tem acontecido em minha vida pessoal. E talvez tentar resolvê-las — Carmem era colega de faculdade de Antonella, as duas cursavam administração juntas e ficaram muito próximas no último bimestre — Acho que tenho um encosto ou coisa assim, que expulsá-lo.
— Pois muito bem, entre e me conte tudo. Irei servir um café.
A casa de Clorcy era bem aprumada e repleta de móveis rústicos centenários que embelezavam aos mesmo tempo que envelheciam o lugar, cada cômodo tinha seu próprio papel de parede e todos eram no mesmo estilo, flores coloridas em fundo igualmente colorido, semelhante à blusa azul que Clorcy estava vestindo. Antonella sentiu dor de cabeça, pois a saturação naquele ambiente era forte, além disso, existia um cheiro de incenso no ar que parecia ser crônico e fazia arder as narinas dela que eram bem sensíveis. Chegou a espirrar duas ou três vezes e em todas às vezes Clorcy fez o mesmo comentário — ''Beleza você já tem de sobra, então lhe desejo apenas saúde'', TomTom agradeceu e as duas seguiram até o último andar da casa. No caminho havia muitos quadros de diferentes entidades, um deles era Jesus Cristo com sua coroa de espinhos olhando para cima com olhar de súplica; o quadro seguinte era mais misterioso, havia um homem preto, usando um terno branco e chapéu coco, ele olhava para baixo e sorria maliciosamente, ao fundo percebe-se um enorme cemitério, porém, as cruzes de todas as covas estavam invertidas. Antonella arrepiou-se vendo aquilo. Outro lhe chamou atenção, uma mulher exuberante vestindo um longo vermelho, ela segurava com a boca uma rosa de cor rubra, que combinava com seu batom. A mão direita dela (cheia de anéis de ouro) descia até a genitália, simulando o que seria um ato de masturbação. Nuvens carregadas cobria o céu e chovia sangue, mas a moça do quadro parecia não se importar com isso. Tudo na casa de Clorcy era muito colorido e excêntrico. E tudo cheirava a incenso barato.
O último andar seguia basicamente o mesmo padrão, porém de forma mais incisiva, ali era o local onde ela efetuava seus trabalhos de cartomancia (e outras coisas mais), as cartas estavam espalhadas pela mesa, e havia duas cadeiras, uma de frente pra outra, nas paredes havia muitas prateleiras e em todas elas continham estátuas de entidades de umbanda e quibanda, mas Antonella também percebeu a presença de deuses budistas e hinduístas, como também Jesus Cristo crucificado e a Virgem Maria. E muitas pombas-giras, todas usando saias rodadas e pareciam dançar.
— Sente-se, meu bem, irei jogar as cartas para você — Disse Clorcy, enquanto servia duas xícaras de café da garrafa térmica — Você me disse algo sobre encosto, não é isso?
— Isso mesmo. — Antonella sentou-se, ela nem fazia questão de disfarçar que estava reparando em tudo naquele ambiente, era uma coisa totalmente nova, embora ela já esperasse por isso, pois estava na casa de uma feiticeira. A única preocupação dela nesse momento é descobrir se Clorcy é de fato poderosa ou só mais uma dessas charlatãs que tem por ai.
— Cobro 100 pela consulta, sua amiga já deve ter-lhe dito. Mas se de fato houver atividade de encosto ou qualquer outra entidade e eu precisar expulsá-la, então cobrarei 300. Mas o trabalho é garantido.
— Tenho o dinheiro. Farei o que for preciso.
— Pois muito bem — Clorcy sentou-se de frente para Antonella e serviu os cafés, as duas tomaram e conversaram. Antonella dizia-lhe coisas de sua vida e Clorcy apenas assentia com a cabeça e logo após lhe fazia novas perguntas.
— Eu tenho esse relacionamento com essa pessoa, mas estou querendo acabar tudo, pois mamãe certamente morreria se soubesse de tudo. A senhora sabe?
— Sei.
— Mas todas às vezes que tento ficar longe do Rubens, algo me toma e eu fico fora de mim, parece que fico possuída. Quando percebo já estamos deitados na cama, transando, e começa tudo outra vez.
— Mas você quer mesmo dar fim a essa relação, menina?
— Bom, eu tenho que dar, né!? Mamãe não pode descobrir que estamos ficando, ele está noivo de uma moça que mora ali perto. Ela daria uma surra nele e depois me mataria. Mas eu não vou negar, existe muito tesão entre nós dois. Eu me casaria com ele se pudesse.
— E sempre que você tenta se afastar desse moço, algo encosta em você e lhe faz perder os sentidos, é isso?
— Sim, isso. E parece que essa coisa exerce alguma influência sobre ele também, pois ele me disse uma vez ''eu tento ficar longe de ti, TomTom, mas não consigo, é mais forte do que eu''. Nesse dia tínhamos transado loucamente e eu fiz ele gozar duas vezes. — Por um breve momento, Antonella achou que tinha falado demais, mas logo percebeu que Clorcy não demonstrara o menor constrangimento, muito pelo contrário, ela sorria maliciosamente e gesticulava com as mãos como quem diz — ''vamos, continue'', é de se imaginar que uma mulher de alcunha tão vulgar como ''puta do vigário'' não deveria ter o menor pudor para nada — Bom, obviamente fizemos escondido de mamãe, nesse dia ela tinha ido fazer um trabalho de costura na casa da Dona Lucia, uma vizinha nossa.
— Ok. Já tenho o que preciso para iniciar os trabalhos. Deixe-me ver — O baralho de Clorcy tinha acabamento em dourado. Eram cartas grossas que quase preenchiam toda a extensão de suas mãos, isso enquanto ela embaralhava com a destreza de uma profissional. Antonella observava admirada as cartas dançarem enquanto eram misturadas segundo o que diz sua própria sorte — O futuro ainda não existe, menina, ele é apenas energia e vibração. Nunca se esqueça de que ele pode mudar num piscar de olhos. O que eu faço é captar essa energia e trazê-la para o plano físico de modo quase literal, para interpretá-la utilizando esse talento que Deus me deu.
— Sim… — TomTom estava relutante, pois não tinha certeza se estava entendendo o que a feiticeira queria dizer com aquela palavras.
— Eu enxerguei sua energia, senti sua vibração imediatamente assim que você entrou na minha casa. Ela é forte e vermelha. — Clorcy colocou o monte de cartas sob a mesa e após embaralhá-las pediu para Antonella cortar três vezes. Feito isso, ela virou as cartas que até então estavam ao contrário, revelando as egrégoras que diriam a sua consulente o que seu futuro lhe reserva. Uma torre alta e negra que estava em chamas, uma mulher de vermelho se afogando em um oceano de sangue e um feto humano sendo formado no centro do que seria um enorme salgueiro adulto, essas foram as cartas de Antonella. E elas não estavam necessariamente nessa ordem.
— O que diz aí?
— Não é obvio, querida?
— Deve ser obvio para você, madame, para mim não.
— Então lhe direi.
