Estado Crônico e Oceânico das Coisas

Sob as labaredas escaldantes que chamuscavam as últimas lascas da madeira úmida — que tardava a queimar devido a baixa temperatura da atmosfera inundando tudo com imenso azul oceânico — havia também a intenção depositada no fogo que cumpria seu papel essencial de purificar o que antes estava vazio de carga energética. À sua volta as trevas tomavam para si os últimos escarlates do dia e sob o horizonte uma neblina melancólica fez com que sua única fonte de calor fosse a fogueira que agora era diminuta proferindo o fim da matéria orgânica que a alimentava. O sol recolheu-se em si próprio anunciando a chegada da noite. Sua lamúria mais significante naquele momento era a iminência de seu apagamento histórico através da própria memória, porventura estivera nos últimos dias perdendo por completo sua noção de tempo, espaço e profundidade, trocava o dia pela noite com imensa facilidade e confundia com frequência a luz com as trevas. Já não tinha mais senso moral para distinguir o dia que se chama de bom e a noite que de modo intrinseco vai-se esvaindo o clarão da luz submergindo em trevas e silêncio; deu-se que o silêncio da noite lhe apetecia mais do que o calor humano que o dia costumava carregar consigo. Inumano e solitário que é, preferia estar cheio tão somente de si, mesmo que na escuridão. Isso foi há milênios. Agora, já não sabe mais distinguir a hora da vigília e a hora da sesta. Ambos para ele representam momentos de glória.

Um ribombo ensurdecedor o tirou de seu processo meditativo; que, por ora, o permitia imersão em sono profundo. Assustou-se quando, repentinamente, a matéria se fez presente e o fez lembrar-se que ambos existem no mundo. O que avistou do lado de cá foi uma gigantesca criatura que caminhava a passos largos acima de sua cabeça, suas patas criavam pegadas gigantes no solo, esmagando plantas e talvez até alguns animais desavisados (ele próprio teria sido esmagado não fosse pelo fato da criatura repelir-se de pavor pela fogueira à sua frente). A pegada seguinte foi um pouco mais a frente e o que ele observou foi sua aparência repulsiva e abissal. Tinha um casco duro de cor cinza-escuro, com imensos furúnculos pontiagudos e de sua pele expelia uma espécie de necrochorume salgado, de cor verde musgo, que inundou boa parte da vegetação. Imaginou brevemente que naquela região não nasceriam novas plantas devido ao envenenamento por sal ser extremamente prejudicial ao solo.

— ''Criatura oceânica não foi feita para pisar na terra!'' — Gritou a plenos pulmões na direção do monstro que continuou a caminhar indiferente
à sua indignação.

Quando olhou para cima a única coisa que viu foram quatro patas obscenas, gigantescas, e o que deveria ser o corpo da criatura era tão somente a névoa que criava uma espécie de cortina de fumaça que o impedia de avistá-la a olho nu, perdiam-se nas nuvens; teve curiosidade de saber qual seria sua aparência e lamentou por constatar que esse era um desejo que por ora não lhe seria concedido. Então imaginou. Imaginou que se tratava de uma imensa matéria biológica, marinha, selvagem e cruel, que estava caminhando perdida pela terra a procura do oceano.

— ''Ambos estamos perdidos'' —dessa vez falou como um sussurro — ''A diferença entre nós é que tu estás indo para o lado errado.''

