Confesso que, por muito tempo, também pensei assim. Na adolescência, vivia imersa nas ciências naturais, encantada com a beleza das reações químicas e com a harmonia das funções anatômicas. A realidade me parecia inteiramente redutível à matéria, e o método científico suficiente para explicá-la. Já na vida adulta, mantive essa posição, persuadida de que toda ideia que escapasse à verificação empírica era suspeita, quase uma intrusa ilegítima no domínio da razão.
Minha visão começou a ruir quando passei a ler os filósofos gregos. Não supunha que aquelas páginas antigas abalariam de modo tão profundo minhas certezas. Descobri que as ciências naturais repousam sobre fundamentos que elas próprias são incapazes de demonstrar. Nenhum experimento comprova os axiomas de identidade, de não contradição ou do terceiro excluído. Eles precedem toda medição e sustentam a física, a química e a biologia sobre o solo metafísico do ser enquanto ser.
Para tornar isso mais claro, consideremos um experimento de Reação em Cadeia da Polimerase (PCR). Toda a técnica de ciclos de aquecimento e resfriamento depende de postulados prévios à instrumentação. No anelamento, o pesquisador assume o princípio da identidade (A = A), ao supor que o primer específico se ligará exatamente à sequência-alvo correspondente. Na etapa final de detecção, evidencia-se o terceiro excluído (A∨ ¬A), pois o DNA foi amplificado ou não — não há possibilidade intermediária.
Essa anterioridade racional também se reflete no campo matemático. Se todo conhecimento válido se limitasse à experiência sensível, como reconheceríamos a existência do número quatro? Desenhá-lo ou exibir quatro objetos seriam apenas representações. A proposição 2 + 2 = 4 é válida não por observação, mas por necessidade lógica. A matemática lida com abstrações, e suas operações assentam-se em princípios que independem de qualquer aplicação prática, pois a intelecção precede o resultado.
O polímata G. W. Leibniz partiu da mesma primazia do ser ao conceber o raciocínio como via de acesso à razão que estrutura o real. Pensar, para ele, era atravessar as aparências e apreender o núcleo ontológico que confere unidade às coisas. Dessa mesma interioridade nasceram tanto o cálculo diferencial e integral quanto uma concepção que mais tarde inspiraria a informática e a inteligência artificial.
A matéria é o meio pelo qual a operação ocorre, mas a funcionalidade do sistema depende da forma segundo a qual ela é organizada. Um computador opera porque a matéria foi estruturada por uma inteligência de modo conforme a princípios racionais, que a lógica descreve formalmente, mas não causa. Quando essa complementaridade é ignorada, instala-se uma mentalidade tecnicista que confunde mapa com território, absolutiza o método e esquece que ele só funciona porque o ser é inteligível.
Há quem confunda essa profundidade do pensamento com presunção, transformando a renúncia ao esforço racional em um simulacro de modéstia. Se reconhecer a própria ignorância é a virtude socrática por excelência, converter esse reconhecimento em fuga é mera complacência do ego. O anseio pelo saber nasce da inquietação diante do desconhecido e da dúvida orientada à compreensão; refugiar-se em condicionantes materiais para evitar a reflexão é reducionismo disfarçado de humildade intelectual.
Vivemos uma época que se considera lúcida por medir o que vê, confundindo compreensão com quantificação e tratando a inação intelectiva como indício de sapiência. Na tentativa de superar a ignorância das eras passadas, erguemos uma religião materialista que se declara livre de crenças, mas esconde os próprios atos de fé que a sustentam. Reduzindo a realidade a processos meramente materiais, tornamos o homem um órfão de si mesmo, incapaz de discernir além do alcance de seu microscópio míope.