E Clorcy disse em uníssono e sem interrupções, em poucos segundos fez uma leitura perfeita e fidedigna da vida de Antonella, o que aconteceu e o que ainda iria lhe acontecer.
— Eu vejo seu passado e o seu futuro, querida. Eles se misturam em ordem linear. Isso é muito bom. Não é assim que funciona para a maiora das pessoas. As coisas estão bem definidas para você. — Ela olhava para Antonella, depois para as cartas concordando com a cabeça e verbalizando, repetia esse processo inúmeras vezes — Eu acredito que você esteja grávida. Meus parabéns. Mas também acredito que você esteja pensando em tirar essa criança, não é mesmo? — Ela não esperou uma resposta e continuou — A moça se afogando no oceano rubro representa uma ameaça, caso você de fato chegue a matar essa criança. Pode ter certeza que as coisas ficarão complicadas em sua vida se fizer isso. Essa moça é você e todo aquele sangue representa seu filho, a entidade que está te ameaçando e você própria, os três se fundem em seu futuro.
— Entidade?
— A torre em chamas é algo masculino e não feminino. Mas não enxergo com clareza. Existe muito fogo em seu futuro, isso é certo. Pode apostar. Está queimando em combustão e não para, mas para interpretá-lo eu precisaria tirar mais algumas cartas, farei isso mais tarde.
— O que você quis dizer com ''entidade?'', estou correndo perigo?
— Talvez. Ela encostou em você por alguma razão que não sei ainda. E parece ter alguma ligação com o filho que está em sua barriga, está vendo? — Ela apontou para o feto no salgueiro — Isso significa que a criança está sendo protegida por forças da natureza. Algo muito maior do que eu e você; uma vida inocente está crescendo em você e o mundo espiritual está trabalhando para preservá-la. Aborto é coisa ruim lá do outro lado.
— Não me julgue! Você também iria optar pelo aborto se estivesse na mesma situação.
— Não estou julgando. Que conversa é essa? Quando tinha sua idade eu já tinha feito treze abortos e teria feito quantos mais fosse necessário. Eu nunca quis ter filhos.
— Pois é. Eu também não quero.
— Mas você deu o azar de estar concebendo uma criança que representa alguma importância ao mundo espiritual. E algo ou alguém lá em cima está fazendo de tudo para impedi-la de abortar.
— O que eu faço então? — Antonella estava começando a ficar nervosa, acreditava em cada palavra de Clorcy, pois foi comendo pelas beiradas que a cartomante acertou precisamente detalhes que até então só cabia a ela própria e ao Rubens, então todo o resto realmente deveria ser verdade — Não posso ter essa criança, tenho medo que ela nasça com anomalias.
— Sim, é possível, é possível — Ela nem precisou perguntar o porquê de Antonella pensar nessa probabilidade, já sabia do que se tratava — Mas essa entidade está querendo o seu filho nascido e você pode ter certeza que ela fará qualquer coisa para ter seu desejo realizado. Entidades são muitos passionais em sua maioria.
— Que entidade é essa?
— Uma pomba-gira, menina. Você tem uma pomba-gira!
— Tem certeza?
— Absoluta. Mas ela não é a Navalha, Sete-Saias, Rosa-Vermelha, Caveira e nem Cabaré. É uma que nunca avistei antes, nunca tinha tido contato. Eu não a conheço.
— E por qual razão ela me escolheu para encher o saco? Não tinha outra pessoa para atormentar?
— Impossível tentar entender. Eu teria feito o décimo quarto aborto se a Dona-Macumba não tivesse me proibido. Ela é a minha pomba-gira. Me ordenou a ter a criança e eu tive, mas o bebê morreu horas depois de nascido. Complicações pós-parto.
— Mas não é a mãe que apresenta esse tipo de complicação?
Clorcy não respondeu. Apenas deu de ombros como quem diz — ''quem sabe?''. As duas tinham dado por encerrado os trabalhos, Antonella estava satisfeita com o que já sabia. Não foi dito nada sobre expulsar encosto, pois uma pomba-gira era muito maior que isso e ambas sabiam. Mas Antonella perguntou a Clorcy se ela tinha alguma erva para provocar aborto espontâneo, já que não podia ir a uma clínica e fazer do modo convencional, iria tentar outra alternativa. Mas Clorcy ficou relutante e a aconselhou a não desrespeitar as ordens da entidade, pois haveria consequências.
— Se conselho fosse bom, se vendida. Mas apenas oferecemos de graça, pois não existe comprador de palavras que queira escutar o que não se tem vontade, mas vá lá.
— Olha, eu não quero e nem vou ter essa criança, está bem? — Antonella demonstrava impaciência — Se esse tal 'gira' quiser ter seus próprios filhos, ela que os tenha! Mas não me envolva!
— Todos os meus abortos foram utilizando ervas naturais, menina, e isso não impediu a dona-macumba de intervir na situação. Você está equivocada quanto a isso.
— Te dou 300 pela consulta se me disseres qual erva usar.
— Cravo-da-Índia — Clorcy respondeu imediatamente — mas não te venderei uma única pétala. Não quero que a pomba-gira se volte contra mim.
— Tudo bem. Saber já me é suficiente — Antonella pagou o que devia a Clorcy. Chegara ao fim de sua consulta e saiu, embora estivesse insatisfeita com o que ouviu, tudo o que ela mais queria naquele momento ela chegar em sua casa e finalmente descansar. Foi um longo dia. Ao chegar na sala de estar, percebeu que dentre muitas plantas que a velha cultivava ali, uma delas muito se assemelhava a um pé de cravo. Estava ao lado do sofá em um vaso de porte médio. Era uma pequena bonsai. Mas TomTom não soube dizer se aquilo era uma cravo-da-índia, ou qualquer outro pé de cravo. Lembrou-se da quantidade de abortos que a cartomante havia feito e achou que seria coerente manter a fonte de seus muitos assassinatos por perto, por recordação talvez. Ou talvez porque tivesse outras clientes que, assim como Antonella, quisessem se livrar de um problema chamado gestação. Antes que Clorcy pudesse ver (vinha descendo as escadas, de modo lento, pois já não era mais tão jovem) a moça agarrou um dos galhos da pequena árvore e arrancou um chumaço de folhas e cravos, pretendia fazer um chá para abortar o feto que estava crescendo em sua barriga – ela podia ter comprado em outro lugar, mas preferiu roubar, talvez para vingar-se do fato da cartomante ter se recusado a ajudá-la mais efetivamente a resolver seu problema. Quando Clorcy finalmente chegou, Antonella rapidamente colocou o que havia roubado dentro de sua bolsa. Disfarçou com um sorriso adorável de menina que, no fundo, sabe que estava sendo 'danadinha'. A cartomante nada percebeu. As duas se despediram formalmente quando Antonella passou pela porta e saiu.




