O livro 'Time To Think' (2023), de Hannah Barnes, realiza uma análise detalhada do serviço de referência global no tratamento da disforia de gênero. Barnes explora como uma combinação de pressões sociais, ideológicas e profissionais levou ao colapso desse serviço, levantando questões cruciais sobre ética médica, bem-estar infantil e a politização da ciência na contemporaneidade.
O serviço GIDS (Gender Identity Development Service) foi fundado na Tavistock And Portman NHS Foundation Trust em 1989, no sul de Londres, em um contexto de crescente compreensão sobre transgeneridade. Inicialmente, o atendimento visava oferecer apoio psicológico e terapêutico a jovens que enfrentavam questões relacionadas à sua autoimagem. Criado pelo psiquiatra infantil e adolescente Dr. Domenico Di Ceglie, a ideia surgiu a partir da experiência de um caso nos anos de 1980, no qual um adolescente que se identificava como menino, mas que estava “preso” em um corpo feminino.
Na década de 1990, cerca de 5% dos adolescentes atendidos se comprometiam com uma mudança de gênero. As intervenções procedimentais estavam disponíveis, mas somente se critérios rigorosos fossem atendidos, incluindo de idade. Foi um início tímido, com muitos usos de bloqueadores hormonais também sendo off-label, e pouco se sabia sobre seus efeitos a longo prazo. No entanto, no final dos anos 2000 e ao longo da década de 2010, notou-se um crescimento exponencial na incidência de crianças diagnosticadas com disforia de gênero.
Em 2009-10, o GIDS atendeu 97 crianças, quantidade que saltou para 1.419 em 2015-16. O número de pacientes do sexo feminino cresceu de 32 em 2009-10 para 1.981 em 2019-20. Esse aumento significativo ocorreu em um contexto de mudanças terminológicas da condição. Em 2013, a quinta edição do DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) substituiu o termo Transtorno de Identidade de Gênero por Disforia de Gênero, alterando a classificação de transtorno para distúrbio. Em 2018, a CID-11 (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, 11ª edição) retirou o Transtorno de Identidade de Gênero da lista de transtornos mentais e o relocou para a seção de Condições Relativas à Saúde Sexual, subdividido em três categorias de Incongruência de Gênero.
Esta mudança, inevitavelmente, atingiu os compostos químicos, com certos medicamentos usados nunca tendo sido aprovados para o propósito transitório de gênero. Barnes menciona que os agonistas do hormônio liberador de gonadotrofina (GnRHa) são predominantemente usados para tratar câncer de próstata em homens — além de serem empregados no tratamento da endometriose em mulheres. O acesso a esses fármacos passou de uma abordagem baseada na idade para uma focada no estágio de puberdade. Dessa forma, crianças que atingissem o estágio inicial da puberdade — a partir dos oito ou nove anos — poderiam ser encaminhadas para o uso de inibidores hormonais sem maiores restrições.
Devido ao aumento considerável no número de pacientes, o tempo disponível para cada avaliação foi reduzido, levando a análises menos detalhadas e decisões apressadas. Com as salas de espera sobrecarregadas, observou-se a presença de muitos adolescentes trans masculinos autodiagnosticados, que compartilhavam histórias e cortes de cabelo semelhantes. Muitos também haviam escolhido o mesmo nome, geralmente inspirado em seus YouTubers trans favoritos.
Para algumas crianças, a suposta disforia de gênero parecia ter sido precedida por um evento traumático, como a perda de um ente querido ou uma ameaça de agressão sexual. Para outras, a “identificação trans” decorria após enfrentar bullying homofóbico e sair como gay ou lésbica da ocasião. Essa correlação era tão comum que o Dr. Matt Bristow, um psicólogo clínico do GIDS, passou a ver o serviço como uma forma de “terapia de conversão para adolescentes gays”.
Esta polêmica alegação foi fortemente negada pelos responsáveis do serviço, porém é parcialmente sustentada pelos dados disponíveis. Em 2012, quando o GIDS perguntou aos adolescentes mais velhos sobre suas atrações, quase 90% das meninas disseram ser atraídas por pessoas do mesmo sexo ou serem bissexuais (67,6% e 21,1%, respectivamente). Entre os meninos, 80,8% relataram atração por pessoas do mesmo sexo ou bissexuais (42,3% e 38,5%, respectivamente).