Ainda era capaz de ouvir as constantes vibrações provocadas na terra a cada passo dado, mas resolveu ignorar por completo a presença do monstro que a essa altura já estava longe de sua visão. Constatou — e isso já era coisa sabida — que o maior infortúnio seria perder um período inteiro e sagrado de sono, seu descanso era êxtase e tinha no ato de dormir um alento para sua constante melancolia que agia em sua mente como se fosse parafilia incurada, que o engoliria por completo não fosse por seus constantes esforços em expurgar nem que fosse um pouco dela. Recolheu-se em seu cobertor feito de pele de cabra (ou seria pele de ovelha?) e finalmente teve um aumento de temperatura corporal que era quase como um abraço de mãe. Sentiu-se criança novamente e deixou-se ser tomado por imensa felicidade nostálgica. Despejou seu cansaço todo na mente, que, agora pesada, desejava tão somente cair na inconsciência obscura que era seu estado de vigília. Era quase como não-existir. Era onde habitava seu regozijo mais profundo. Adormeceu. Não houve novidade em seus sonhos, todos seguiam a mesma lógica de períodos passados, eram viagens intensas em planetas hostis que desconheciam sua natureza consciente, onde criaturas — ainda maiores que aquela avistada a poucos minutos — tentavam comer de sua carne. O rasgar em mil pedaços. Alimentar-se dele. Mas jamais conseguiam, pois ele sempre escapava com vida. Mas houve uma delas, porém, que em um sonho um pouco mais intenso que os demais, conseguiu dar-lhe uma pequena mordiscada, arrancando um pedaço de sua orelha esquerda. Essa mesma criatura morreu envenenada algumas horas depois. Ele, triunfante e excitado, ainda se lembra de dizer-lhe em sonho — ''Se quiseres morder de minha outra orelha, ofereço-te ela em sacrifício. Mas tu não suportarias digerir esse outro pedaço de mim. Regurgitaria-a.'' Sentia-se então poderoso por ser repulsivo aos antagonistas de seus pesadelos. Que fugissem dele. E mesmo que se por instinto tentassem atacá-lo, que a natureza deles fosse exclusivamente matar para comer. E que a dele fosse estar defronte à morte e oferecer-lhe um pedaço de si próprio só para que tivesse o prazer de encará-la nos olhos e logo após sair de sua presença como se nada fosse.

Acordou quatro horas depois. Era o nascer do sol. Sentia agora mais frio do que sentia quando foi dormir, mas estava aliviado pois, reconhecendo o ciclo natural da vida, sabia que em pouco tempo a atmosfera seria novamente aquecida pela luz solar assim como acontecia em todas as manhãs. Recolheu do chão suas poucas coisas, que de tão poucas era capaz de carregá-las em seu próprio corpo sem o auxílio de qualquer bolsa. Estava nu e uma ereção fez seu membro ficar apontado para cima como se fosse uma seta sinaleira, estava duro como pedra, mas ele não ligou, ignorava esse tipo de necessidade biológica, pois ele próprio já não se sentia criatura biológica. Usou o cobertor feito de pele para cobrir-se e em seu corpo ficava parecendo uma espécie de vestido longo, com abas abertas nos lados para passar os braços, seus cabelos cacheados caíam até abaixo dos ombros e sua barba por fazer estava longa o suficiente para fazer cócegas no peito. Era um andarilho atemporal e quem o olhasse com olhos de humanidade acharia que esse rapaz jamais tivera uma mãe para dar-lhe um banho dos pés a cabeça. Mas foi de leite materno que ele se alimentou até tornar-se homem feito. E ele era todo feito de coragem e solidão em seus quase dois metros de altura. Conforme elucidou anteriormente, a criatura oceânica estava caminhando na direção errada e ele seguiu caminhada contrário a ela, desaparecendo rapidamente na vegetação densa da selva sentindo-se satisfeito por já estar muito próximo de seu destino final. Podia ouvir como um sussurro grave o imenso oceano quebrando-se repetidas vezes em gigantescas ondas e refazendo-se logo depois. Oceano é a imortalidade em mundo material. O que ele estivera buscando era o segredo da eternidade que em infinitas camadas se fazia presente na quarta dimensão e somente águas profundas e gélidas do mar poderia dar-lhe essa resposta. Mas primeiro ele teria de arrancá-la a força, pois certamente ela não viria a seu encontro voluntariamente; acontece que os segredos da terra lhe foram oferecidos de modo quase hereditário, nasceu criatura biológica e sua psique é a de um eremita com capacidades alquímicas, alguns conhecidos seus o denominava "bruxo". E foi com um feitiço ancestral que descobriu os segredos da mãe terra. Isso inclui o oxigênio que a todo momento estivera adentrando convidativo em seus pulmões, o dando sopro de vida, mantendo-o consciente por tempo indeterminado. É algo muito próximo da imortalidade. Ele é capaz de dominar o fogo, como os homens das cavernas o "descobriu" esfregando duas pedrinhas sob lascas secas de madeira; o fogo comporta em seu coração uma chama que não se apagará enquanto ele estivesse vivo. Mas a água para ele ainda é mistério. Água que configura boa parte dele próprio.

— ''Sou feito de água, mas vivo na terra. Sou água, mas tenho que respirar o ar. Desejo e sinto sede de inundar-me por completo no oceano, mas o frio me faz sofrer., retraio-me tremulo em minhas próprias entranhas. Preciso mesmo é da quentura do fogo.''