4) Rubra-Rosa ponderou por alguns momentos e achou que estava na hora de dar por encerrada a festa da gira que estavam fazendo em sua homenagem. Encerraram-se as oferendas de flores que jogavam em sua direção, as palminhas cessaram e a batucada que antes tocava até depois da meia-noite agora foi substituída por um silêncio ínfimo. Pensou em Antonella com certo desgosto, queria matá-la com fogo e brasas vermelhas – rubras como as rosas de seu enorme jardim e como ela própria – queria fazê-la sofrer pela desobediência. Mas Rubra-Rosa era misericordiosa e levou em conta a pouca idade de seu cavalo, sua imaturidade e perversidade que era quase sexual. Tudo o que Antonella fazia era movido por um enorme desejo, era selvagem e, ao mesmo tempo, cruel. Inconsequente em essência, e se ainda tivesse o menor traço de moralismo na eternidade da qual se encontra, ela perceberia que TomTom tem seus motivos para rejeitar aquela criança com tanta veemência. Bons motivos.
— Ela que segurasse aquela 'boceta' dentro das calcinhas então — Rubra‐Rosa gritou na direção do nada, era uma imensidão branca que contrastava com próprio universo — Não deveria ter se entregado tão facilmente para aquela perna de calça idiota!
Havia indignação naquela voz. E desgosto também. Ela exclamava aquelas palavras como se fosse um rosnado de um cachorro raivoso, ela desejava morder Antonella até arrancar pedaço. Ordenou que não matasse a criança, nem sequer deveria tentar o aborto, foi avisada através da cartomante e Rubra-Rosa se recorda de até tentar incitar algum sentimento materno em seu cavalo, para que ela despertasse algum sentimento pelo feto que agora crescia em seu útero, mas nem isso foi suficiente para persuadi-la a não fazer o aborto. E agora surgiu uma conversa sobre um chá capaz de matar bebê, uma conversa que lá do éter Rubra-Rosa escutou. Foi quando ela inclinou a cabeça levemente à esquerda para escutar melhor. Entre palmas, festejos e batucadas que ela constatou aquilo que em seu íntimo já sabia, mas preferiu ignorar para que não tivesse que interferir além do necessário nessa história — A moça não vai desistir do aborto! — Não, ela não iria desistir, e agora optou pela feitiçaria natural que é muito mais perigosa que qualquer outro método convencional, pois Antonella tinha muito poder dentro de si (por mais que ainda não soubesse disso) e se tentasse criar uma poção mágica igual às bruxas naturais faziam antigamente, certamente conseguiria. Não interessava muito a erva utilizada no processo, isso é pura crendice, o que interessava mesmo era a intenção da bruxa que estava efetuando o trabalho de feitiçaria. E a intenção de Antonella era uma só, ela queria matar seu filho para evitar uma profusão de problemas que ela teria de enfrentar caso a criança viesse ao mundo. Isso enfureceu a pomba-gira rubra de uma forma que mal consigo descrever, apenas sei que sua respiração pesada queimava suas narinas a cada tragada de ar, seus olhos ardiam e queimavam nas pálpebras e seu vestido – que agora parecia fazer parte de seu corpo, não uma vestimenta, mas um membro de seu corpo – foi-se diluindo em líquido fervente e deslizando por entre seus membros até atingir o chão, como um grotesco veneno rubro que queimava tudo a sua volta, era pulsante e exalava muita fumaça negra. Rubra-Rosa não tinha intenção de fazer mal a Antonella, por mais que vontade não lhe faltasse naquele momento, mas algo precisava ser feito e ela faria agora mesmo.
Agora era de sua boca que o líquido estava saindo, ela estava se transformando em pura chama que queimava tudo a sua volta, o ambiente que antes era branco e pacífico se transformou em algo vermelho e quente como o inferno. E se antes era possível escutar gracejos de adoradores, agora ouviam-se gritos de horror e dor, como almas do umbral que imploram para sair daquele lugar, mas sem nunca conhecer a liberdade de fato. Rubra-Rosa já não era mais matéria, o corpo que antes era carne se fez brasas e lançou-se do éter na direção do universo, do futuro em um mundo espiritual para o passado na ilusão 3D, atravessou dimensões e passou por muitos lugares desconhecidos até chegar onde queria. A terra a qual Antonella chama de sua morada.




5) Assim que Antonella saiu da casa de Clorcy, teve uma sensação esquisita de iminência, sentiu que algo ruim estava por vir e que ela não poderia evitar nem se quisesse, pensou no que a cartomante lhe disse e soube imediatamente que se tratava da ameaça da bomba-gira, poderia mesmo sofrer as consequências se a contrariasse, mas TomTom não tinha a menor intenção de retroceder na questão do aborto, pois se tivesse esse filho, também haveria consequências e elas não seriam nada boas. Esse filho é do Rubens, e Rubens é seu irmão. A Mãe deles não sabe que seus dois filhos estão tendo uma relação incestuosa e certamente morreria se soubesse (para falar a verdade, Antonella está transando com o irmão desde que virou uma mocinha, há uns onze anos pelo menos) Rubens é cinco anos mais velho e sempre foi um rapaz bonito, moreno, alto, magro, corpo bem definido e um membro acima da média. Não tinha a pele tão clara quanto a de Antonella, ele havia puxado o pai que em sua juventude exibia uma aparência cigana bastante excitante – Antonella não gostava de admitir, mas pensava isso mesmo em relação ao pai, que morreu quando ela tinha cinco anos, mas deixou algumas fotografias de quando era jovem – Era um moço bonito, mas não tanto quanto Rubens.
Ele ingressara no exército no ano passado e agora estava seguindo carreira militar. Portanto, passava a maior parte do tempo fora de casa, contribuindo ao quartel. Isso foi bom, pois a situação financeira da família nunca fora lá muito boa, porém agora tinha melhorado pelo menos um pouco. Mas Antonella lamentava, pois sentia falta do irmão durante o dia e desejava ter seu amante por perto durante a noite. Agora, estava chegando em casa após um dia tão cansativo, a única coisa que desejava era deitar-se no colo dele e descansar em seus braços, sentindo aquele cheiro de perfume masculino e loção pós-barba que Rubens costumava usar, dos mais baratos. Mas que ela adorava.
Quando chegou no portão escutou vozes e sentiu o cheiro de carne assada com batatas de sua mãe, supôs que Denise, a noiva de Rubens, estivesse em casa, pois às vezes ela aparecia para ajudar com a faxina – ela também sabia costurar e a mãe de Antonella a adorava por causa disso – e por mais que TomTom não suportasse a noiva de seu irmão (por motivos óbvios) ela até ficava feliz quando Denise estava presente, pois detestava fazer tarefas domésticas e Denise cuidava de tudo em seu lugar. Para agradar seu futuro marido e sua futura sogra.
— A imbecil tem alma de Amélia e corpo de bicho doente — Antonella sussurrou para si própria enquanto empurrava o portão para entrar. O comentário era cruel, mas não estava muito longe da verdade.
