Por Amor - A Saga da Troca dos Bebês


Em 1997 tivemos uma das histórias mais emocionantes da nossa teledramaturgia indo ao ar todos os dias na TV aberta. A novela Por Amor de Manoel Carlos apresentou um enredo complexo que desafiou normas cultas novelísticas quando colocou sua protagonista num posição dupla de caráter e moral, transitando entre bom mocismo e a mais completa falta de ética que uma pessoa poderia alcançar em vida dado as circunstâncias complicadas que essa Helena vivida por Regina Duarte se colocou na tentativa de salvar sua filha de um possível e inevitável sofrimento. Mas vamos por partes. De início, somos apresentados a uma mãe dedicada e completamente apaixonada por sua filha Maria Eduarda (Gabriela Duarte), sendo capaz de fazer qualquer coisa para poupá-la dos infortúnios da vida. A menina desde pequena sempre demonstrou ser muito sensível aos problemas da vida e Helena, numa tentativa de protegê-la, acabou privando Eduarda de enfrentar qualquer tipo de chateação que ela poderia ter sofrido durante sua infância e adolescência. Por consequência disso, Eduarda cresceu insegura e mimada, não suportando ser contrariada e querendo que todos a sua volta fique a mercê de suas vontades. Consciente de que sua primogênita não gozava de boa saudade e que possuía um casamento inconsistente com Marcelo (Fabio Assunção), Helena passou a acreditar que a primeira gestação de Eduarda seria a única alternativa que a filha teria de ser feliz, salvando seu delicado matrimônio de um possível divórcio. Dessa forma, Eduarda poderia fidelizar Marcelo e segurar seu casamento intacto por mais alguns anos.

Porém, devido a sua saúde fragilizada, Eduarda acabou perdendo o bebê.


Algum tempo depois, Eduarda teve a felicidade de conseguir engravidar novamente e agora ela conseguiria seguir com sua gravidez adiante, entretanto, por coincidência do destino, Helena também acabou engravidando na mesma época que sua filha. Embora fique bem claro desde o início que ela não queria esse bebê e que até considerou interromper a gravidez mediante aborto, foi convencida do contrário por Atilio (Antonio Fagundes), que era seu marido e que queria esse filho mais do que qualquer outra coisa nessa vida, pois seu maior sonho sempre foi ser pai.


Chegando o momento de ter os bebês, mãe e filha resolvem internar-se no mesmo dia e no mesmo hospital, para que os bebês pudessem nascer juntos. O parto do filho de Helena foi um sucesso, porém, o útero de Eduarda não contraiu como deveria e ela foi submetida a uma cirurgia complicada, que não fora bem-sucedida, tendo retirado de seu corpo a própria fonte da vida, seu útero. Eduarda jamais poderia engravidar novamente.


Sabendo disso, Helena fica horrorizada, sem nem imaginar que o pior ainda estaria por vir. Assim como sua progenitora, o filho de Eduarda não tinha boa saúde e apresentou um caso de malformação congênita. Faleceu algumas horas após seu nascimento. E em um ato desesperado para proteger sua filha da fatídica angústia que viria a sofrer, Helena decide trocar as crianças, pegaria o bebê morto para si e no lugar dele, deixaria seu filho vivo para Eduarda criar.


Mesmo supostamente sendo a mocinha da história, ao decidir sacrificar-se em favor da felicidade da filha, Helena demonstrou tamanha frieza e crueldade quase roubando o papel da verdadeira vilã, coagindo César a ajudá-la a fazer a troca e o convencendo a manter esse segredo entre eles dois. Não apenas fazendo Eduarda viver essa mentira (criando o irmão como se fosse seu filho) mas também impedindo que o verdadeiro pai tivesse em seus braços seu primogênito. Atílio passou a acreditar que o bebê que morreu naquela noite era seu filho, mas isso, claro, não passava de uma mentira de Helena.


Com a falsa morte de seu filho, situação pautada por uma mentira, Helena vê seu casamento começar a balançar, se vendo obrigada a viver esse luto por uma morte que nunca aconteceu, além de ter que ver Atílio sentindo verdadeiramente a dor pela morte de seu filho (dor essa causada por sua máxima culpa). E algo mais que fugiu de seu controle e que não imaginara até então que fosse acontecer, seu instinto maternal começou a falar mais alto e ela passou a sentir uma necessidade enorme de tentar proteger e amamentar seu bebê, esse que agora estava nos braços de Eduarda.


Necessitando desabafar com alguém, pois estava impossível guardar esse segredo sozinha, Helena decide abrir-se com sua irmã Virgínia (Ângela Vieira), pessoa que julgava ser de extrema confiança e que talvez poderia ajudá-la a enfrentar essa situação de alguma forma, fosse como fosse. Porém, para sua surpresa, Virgínia fica completamente horrorizada ao saber o que Helena tinha feito e mesmo tendo prometido guardar segredo e ficar ao lado da irmã para o que desse e viesse, automaticamente essas palavras já não valiam de mais nada, pois o horror do crime cometido por Helena superava qualquer uma dessas coisas. Restando apenas a opção de tentar fazê-la acordar desse surto psicótico, Virgina decide dar uma bela surra na irmã, além de apontar inúmeros argumentos que demonstram a imensidão do erro cometido. Embora Helena estivesse irredutível em sua decisão de não contar a ninguém o que tinha feito.


Percebendo que trocar os bebês foi obviamente uma péssima ideia, Helena se vê num fogo cruzado, pois sua filha não é tão responsável com o menino como deveria. Angustiada, perturbada e com medo, ela decida então escrever sobre a troca dos bebês em seu diário, pois não suportava mais guardar esse segredo em seu coração. Mas com esse segredo eternizado nas páginas do caderno, ela teria de ter um enorme cuidado, pois ninguém, nunca, jamais poderia ler o que lá estava escrito. Deu-se, porém, que, percebendo haver algo de muito grave acontecendo a sua volta, Atilio passa a desconfiar que sua esposa lhe esconde um segredo terrível. Após muita insistência de sua parte e a mais completa recusa de Helena em lhe contar o que estava acontecendo, Atilio decide dar um fim ao casamento. Essa foi a primeira grande consequência da troca dos bebês. 


Em breve, teremos a parte 2 com o desfecho dessa história.