Não entendia jamais o porquê do oceano o rejeitar com tanta veemência, se ele próprio era fascinado pelo infinito idealizado das águas ancestrais que já estavam na terra antes da terra existir. Se ele próprio sempre existiu, ele próprio é água que de tão eterna não aceita jamais a rejeição de sua própria natureza. Estava caminhando de volta pra sua verdadeira morada. Onde não existia dia ou noite, o oceano sempre está em estado meditativo inconsciente e epifânico êxtase abissal e jurássico. Mergulhar no oceano é uma queda livre na direção do escuro, do vazio, ele próprio seria minúscula criatura sendo comprimida pela pressão externa das aguas até quase virar poeira cósmica. E quando isso acontecer o que será dele enquanto indivíduo centenário que de tanto acumular sabedoria passou a ser capaz de comunicar-se com o próprio eterno? O eterno está lhe convidando para adentrar na escuridão que é a inconsciência pragmática universal. Toda criatura viva na terra (que não fosse marinha) já provou da água de mar e constatou de modo repulsivo que não se toma água salgada como se fosse doce; 

— ''Água salgada nas minhas feridas as farão arder que só o diabo...''

Foi um arrebatamento inusitado que quebrou sua breve reflexão (que só deve estar fazendo sentido para ele próprio, confesso), uma criatura da terra cruzou seu caminho interrompendo o que deveria ter sido o fim da sua jornada em solo terrestre, era uma aranha negra de doze patas, quase do seu tamanho, que em ameaçadora posição ergueu para o alto as patas dianteiras prometendo atacá-lo a qualquer momento. Teve tempo de preparar-se para o ataque e apontou as mãos para frente pronto para usar um pouco de sua magia, mas logo percebeu que atrás dela havia diversos ovos espalhados pelo chão, gosmentos e brilhantes sob o sol, cinzas feito nuvem em dia de sol, constatou que a aranha era uma mãe intencionando defender seus filhotes ainda não nascidos de um possível predador. Decidiu não machucá-la, por misericórdia, mas também não podia ser deixado atacar pois o veneno do aracnídeo certamente o faria sofrer por várias horas antes de matá-lo. Precisava agir rápido, pois ela já havia preparado uma parcela de seu veneno e ele avistou o liquido amarelo flamejante indo em sua direção. O que ele fez foi pegar do sol um pouco de seu calor (que agora estava em toda à sua volta, ele podia sentir) e criou um escudo de cor escarlate que estancou parte do ataque fazendo com que o veneno fosse expelido para todos os lados, mas não o atingindo. O campo de força era de um bilho tão forte capaz de cegar uma pessoa e quente o suficiente para provocar queimaduras severas em pele humana, mas ele não sofreria com esses efeitos colaterais pois era imune a sua própria magia. A aranha recuou, seus diversos olhos de tonalidade vermelho-vinho olhavam em todas as direções, pareciam querer entender quem ou o que era seu adversário, mas sem sucesso. Percebendo que o veneno não funcionou, o passo seguinte foi tentar golpeá-lo com suas enormes patas dianteiras, repulsivas e peludas, que eram pontiagudas o suficiente para empalar uma pessoa viva, mas ele rapidamente invocou as forças da terra para jogar duas pedras grandes em cada uma delas, acertou a primeira, mas errou a segunda. A pata da aranha atingiu o chão bem próximo de seu pé esquerdo, abrindo uma fenda profunda na terra, ele se desequilibrou e caiu, isso o desconcentrou momentaneamente o deixando fragilizado. A aranha preparou outro de seus ataques, dessa vez soltando de sua enorme bunda vários de seus pelos que eram cortantes e venenosos, serviam principalmente para machucar e atordoar suas presas. Ventos do norte sopraram em uníssono obedecendo a ordem do mago e foram na direção da aranha como um forte vendaval expurgando para longe todos os folículos venenos. Ele não queria lutar, queria apenas sair para longe daquele conflito e de suas mãos faiscaram pequeninas brasas de fogo que misturadas com a terra criavam um forte e eficaz sistema de defesa, abriu a palma das mãos na direção da aranha e num pequeno impulso fez com que as brasas de fogo e terra a queimassem levemente a fazendo recuar.

— ''Não vai desistir porque é 'mãe' e acha que quero fazer mal a seus filhotes.''