Quando entrou em sua casa teve uma grata surpresa, sim, Denise estava lá ajudando sua mãe com os afazeres. Dona Clô estava na cozinha fazendo o jantar e Denise estava limpando o banheiro. A Casa é dividida por cômodos, então ninguém viu quando Antonella entrou. Era tudo muito simples e muito velho, móveis de madeira que não foram comprados na loja, e sim pegados do lixo ou recebidos por doação, mas todos estavam inteiros. Não tinha pintura nas paredes, eram tijolos de concretos puros e não havia portas dividindo os cômodos, eram lençóis que foram colocados para simular uma porta. Uma casa extremamente simples, abafada, pois tinha poucas janelas, mas com um aroma agradável de limpeza. A mãe de Antonella era muito caprichosa.
— Cheguei, mamãe.
— Oi, filha. Nossa como você demorou! Esqueceu o caminho de casa, foi? — Clotilde gritou lá da cozinha.
— Eu fui visitar uma amiga do cursinho — A mentira soou tão natural que ninguém ousaria duvidar de sua veracidade.
— Ótimo. Olha só quem está aí…
De início, TomTom achou que a mãe estivesse se referindo a Denise, mas logo avistou um homem grande sentado no sofá da sala assistindo TV. Ele usava uma calça caqui e estava sem camisa. Estava tomando uma cerveja e beliscando alguns petiscos.
Era Rubens. Ele já tinha percebido que Antonella estava ali, apenas fingiu que não viu. Mas o sorriso cínico em seu rosto entregava sua artimanha, bebericou mais um pouco da cerveja e seu pomo-de-Adão subiu e desceu ferozmente, isso foi o gatilho para Antonella pular em seus braços.
Ela tinha que ser discreta, pois tinha mais gente na casa, foi sorrateira e silenciosa, ficou de frente para o irmão e subiu um pouco a saia antes sentar em seu colo.
— Você tá louca? A mãe tá na cozinha e a Denise no banheiro. Tem gente na casa, porra! — Ele sussurrou com seu habitual jeito turrão. Mas inutilmente, pois, no fundo, ele sabia que não podia dar ordens para Antonella. Se ela quisesse transar naquele exato momento, ele teria que ceder — Te sai!
— Eu estava morrendo de saudades de você! — Ela disse baixinho, seus lábios encontraram os dele e eles trocaram selinhos molhados, Antonella rebolava os quadris enquanto tentava encontrar o membro de seu irmão debaixo da calça caqui. Ele já começava a crescer. A cena durou cinco segundos. Mas foi o suficiente para deixar Rubens louco. Após conseguir o que queria, TomTom saiu de cima dele e sentou-se no sofá ao lado, fingindo normalidade. Eles continuaram a trocar olhares maliciosos durantes toda a noite, sem que as outras duas mulheres na casa percebessem.
Terminado a faxina, a mãe serviu o jantar, foi explicado que Rubens conseguiu uma folga de dois dias por ter feito horas extras na semana passada, Antonella fingiu que estava gostando da presença de Denise (como sempre fazia) e a mãe rasgava elogios para sua nora que ela tanto adorava. Antonella não sentia ciúmes, gostava que a mãe prestasse atenção na imbecil, assim a deixaria em paz sem muito encher o saco. E ela sabia que Rubens só estava com Denise por conveniência, o desejo dele era tão somente da TomTom. Mas como não podia casar com a irmã, resolveu investir em outra pessoa. Rubens era um homem a moda antiga e achava que casamento era uma obrigação moral a ser cumprida.
Foi na penumbra da noite que ele a penetrou. Eram 2:45 da madrugada, Antonella sabia que ele iria aparecer mais cedo ou mais tarde, bastando as outras duas adormecerem. Dito e Feito. Ele apareceu em seu quarto apenas de cueca, TomTom usava a mesma saia, mas agora sem calcinha. Não trocaram palavras, o acordo já estava feito entre eles. Rubens aproximou-se, deitou ao lado da irmã e eles continuaram a transa que mais cedo já tinha se iniciado no sofá. Ele esfregava o membro duro no quadril de Antonella em movimentos de ida e volta, era grande e tinha boa circunferência, uma das mãos foi até a boca dela, e a outra desceu pela saia chegando até seu canal vaginal. Ele fez com os dedos o mesmo que estava fazendo com o membro, rapidamente eles ficaram lubrificados e o movimento foi acelerando. Os dois suspiravam baixinho de prazer. Os dois gemiam em silêncio. Certa feita Antonella tentou tirar a cueca do irmão, mas ele hesitou.
— Não. A gente não pode, é perigoso…
— Deixa disso. Já fizemos isso antes e você sabe como foi bom.
— Na frente é perigoso, você sabe o porquê. E atrás você não quer porque dói.
— Um dia, talvez. Mas agora eu quero na frente!
Isso foi tudo. Ela baixou a cueca dele e logo tratou de ficar embaixo, pois gostava de olhar nos olhos de Rubens enquanto ele a penetrava.
— Tá bom, mas lembre-se de tomar a pílula do dia seguinte. Pelo amor de Deus, TomTom.
— U'hum — Ela concordou, mas não tinha intenção de tomar pílula nenhuma. Ela já estava grávida dele.
A sensação era de que tinha uma cobra enorme embaixo das cobertas, ainda estava gelado e babava muito, quando ele a penetrou todo seu comprimento entrou de uma vez só e Antonella não pode deixar de soltar um grito que foi uma mistura de dor, prazer e exasperação. Rubens imediatamente tratou de tapar a boca da irmã com a mão, pedindo pra ela fazer silêncio. A noiva e a mãe dorminham nos cômodos ao lado. Ele pediu pra ela calar a boca, mas em nenhum momento parou de penetrá-la, o membro gelado aos poucos ganhava temperatura. Já Antonella ardia intensamente muito antes do irmão invadir seu quarto.




