Juramento de Sangue ​ — Episódio 1: "O Peso do Jaleco" (Ano: 1999) ​

Por Pauloncé

O episódio abre com o som de um rádio antigo sintonizado em uma notícia sobre o "Bug do Milênio". Estamos na periferia. O contraste é imediato: o suor do trabalho braçal contra o brilho estéril da elite médica.

1. A Boa Nova e o Altar

​Conhecemos José, gari, varrendo as ruas sob um sol escaldante, e Graça, preparando marmitas. Em casa, o clima é de festa contida e muita fé. Gabriel (20 anos) entra trêmulo com um envelope: ele ganhou uma bolsa integral em Medicina em uma prestigiada Universidade de Elite.

​A Cena: Na igreja, o Pastor David pede uma salva de palmas para Gabriel. Pedro (15) olha o irmão com admiração, enquanto Ana (17) parece preocupada com o que está por vir.

Cenário: Interior da igreja, após o culto. O Pastor David segura as mãos de Gabriel.

​PASTOR DAVID

Igreja, olhem para este jovem. O mundo diria que as portas estariam fechadas para ele, mas a oração de um pai trabalhador e de uma mãe de fé move montanhas! Gabriel, você vai entrar naquela faculdade para ser luz.

GABRIEL

(Emocionado, mas contido)

Eu só quero honrar o sacrifício deles, Pastor. O senhor sabe o quanto o meu pai suou naquela rua para eu poder estudar.

JOSÉ

(Com os olhos marejados)

Deus não dá fardo maior do que a gente pode carregar, meu filho. Se Ele abriu essa porta, Ele vai te dar força para atravessar o corredor.

2. O Primeiro Contato (O Choque de Mundos)



​Cenário: Pátio da Universidade. Fernando está encostado em seu carro, rindo com o grupo. Gabriel passa carregando uma pilha de livros usados.

FERNANDO

(Aumentando o tom de voz para ser ouvido)

Cuidado aí, pessoal! Parece que o caminhão de reciclagem deixou cair uma encomenda no meio do pátio.

ISABELA

(Olhando Gabriel com desdém)

Fernando, não exagera. Ele só parece... perdido. Deve ser o novo funcionário da copa.

GABRIEL

(Para, ajusta os óculos e olha para Fernando)

Eu não estou perdido. Sou aluno da turma 104. Medicina.

FERNANDO

(Dando uma risada sarcástica)

Medicina? Na minha turma? (Ele se aproxima, invadindo o espaço de Gabriel) Escuta aqui, "colega". O jaleco branco esconde muita coisa, mas não esconde a origem. Aproveita o passeio, porque o filtro aqui é de alta pressão.

3. A Sala de Aula e o Professor Algoz

​Cenário: Anfiteatro da faculdade. O Professor César Augusto termina de desenhar um esquema no quadro.

​PROF. CÉSAR AUGUSTO

Alguém aqui sabe me dizer qual é a primeira complicação de uma acidose metabólica não compensada?

FERNANDO

(Confiante, sem levantar a mão)

Choque circulatório e falência renal, professor. Óbvio.

GABRIEL

(Levanta a mão discretamente e completa)

Na verdade, antes disso, ocorre a hiperventilação compensatória, o chamado ritmo de Kussmaul, tentando expelir o CO_2. Se não houver intervenção na causa base, aí sim evoluímos para o quadro que o colega citou.

​PROF. CÉSAR AUGUSTO

(Surpreso)

Correto... Gabriel, não é? Pelo menos alguém veio para a aula tendo lido o Guyton, e não apenas o extrato bancário do pai.

​(Fernando aperta a caneta até quase quebrá-la, olhando fixamente para a nuca de Gabriel).

4. Um Raio de Luz e a Sombra que Cresce


​Cenário: Banheiro da faculdade. Gabriel está tentando limpar seus livros sujos de formol enquanto Luís Miguel entra.

​LUÍS MIGUEL

Cara, que sacanagem o que fizeram no seu armário. O Fernando é um idiota, ele não aceita que alguém seja melhor que ele. Toma aqui, usa esse papel toalha com álcool, ajuda a tirar o cheiro.

GABRIEL

(Limpando o livro com uma calma assustadora)

Obrigado, Luís. É gentil da sua parte. O Fernando acha que o cheiro do formol é o problema... mas o cheiro da arrogância dele é muito pior.

​LUÍS MIGUEL

(Meio sem jeito)

É... ele é assim mesmo. Mas não deixa ele te desanimar.

GABRIEL

(Dá um sorriso gélido, olhando para seu reflexo no espelho)

Desanimar? Pelo contrário, Luís. Ele acabou de me dar um motivo a mais para eu nunca faltar a uma aula. Eu quero estar na primeira fila para ver a cara dele quando eu receber o meu diploma.

5. O Jantar dos Barros


​Cenário: Sala de jantar luxuosa da mansão Barros. Afonso e Marisa estão à cabeceira.

​AFONSO BARROS

Eu ouvi dizer que um bolsista te corrigiu na frente do César Augusto hoje, Fernando. Isso é verdade?

FERNANDO

(Irritado, batendo o garfo no prato)

Ele é um rato de biblioteca, pai. Não tem vida, só estuda. É um coitado que o senhor não acreditaria se visse.

​MARISA BARROS

Essas pessoas são perigosas, meu filho. Eles têm fome de espaço. Não deixe esse rapaz crescer nos seus ombros.

​AFONSO BARROS

Eu não pago essa mensalidade para você ser "segundo lugar" de ninguém, muito menos de um zé-ninguém. Resolva isso. Mostre a ele que a medicina é uma casta, e ele não faz parte dela.

Continua...