Constatou isso acreditando que a melhor estratégia seria fugir. Novamente invocou os ventos do norte (ventos do leste, sul e oeste possuiam outras funções), mas dessa vez eles vieram debaixo de seus pés, sopraram tão forte que o fez sair voando por cima da aranha a deixando para trás levemente machucada e atordoada, mas em paz com seus filhotes. Do alto das árvores voando em alta velocidade, ele avistou o oceano que até então estivera escondido no horizonte, um sorriso feroz nasceu em seus lábios carnudos; poderia simplesmente ir voando até lá, mas preferia fazer sua caminhada de modo orgânico por julgar que assim seria mais digno. Achava que assim o oceano o respeitaria um pouco mais. Desceu pesadamente quando foi diminuindo aos poucos a quantidade de ar à sua volta e novamente tinha em seus pés o solo e a terra, a sua volta ainda era a selva hostil e selvagem o ameaçando de todas as forças possíveis por estar repleta de criaturas selvagens, mas já tinha chegado em seu final (ou ele estaria agora em seu início? Nunca se sabe quando floresta começa ou termina) e 
à sua frente estava o oceano. Provocando-o com sua imensidão e ao mesmo tempo o convidando para entrar.

Estava nu e descalço. Entrou no oceano caminhando sem muita pressa e quando não foi mais possível caminhar, apenas mergulhou e nadou seguindo o fluxo contrário da correnteza, sentiu em sua pele o gélido abraço do oceano e com imenso arrepio percebeu que não voltaria tão cedo a pisar em terra firme, pois o caminho a seguir delimitaria sua própria mortalidade, mesmo que viva mais alguns milênios, não seria capaz de romper as barreiras que ditavam o final de águas abissais. É nesse momento que o perco de vista e assumo aqui sem culpa ou vergonha que não sou capaz de descrevê-lo em palavras sendo ele próprio criatura abstrata nadando na direção do próprio infinito. Estou olhando na direção do mar a sua procura e não o encontro, o que devo fazer eu sendo o autor dessa obra e ao mesmo tempo incapaz de escrevê-la? Aceito com orgulho que estou construindo coisa complexa o suficiente para sequer ser mencionada. Pense na possibilidade de encontrar um grão específico de areia na praia e conclua que tal atividade é impossível sendo os grãos de areia rejeitados pela própria individualidade, não existem sozinhos, estão sempre juntos e é juntos que eles formam uma infinidade de coisas. Meu personagem é agora cada gota de água em imenso oceano, é matéria biológica que não se acha ou se reconhece quando está perdida na imensidão da própria matéria. Poderia eu pescá-lo? Não tenho tal pretensão, pois alçar meu anzol e tirá-lo de sua jornada seria dar um fim a sua missão de vida e isso não farei jamais. Mas devo a ti, leitor, algumas explicações pois se iniciei essa prosa é meu dever terminá-la; acho fantástico quando enormes tempestades atingem as águas do oceano, é quando tornados descem do céu em formato de espirais e atingem a margem criando gigantescas trombas d'água, fico em êxtase de excitação. Outra coisa fantástica é saber que existem abismos e montanhas que jamais serão avistadas pelo homem por estarem encobertos pelo próprio oceano e saber que a luz do dia jamais chegou a esses lugares. Imagine o mais completo breu, mais escuro que a própria noite e pense se é possível lugar assim comportar vida. Sempre tive a nítida sensação de que o oceano é uma entidade viva e posso escutar sua voz quando ondas se quebram na praia, ele grita e me diz com imensa impotência algo que não sou capaz de traduzir. Quero que meu personagem desenvolva essa habilidade e generosamente a compartilhe comigo. Assim como eu estou compartilhando contigo pequenas divagações daquilo que penso e sei; recentemente soube de uma notícia que me encabulou, alguns homens resolveram embarcar numa aventura irresponsável que seria mergulhar no mais profundo desse abismo por pura curiosidade mordida e a certo ponto foram todos esmagados pela pressão da atmosfera marinha. Tamanha é a sua generosidade tornando tudo que é matéria como parte de seu próprio corpo. Onde estarão eles agora? Não faço ideia. Assim como não tenho qualquer informação de meu personagem e o deixo escapar livremente de minhas mãos que é para ver se ele descobre coisa nova que nem eu mesmo sou capaz de saber. Olhando copiosamente na direção do oceano pacífico não o encontrei, mas avistei alguns pescadores, que de tão ousados enfiaram-se em mar aberto numa embarcação de madeira nada segura na tentativa de faturar alguns peixes, eles querem lucrar um pouco que é para garantir o sustento de suas famílias. Fosse no oceano atlântico seriam engolidos pela braveza das águas que são mais violentas e arrebatadoras. É quando a voz do oceano se faz mais presente e assusta-me profundamente, mas por ela tenho fascínio. Há algumas coisas que me deixam deprimido e melancólico, talvez fosse o tipo de informação que gostaria de sequer ter acesso, sei de um peixe nascido no ártico que vive centenas de anos, mas que é vida solitária e gelada, ele não pode emergir na superfície porque as camadas de gelo o impedem de ver a luz do dia, tudo o que faz em vida é nadar solitário no escuro de um abismo infinito, nadando de forma cega e linear até atingir as paredes de gelo que são barreiras naturais do tempo, isso faz com que ele instintivamente tenha que recalcular a rota. Penso que se ele tivesse consciência de que está vivo, amaldiçoaria a plenos "pulmões" seu criador. Pois o mundo que ele tem acesso é a sua própria prisão e nem a morte seria capaz de libertá-lo, pois ela só chegará quando for tarde demais para dar-lhe algum alívio. Desvio dele meu olhar por não suportar sua dor. Prefiro talvez pensar pelo lado bom da coisa que é saber um pouco sobre teoria da evolução, ela diz que: peixe curioso, cansado de viver em atmosfera marinha, um dia resolveu locomover-se em direção a terra firme e milagrosamente desenvolveu pernas para poder andar, pulmões para respirar e uma cabeça para pensar. Imagino que foi nesse momento que nasceu o que hoje chamo de consciência. Peixe já não era mais peixe, peixe agora é homem que sonha em ser peixe e ele caminha na direção do oceano que é para ver se consegue atingir tal metamorfose; é engraçado pensar que a existência desconhece passado, presente e futuro. 