6) Antonella me escapa pelas mãos, não consigo agarrá-la e posso dizer que está muito difícil de contar essa história de modo linear. Quero que meu leitor compreenda a natureza peculiar dessa trama, pois se Rubra-Rosa está em algum lugar no futuro, em outra dimensão do cosmos, tudo já aconteceu. Mas foi lá do futuro que ela se deslocou e foi para além do que se entende por matéria biológica observável. Vejo que na escuridão do universo sua presença se faz presente (como também a presença de outras entidades), mas delas nada falarei, pois são tão numerosas quanto as estrelas e eu jamais poderia numerá-las, muito menos elaborar quais seriam suas histórias de vida e morte – são como formigas em um enorme formigueiro – e quantas delas há no universo? Impossível saber. Mas de Rubra-Rosa eu sei. Ela viaja pelo cosmos, como se fosse uma ventania vermelha ardente na direção do planeta terra. Qualquer um que visse aquilo diria que se trata de uma estrela-cadente ou de um cometa que estava por cair. Todas as interpretações estariam corretas, pois a verdade do que há no mundo, tudo e todas as coisas, será aquilo que você quiser que seja. É assim que funciona a força da imaginação, a matéria nasce do pensar e não o contrário. Eu penso e vejo que Antonella adormecia em sua cama inquieta e calorenta, se mexendo muito e gemendo esporadicamente, estava tendo pesadelos. Não consigo dizer quanto tempo se passou desde a última vez que transou com Rubens, mas a barriga de Antonella havia crescido consideravelmente, parecendo uma barriga de gravidez de aproximadamente dois meses, talvez três. Sua mãe já sabia da gravidez, claro, e as duas passaram a brigar muito nas últimas semanas. Clotilde exigia saber quem era o pai da criança e Antonella se recusava com todas as forças dizer-lhe a verdade – era para evitar esse tipo de coisa que queria o aborto, mas agora era tarde – TomTom podia ter inventado qualquer outra história, talvez dizer que foi uma transa casual com algum colega do cursinho, que caiu fora quando descobriu que havia 'pãozinho no forno', mas nem isso ela fez, era arrogante o suficiente para achar que não devia satisfações de sua vida a ninguém. Não diria a verdade para mãe (não tinha coragem para isso), mas também não iria mentir. Respondia aos gritos de sua mãe com outros gritos, que eram tão histéricos quanto, no fim, tudo acabava com a mãe de Antonella chorando e ela própria com lagrimas nos olhos, mas não eram lagrimas de tristeza e sim de raiva por ter se metido nessa situação. Rubens deixou de visitar a casa da mãe assim que soube da gravidez de sua irmã, se afastou aos poucos covardemente, aparecendo cada vez menos. Queria fugir da situação, mas sem saber como. Morria de medo que fosse descoberto a verdade intrínseca que ele tanto repudiava para si próprio. Sua irmã estava grávida e ele era o pai. Não bastando isso, ele estava noivo e Denise era uma boa mulher. Não queria perdê-la. Mas sabia que seria impossível segurá-la caso Antonella resolvesse contar toda a verdade. Ele estava em uma rabuda e não teve coragem de enfrentar o problema de frente, decidiu ignorá-lo na esperança de que tudo se resolveria magicamente, em outras palavras, jogou toda a responsabilidade nas costas de Antonella e esperou que ela fosse resolver como num passe de mágica. É isso que a maioria dos homens fazem
O que ele não sabia é que a irmã até tentou resolver, mas foi proibida de fazê-lo por uma entidade milenar. TomTom até pensou em compartilhar com Rubens o que pretendia fazer, mas decidiu ficar quieta sobre isso também. Era isso que ele ganharia por ser tão bunda mola, indiferença total. Ela até chegou a fazer o chá de cravo que prometia provocar o aborto, mas não tomou uma gota sequer, em vez disso, despejou tudo no feijão que Denise estava preparando naquele dia, o caldo grosso foi-se misturando com a substância rala virando uma coisa só. Antonella não soube dizer se o sabor ficara diferente, mas achou que não, pois nada perceberam, Denise e Clotilde comeram do feijão naquele dia, mas TomTom se recusou, alegando estar engordando, iria evitar comer muito nos próximos dias. Serviu-se apenas de arroz e carne.
Ignoro dias prosaicos, pois não acho importante pontuar aqui as tantas vezes que a mãe tentou arrancar de Antonella o que tanto queria saber, ou o fato de Antonella começar a fazer eventuais chás abortivos e misturar com a água do feijão para que sua mãe e Denise pudessem se lambuzar da mágica poção, enquanto ela própria nem chegava perto por respeito a pomba-gira (o cravo que roubou de Clorcy não durou muito, então ela foi até a feira comprar mais, deixava escondido em sua bolsa para sua mãe não ver), houveram também episódios que Rubens aparecia e tentava tocar no assunto com Antonella para chegarem a algum tipo de acordo sobre o que deveria ser feito, mas Antonella sempre ameaçava fazer um escândalo, falando alto e insinuando que diria tudo a mãe e a Denise caso ele insistisse nessa conversa. Ele sempre desistia e TomTom se divertia com o desespero do irmão, apesar de tudo.
Quero falar especificamente desse dia, pois aconteceu algo importante, era uma noite particularmente longa e quente, ela estava deitada na cama de barriga para cima, suando muito e transitando com muita facilidade entre o sono e o despertar. Teve um pesadelo com Clorcy, estranhamente ela enxergava tudo através de um filtro intenso e vermelho que parecia queimar as paredes, as plantas, os móveis, era como se o próprio ar estivesse se transformando em fogo. Clorcy estava no andar de cima, onde costumava fazer seus vaticínios. Ela parecia gesticular em todas as direções, como se estivesse expulsando algo que Antonella não podia enxergar, a cartomante também dizia coisas, mas Antonella não soube decifrar aquelas palavras. Tudo em volta parecia estranhamente em combustão espontânea. Houve momentos de mais lucidez dentro do sonho e Antonella pôde ouvir algo do que estava sendo dito, mas descontextualizado.
— Saia da minha casa, pomba-gira! Aqui não é lugar para você! — Clorcy gritava com toda a força, parecia assustada e furiosa.
— Você foi quem lhe disse como abortar. Deu a ela a chave do que não fazer. Eu a proibi e você a incitou! — Era Rubra-Rosa quem estava respondendo, mas Antonella também achou que fosse de sua boca que aquelas palavras estavam saindo. Como se ela e a pomba-gira fossem uma só persona.
— Eu não dei nada a ela. Não vendi nenhum cravo. Eu poderia, mas não o fiz, pois sabia que não devia.
— Mas você disse a ela como fazer.
— Uma porra que eu disse. Saia daqui pomba-gira! Aqui não tem lugar para você! O que você sabe fazer eu também faço!
As duas brigavam, mas era uma batalha espiritual que Antonella observava de longe, do alto, às vezes parecia que Clorcy estava gesticulando em sua direção, a expulsando, e às vezes parecia que Clorcy estava louca e falando sobre coisa alguma, pois não tinha mais ninguém naquela sala além dela mesma.
— Foi a mãe dela, preparou o chá e a fez beber sem que ela soubesse que estava bebendo. Por sua causa aquele veneno estava naquela casa e a Antonella bebeu dele, ela expele aquilo na bosta e no mijo como um chafariz — Rubra-Rosa era uma força vermelha que parecia queimar tudo a sua volta. Antonella só percebeu que não se tratava somente de uma batalha espiritual, como também era algo físico, quando escutou lá de fora a voz de um homem gritar de modo ensandecido e excitado:
— FOGO! A CASA DA DONA MACUMBA TÁ PEGANDO FOGO!
Nesse momento o sonho se dissipou como névoa (ou talvez fosse a fumaça do incêndio), e Antonella se viu parada do lado de fora, na rua de Clorcy, onde estava juntando uma quantidade considerável de pessoas que queriam observar o incêndio. Todos olhavam para cima, pois era um sobrado de tamanho considerável, estavam com as bocas abertas, gritando coisas e apontando para cima. Foi quando Antonella escutou o mesmo homem gritar novamente, mas era como se fosse a primeira vez.
— FOGO! A CASA DA DONA MACUMBA TÁ PEGANDO FOGO! — Ele vinha dobrando a esquina correndo rápido e quase tropeçou na calçada. Era um rapaz gordo de aproximadamente 35 anos, nem um pouco atraente — Não fiquem parados aí como se fossem uns idiotas. Alguém chamou os bombeiros, a polícia, ligaram para alguém?