Tudo acontece exatamente na hora que está acontecendo. Meu personagem é uma coisa nova, ele quer transformar-se em peixe, mas continuando a ser homem, assim saberia dos segredos intrínsecos ao oceano, mas sendo criatura consciente da própria existência. Criei um mago excêntrico que gosta de fazer magia trabalhando com a impossibilidade das coisas. Parabéns para mim. Mas agora sinto-me um pouco inútil pois o perdi de vista e não sei qual será o resultado desse meu experimento. Eu poderia simplesmente inventar uma resposta, mas não gosto de ser inventivo ao ponto de criar coisa sem significado, eu quero mesmo é a verdade dentro da fantasia. Ela que me faz alucinar quando estou sonhando acordado; em meu sonho vejo-o em sucessivas tentativas de ascender suas próprias possibilidades, houve ocasiões em que lutou contra tubarões, teve momentos que ficou completamente perdido no escuro e também chegou a pescar com as próprias mãos alguns peixes que é para matar um pouco de sua fome, mas na maioria das vezes o que sentiu mesmo foi a pressão das águas ameaçando-o esmagar suas entranhas até quase fazê-lo virar farelo. Por vezes, sentia vontade de pisar em terra firme e virar homem biológico novamente, isso seria o mesmo que recalcular a rota. Ora, ele próprio se tornou tudo o que há e o que é no oceano. Infinitas são as possibilidades e por isso o perco de vista na mesma proporção que o encontro e o descrevo para ti; estou mesmo é explicando que agora abstrato e infinito inexistente indivíduo consciente tornou-se nova criatura fragmentária. Poeira cósmica molhada. Pocósmida. Esse é o seu nome; em algum momento, apócrifos evangélicos serão escritos por ele, porém, jamais viriam a ser publicados. Ficarão perdidos no tempo tal qual ele próprio. Um raro conhecimento elemental que de tão profundo poucos conseguiriam compreender. Ele próprio só foi capaz de absorvê-lo quando experienciou o eterno em matéria finita que é o oceano, mas é certo que isso lhe custou sua humanidade enquanto criatura biológica transmutando para coisa nova e oceânica, mas não é estado crônico. 

Quanto a mim, vivo como homem em tédio constante por não ser capaz de conhecer de perto o extraordinário da vida. Serei limitado e medíocre enquanto a métrica de comparação for esse outro mundo que te escrevo com imenso prazer.

E agora, deixando pocósmida de lado, tenho outra história para contar-lhe, uma prosa simples sobre um homem que tinha o dom de comunicar-se com as flores. E foi conversando com as madressilvas que descobriu nelas seu grande amor; apaixonou-se por todas elas. Seu maior sonho era, um dia quem sabe, ser pai de menina graciosa que tivesse o cheiro das madressilvas, quando ele próprio tinha cheiro de homem turrão com poucos hábitos de higiene, certamente iria amar sua filha, mas ela o rejeitaria.

Eu, que só sei escrever flertando com a melancolia trágica da vida.