Nesse momento Antonella acordou em sua cama, estava suada e cansada, ofegante como se tivesse corrido uma maratona. O sonho novamente se dissipou como nevoa, mas dessa vez havia acabado de vez. TomTom pensaria naquilo pelos próximos dias e ficaria se perguntando se aquilo tinha realmente acontecido. Teria a casa da cartomante se incendiado daquele jeito? E teria sido obra da pomba-gira? Ela considerou ir novamente até lá para tirar a prova, mas mudou de ideia. Tinha medo de ir até lá descobrir que tinha sido tudo verdade. Mas lembrava-se de uma coisa com clareza e isso, sim, ela iria descobrir se era de fato veridico — "Foi a mãe dela, preparou o chá e a fez beber sem que ela soubesse que estava bebendo" — a pomba-gira tinha dito essas palavras antes de incendiar a casa da dona macumba, se fosse mesmo verdade, Antonella precisava saber, pois tinha medo que a mãe sofresse com a vingança da pomba-gira da mesma forma que a cartomante estava sofrendo.



7) Deu-se que numa manhã fria e melancólica de sábado as coisas ficaram ruins de verdade naquela casa e as relações interpessoais de TomTom jamais voltariam a ser como eram antes. O clima estava pesado e qualquer pessoa que frequentasse aquele ambiente poderia senti-lo no ar. Dona Clô efetuava sua atividade matinal religiosamente da mesma forma que fazia todos os dias, colocava algumas torradas feitas de pão amanhecido no forno e passava um café fresquinho na velha e boa cafeteira. Antonella amava acordar cedo e sentir esse aroma pela casa, sentia-se feliz sempre que essa situação se repetia. Mas naquela manhã em particular ela não conseguia projetar esse sentimento de forma genuína, por alguma razão que não sabia qual estava angustiada e um pouco excitada, mas era uma excitação de êxtase, como quem atinge o nirvana sem nem mesmo saber o porquê; eu sei. Foi naquele dia que Antonella incorporou Rubra-Rosa pela primeira vez. Criou-se uma situação complicada entre ambas que foi escalonando para algo muito maior. Algo perigoso. Se Antonella soubesse do resultado de antemão, jamais teria iniciado aquela conversa, mas TomTom não sabe do futuro. Rubra-Rosa é quem sabe. Rubra-Rosa é Antonella. Mas Antonella, naquele momento, ainda não era Rubra-Rosa.
Ela foi caminhando até a cozinha e avistou sua mãe, que usava sua velha e habitual roupa de dormir, era uma camisola enorme que a cobria da cabeça aos pés, já Antonella estava usando uma blusa tão curta que quase mostrava seus peitos e em baixo somente uma calcinha azul bebê, os cabelos dourados estavam presos em um coque mal feito, sua barriga já estava protuberante o suficiente para ser a parte do seu corpo que mais chama atenção, mas de certa forma era harmoniosa e adequada. Ela parecia uma líder de torcida maltrapilha, mas incrivelmente bela. Ela se acomodou na mesa da cozinha como fazia todos os dias para aguardar o café ficar pronto.
— Bom dia, mamãe.
— Oi, filha — Sua mãe respondeu secamente, falou como se estivesse cuspindo as palavras, ela estava mais concentrada em observar o café fervendo no fogo, pois gostava dele bem quente, sequer fez questão de olhar no rosto da filha.
— O que foi? Algum problema? — Antonella franziu a testa, era uma expressão que denotava dúvida e irritação, sabia que a qualquer momento outra daquelas intermináveis discussões começaria.
— Você ainda pergunta? — a mãe respondeu severamente, mas também pareceu estar extremamente cansada.
— De novo não, mamãe.
— Eu não sou burra, Antonella. Está acontecendo alguma coisa de errado nessa casa e você não está querendo me dizer.
— Sim. Tem alguma coisa acontecendo nessa casa. Claro que tem! Sua filha está grávida como milhares de outras jovens da minha idade também estão. Eu não vejo motivo para tanto drama.
— Ah, jura! — Clotilde levantou a voz, em intensa ironia — Mas quem seria o pai dessa criança, você poderia me dizer? Você não fez esse filho com o seu dedo que eu sei!
TomTom ficou repentinamente furiosa, levantou-se da cadeira e bateu na mesa com as mãos, doeu um pouco, mas ela não ligou — Eu não vou entrar de novo nesse assunto, mas que DROGA! Eu não vou dizer a quem pertencia à porra que me engravidou. Se você não fosse tão obtusa já teria percebido.
A mãe se encolheu um pouco como se tivesse levado um tapa, pareceu confusa e magoada ao mesmo tempo, mas também havia fúria e raiva em seu rosto. Havia sentimentos conflitantes em ambos os lados. Clotilde se virou na direção da pia e continuou seus afazeres, estava apagada e atônita, como se a discussão nunca tivesse acontecido. Um silêncio tortuoso tomou conta da casa. Até que ela própria o quebrou sem hesitar:
— Eu acho que esse filho é do seu irmão, sabe? — Ela não gritou dessa vez, falou baixo como quem conta um segredo — Eu não sou tão obtusa quanto você pensa, eu sempre percebi a forma como ele te olha, a forma como você se comporta perto dele e principalmente a forma como você detesta a Denise sem motivo aparente, mesmo que você tente disfarçar para ela não perceber. TomTom, eu sempre soube que você não a suporta. Morre de ciúmes.
Dessa vez foi Antonella quem recebeu o ''tapa''. Ela não estava mais em posição de ataque e sim de defesa, não iria negar ou mentir diante daquela afirmação que a mãe fizera, mas também não iria confirmar. Não tinha certeza se deveria. Estava confusa e desorientada. Antonella nada respondeu, quem respondeu por ela foi Rubra-Rosa, mas sem que nenhuma das duas percebessem ainda.
— Esse filho é meu! O filho é sempre da mãe, você não sabe?
— Antonella, eu estou falando sério. O que foi que você fez? O que vocês dois fizeram?
— O que você acha que um homem e uma mulher fazem quando estão sozinhos debaixo de um mesmo teto? Você acha mesmo que o Rubens nunca iria tentar nada comigo se durante boa parte da vida dividíamos a mesma cama? Tenha dó Dona Clô — A voz de Antonella ficava mais grave a cada palavra dita, ela as cuspia com imenso desdém — Aquilo não sossega o cacete! E você teve sorte do seu marido ter morrido antes que eu me tornesse uma moça. Ele seria mais um Perna de Calça a provar sabor da minha flor, entendeu?
Nesse momento a mãe de Antonella cruzou correndo a cozinha e estapeou o rosto da filha que se desequilibrou e caiu com força no chão, sua barriga sofreu com o impacto e ela gritou e chorou. Mas a mãe não ligou.
— Você é um demônio! Uma Vagabunda! Como pode dizer uma coisa dessas do seu irmão e do seu próprio pai? — Ela gritava histericamente, parecia uma mulher ensandecida — Seu demônio! Sua serpente!
Nesse momento Antonella passou a fazer movimentos bruscos no chão, ora parecia que ela queria segurar a barriga para estancar a dor, ora parecia que ela queria expulsar algo ou alguém que se aproximava de seu corpo, mas que Dona Clô e nem ela própria podiam enxergar. Ela passou a dizer coisas sem nexo.
— Sai daqui, sai você daí… sai, sai — Ela empurrava o nada com as mãos, em todas as direções, girava a cabeça e até revirava os olhos, seus cabelos caíram pelos ombros e agora estavam soltos e bagunçados, faziam-na parecer uma louca. A mãe nesse momento parou de gritar e começou a prestar atenção no que a filha estava fazendo, não entendeu se aquilo era fingimento ou um surto verdadeiro, mas quando pensou em tocar nos ombros da filha para interromper o que quer que fosse aquilo, Antonella praguejou:
— Não me toca! — O grito foi tão repentino e histérico que a mãe se afastou na mesma hora, estava assustada — Não me toque nunca mais!
— Para com isso, Antonella. Pare já! Sempre que tentamos conversar e esclarecer esse assunto você inventa alguma merda.
— A merda quem inventou foi você. Você pegou a merda e a cozinhou em brasas, fez subir fumaça! E deu para Antonella beber. Pra matar Bebê. Matar o bebê que eu disse que não podia matar!
— Eu… — Ela ponderou, as mãos foram aos lábios, estava confusa, como Antonella poderia saber de uma coisa dessas? E por que estava falando desse jeito esquisito? — Eu precisei fazer isso filha. Como você pretende ter um filho do seu próprio irmão? E se nascer com anomalias? O bebê não tem culpa — Ela dizia em tom de súplica, sua voz estava chorosa — O aborto é a melhor opção e você sabe. Se vocês dois tivessem confessado antes, teríamos resolvido isso antes.
Antonella levantou-se do chão. A expressão em seu rosto era dura e selvagem. Perigosa e animalesca. Seus olhos ardiam de ódio e desejo e ela balançava o corpo como se estivesse dançado tango, mas sem música. Era Rubra-Rosa. Rubra-Rosa finalmente chegou.
— Mas você não me castra, mamãe — A voz de Antonella estava soando bem no fundo da garganta, o som que saia de sua boca era mais grave e ferino que o habitual, era a voz de uma pomba-gira — Antonella não vai fazer esse aborto porque eu não quero!
— Por que está falando assim?
— E se você insistir nessa história, quem vai abortar você sou eu. Eu já queimei aquela velha da macumba, que era uma bruxa poderosa, mas que não era tão forte quanto eu. Acabar contigo vai ser mais fácil ainda.
— Antonella, você enlouqueceu, está louca! — Agora era a mãe quem queria sair daquela conversa. Estava começando a ficar assustada com o comportamento da filha. Começava a pensar que talvez estivesse falando com alguém mais que não fosse somente a pessoa que ela havia parido — Agora você está ameaçando a sua mãe. E o mais terrível é que de todas as barbaridades que você já fez e falou, essa nem foi a pior delas.
— Não me venha com essa merda de novo, se ele ficou comigo é porque me deseja e gosta. Homem gosta de mulher que ele sabe que não domina, que ele não comanda. Ninguém me bota no cabresto!
— Tá falando do Rubens?
— Ele pode casar com aquela imbecil da Denise se ele quiser. Mas é a Antonella que ele deseja e esse filho é a prova desse desejo! De mim esse filho você não tira, de dentro da Antonella você não me arranca!
Nesse momento a pomba-gira soltou uma risada estridente e exageradamente alta, ela girou seu corpo como se estivesse em uma roda de carimbó e foi girando uma saia que não estava ali, mas era como se estivesse. Rubra-Rosa ria, dançava, girava e a mãe de Antonella observava aquilo atônita, sem saber o que fazer ou como reagir.
— Eu poderia matá-la agora mesmo. Mas não irei. Já que meu cavalo ama você e eu sou meu cavalo. Mas você está sendo avisada e escute bem o que vou dizer, se fizeres algum mal a essa criança, em dobro eu farei contigo. Não dê mais nenhum chá de aborto a essa criança e pode ser que eu te perdoe — Rubra-Rosa parou, ponderou e respirou fundo — Eu quero essa criança pra mim. Ela precisa nascer para existir!
Nesse momento ambas estavam frente a frente, a mãe de Antonella mesmo assustada, paralisada, com tudo o que tinha acontecido até então, não pôde deixar de perceber que havia algo de muito errado com sua filha – para além de sua incorporação repentina – pois de suas pernas desciam grossas camadas de sangue que estavam sendo expelidas de sua vagina. Ela parecia não sentir, sequer percebeu o que acontecia. A cor era de um vermelho intenso e muito escuro, cor de vinho fresco, manchou boa parte do chão da cozinha enquanto Rubra-Rosa girava e gargalhava. Tudo isso aconteceu em questão de minutos, Antonella estava enfim abortando seu bebê, que a essa altura já devia estar tomando forma de gente, ou quase, mas isso não o impediu de morrer. A queda recente no chão após o tapa da mãe, cujo impacto provocou-lhe intensa dor na barriga e a recém-chegada de Rubra-Rosa, foi o que sucedeu o gatilho assassino para dar início ao processo de aborto. As dores eram intensas, ela sentia o que pareciam ser contrações de parto. Um ódio intenso lhe subiu a cabeça e ela odiou a mulher que estava bem na sua frente, odiou amargamente — A culpa é toda sua, moça!
— Eu não sei o que está acontecendo… — Clotilde parecia recuar-se para dentro de si própria, nunca estivera tão confusa e retraída — Você tá abortando, filha?
— Sim — Rubra-Rosa respondeu, um sorriso perverso lhe subiu nos lábios — É o que acontece quando uma grávida entra em contato com aquele líquido assassino capaz de matar bebê — Ela andou na direção do fogão — Eu vou lhe mostrar como funciona!
Rubra-Rosa agarrou com as mãos a panela que fervia o café sem se importar com a queimadura e a dor, rapidamente jogou o líquido que borbulhava em fervura todo em cima de Clotilde, que só teve tempo de se encolher um pouco, mas não pôde evitar o ataque iminente, sofreu uma queimadura severa. Gritou de dor e surpresa, tentou correr na direção do chuveiro ainda gritando, a pele queimava tanto que até chegou a criar bolhas pungentes que estouravam logo em seguida. Era Torturante. Enquanto isso, Rubra-Rosa continuou imóvel exatamente onde estava, com as mãos ia estancando o sangue que ainda descia pelas pernas. Lambuzava-se todo dele, como quem toma um banho grotesco e nada higiênico. Rubra-Rosa se lambuzava de sangue da mesma forma que Antonella lambuzava-se de desejo por seu irmão. Eram parecidas em essência.




8) Aproximadamente três semanas se passaram desde a fatídica briga entre mãe e filha. Aquilo significou uma ruptura entre ambas que duraria para sempre, mas nem tudo estava perdido, Clotilde ainda nutria algum afeto por Antonella mesmo que o sentimento não fosse recíproco. Para Rubens, ela disse que a queimadura com café fora somente um acidente doméstico, estava disposta a perdoar a filha, mesmo após tanta dor, tanta agonia e tantos dias repousando no hospital. Ficaria com uma cicatriz de queimadura enorme que passava pelo rosto, pescoço e boa parte de seu braço esquerdo. Mas ela nunca teve lá tanta vaidade, então isso não a chateou tanto quanto deveria. No mais secreto de seu coração, ela sentia-se aliviada, pois Antonella já não estava mais grávida, fruto de uma relação incestuosa e esse pesadelo terminara enfim. Embora, a propria figura de sua filha fosse como um pesadelo vivo e depois daquela cena na cozinha, não pôde evitar de ter medo de Antonella. Não houve uma conversa esclarecedora até então, apenas ficou acordado que o grotesco romance entre irmãos chegaria ao fim. Rubens já não visitava a mãe com tanta frequência e era essa a solução que eles encontraram em conluio, mãe e filho, para mantê-lo longe de Antonella. Clotilde é uma mulher de antigamente e de modo totalmente machista ela assumia que, se tudo aquilo aconteceu, certamente foi porque Antonella o provocou. Já TomTom, iria incorporar Rubra-Rosa outras vezes mais, quando fosse necessário. Naquele dia, por exemplo, houve uma situação que a deixou enojada, sentiu completa repulsa por si própria pelo que havia feito. Quando deu conta de si, estava nua no banheiro de casa, havia sangue por toda parte e metade de sua placenta estava em suas mãos e a outra metade em sua boca, ela a devorava inconscientemente, mastigando cada pedaço. Capturando o próprio sangue com os dedos e lambendo-os grotescamente, estava completamente lambuzada de si própria e ainda queria mais. Não era mais Antonella, era Rubra-Rosa, devorava o filho morto que jamais nasceu. Aqueles eram os resquicios restantes que agora estavam sendo expelidos de seu corpo. Se tivesse nascido já formado, ela o comeria mesmo assim? Achou que sim. Do contrário, por que queria tanto preservar a vida dessa criança? Por amor é que não era. Quando terminou sua refeição, a pomba-gira se levantou e foi pra debaixo do chuveiro tomar uma boa ducha, precisava estar limpa, pois teria um encontro essa noite e não poderia haver o menor indicio do que acabara de fazer quando fosse encontrar com essa pessoa.
Ele não morava muito longe da casa de sua mãe, procurou uma residência de aluguel que fosse boa e barata, duas ruas abaixo de onde Clotilde mora ficava a casa de Rubens e Denise, tão simples quanto a de sua mãe, era o que Rubens podia pagar naquele momento. Eram 2:45 da madrugada e ele não conseguia dormir, sua futura esposa roncava levemente ao lado e não percebeu quando ele se levantou e foi buscar um copo d'água na cozinha. Passou pela sala e espantou-se quando notou que havia uma mulher deitada no sofá. Uma mulher muito bela e muito perigosa. Era Antonella. Estava completamente nua e sedenta de desejo, como sempre, e Rubens nada disse ao avistá-la em sua casa, apenas foi em sua direção como se estivesse sendo seduzido por alguma força superior que ele sequer conseguia entender. Usava apenas uma cueca branca e era nítido que estava tendo uma ereção. Antonella ao avistar aquilo ficou feliz, pois enfim teria seu amante de volta sem se preocupar com a gravidez que tanto havia atrapalhado sua vida nos últimos meses. E Rubra-Rosa ficou mais que contente, pois seu cavalo teria oportunidade de satisfazê-la novamente, mesmo após tantos desmandos.
— Nós precisamos fazer outro — Ela diz para Rubens, enquanto vai abrindo as pernas de modo sedutor como quem o convida para jantar.


9) Encerro aqui este relato e espero que minha prosa tenha sido útil para alguém. O que se encerra é o texto, não a história, pois acredito que estamos ainda na metade do caminho, mas meus dedos doem depois de tanto digitar palavras e minha mente está cansada após expelir para fora tudo isso. Antonella continua, logo mais estaria grávida novamente, o que seria suficiente para fazer enlouquecer a pobre dona Clô, que rezava com todas as forças, durantes os últimos meses, para que estivesse livre de seus problemas, mas tudo se repetiria novamente, pois seu filho Rubens era um homem fraco e cheio de desejo proibido e Antonella, sua filha, era do tipo que mata a mãe para casar com o irmão. Acredito que ela faria isso mesmo. Esse é o mito de Rubra-Rosa. E você poderia me perguntar o porquê de tudo isso ter acontecido ou estar acontecendo (o tempo não sei) e eu te respondo que as coisas são assim mesmo. O que ainda sou capaz de ver é que dado momento a pomba-gira de TomTom voltou a seu habitat natural e estava faminta, após tantos desmandos em outro plano de sua existência. Estava mais vermelha do que nunca, era inteiramente feita de fogo e sangue e se alimentava principalmente de carne fresca. Para ela, gestar seria um problema, mas regurgitar era pior ainda. A gestação vinha antes dos festejos, era a ânsia de ter que tanto a enchia de expectativa, mas para vir a sesta, primeiro tinha que expelir o que havia devorado. Era um processo difícil que a fazia transitar tão facilmente entre dor e prazer. A batucada abafava os gritos de um bebê, que estava sendo carregado por um daqueles que viviam para adorar e exaltar a divindade que ali morava, a criança gritava com toda a força, pois esse era o propósito de sua natureza. Estava sendo servido numa bandeja de ouro. Quando o pegou no colo, ela sentiu a maciez de sua carne, seu cheiro de pura juventude, era o segundo bebê de Antonella – Talvez não fosse o último – o primeiro ela detestou cada segundo enquanto gestava e esse segundo não foi diferente, ela o detestou imediatamente e quando o concebeu, ficou infeliz, pois achou que teria de cuidar dessa pessoa para o resto da vida, Antonella é egoísta o suficiente para achar que só deve cuidar de si própria. Mas não demorou muito e ela voltou a ficar feliz, pois o menino passou a apresentar sintomas de tuberculose e viria a falecer logo depois. E agora ele estava nas mãos dela própria, em outro plano da existência, com outra identidade e vivência. Mas o que está acima e como o que está abaixo. De Antonella saiu, para Rubra-Rosa irá voltar. Ela mordeu com força sua carne, mastigou o pedaço que arrancara e novamente lambuzou-se de sangue. O menino gritava ainda mais alto. Mas Rubra-Rosa não ligou, já havia feito isso antes, primeiro devorava, depois expelia e depois descansava, nessa ordem. Era seu momento de puro prazer. Já o menino, sentia a agonia da dor de parto, pedaço por pedaço, caindo novamente na não existência e indo para lugar nenhum. Quando já não tinha corpo e era puramente consciência, sentia saudades do que ainda não tinha vivido e estava em êxtase de glória como quem iria novamente nascer.