“(...) Pode ser inacreditável para alguns que os pais prefeririam uma criança trans a uma criança gay, mas vários clínicos confirmam que, embora raro, isso acontecia. Um descreveu um pai ponderando abertamente qual seria o "melhor" resultado para seu filho — um homem gay ou uma mulher trans. Outro disse que havia famílias que não podiam "tolerar" seus filhos sendo gays: "a criança então via a transição como uma saída desse dilema, e a família pressionava a criança a seguir esse caminho”
Profissionais de outros países também observaram padrões similares em relação a avaliações inconclusivas. A Dr. Lisa Littman, pesquisadora e psicóloga norte-americana, relatou em artigos que fatores externos — descritos como Rapid Onset Gender Dysphoria (ROGD) — estavam influenciando autodiagnósticos nos Estados Unidos. Littman sugeriu que a ROGD poderia estar associado a grupos de amigos e influências de mídia social, com pré-adolescentes sendo potencialmente “contagiados socialmente” para se identificarem como transgêneros. Jovens com típicos problemas relacionados à puberdade eram inadvertidame incitados ao diagnóstico de disforia de gênero.
Funcionários do serviço GIDS expressaram suas afiliações em todos os fóruns disponíveis e continuaram a fazê-lo ao longo dos anos, mesmo após deixarem o serviço, na tentativa de pressionar a liderança a tomar providências. Entretanto, duas coisas geralmente aconteciam: muita discussão sem ação efetiva e a transformação dos críticos em bodes expiatórios, rotulados como “causadores de problemas”. A maioria dos que se manifestaram, assim como aqueles que os apoiaram ou amplificaram suas preocupações, acabou sendo forçada a deixar as instalações do Tavistock Centre.
Em 2018, David Bell, um psiquiatra e ex-membro do Tavistock Trust, publicou um exame crítico sobre a prescrição de bloqueadores hormonais para menores de idade. Seu trabalho ganhou notoriedade após o caso de Keira Bell, uma paciente do GIDS que manifestou arrependimento por sua transição. Este caso levou a um julgamento que suspendeu provisoriamente as intervenções clínicas até que as questões éticas fossem devidamente abordadas. As consequências desses “métodos experimentais” foram devastadoras para muitos adolescentes.
“Um dos maiores arrependimentos da minha vida foi ter usado bloqueadores hormonais,” diz Jacob. “Eu os usei porque estava apavorado com a possibilidade da puberdade.” Ele afirma que o GIDS deveria tê-lo preparado melhor para essa decisão, “em vez de simplesmente me prescrever essa medicação. Eu era uma criança,” continua Jacob. “Ainda não sei completamente como isso me afetou. Não sei a extensão do dano que isso pode ter causado ao meu corpo, e isso é assustador”
A autora adentra em um campo tortuoso e discute a interferência de grupos de apoio a pacientes, como a instituição de caridade transgênera Mermaids e a Gender Identity Research And Education Society, que promoviam uma narrativa afirmativa sobre a identidade de gênero. Esses grupos exerceram pressão sobre os profissionais para que priorizassem a validação da identidade de gênero em detrimento de uma avaliação clínica mais abrangente, pressionado para que disponibilizassem bloqueadores em idades mais jovens. Essa dinâmica resultou em um ambiente onde as preocupações com a saúde mental dos adolescentes eram subordinadas às demandas do ativismo.
Em 2022, uma investigação conduzida pelo jornal britânico The Telegraph revelou que a organização trans Mermaids fornecia dispositivos potencialmente nocivos, utilizados para a compressão dos seios, a adolescentes de apenas 14 anos. Em um dos casos, mesmo diante da expressa objeção da mãe de uma das meninas, a Mermaids — entidade financiada com recursos públicos e responsável por oferecer treinamentos a escolas e ao Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS) — enviou-lhe um binder, desconsiderando a autoridade parental. As evidências apontaram que a organização continuava a distribuir tais dispositivos mesmo após negativa dos responsáveis legais, além de promover práticas associadas a riscos físicos significativos e possíveis prejuízos à saúde mental de menores.
A crise no GIDS culminou com seu fechamento após a publicação de um relatório pela pediatra Dra. Hilary Cass. Cass observou que muitos funcionários do NHS relataram sentir-se pressionados a adotar uma abordagem afirmativa de gênero sem questionamentos — o que contrariava processo padrão de avaliação clínica e diagnóstico para o qual foram treinados em todos os atendimentos. Esse relatório foi um marco, destacando para o mundo a necessidade urgente de uma revisão sistemática do tratamento de pessoas com disforia de gênero. Ademais, um estudo independente revelou que aproximadamente 97,5% dos menores atendidos no GIDS apresentavam alterações psicológicas, e 70% deles sofriam de pelo menos cinco disfunções simultaneamente, incluindo ansiedade, depressão, abuso, automutilação, bullying, transtornos alimentares e tentativas de suicídio.
“Acho que o maior arrependimento é pela voz e pelo peito — os principais — e, ironicamente, são justamente as partes que não podem ser mudadas”, diz ela. (...) "Suponho que haja raiva," diz Harriet suavemente. "Não sou uma pessoa muito raivosa. Mas acho que é a frustração por haver coisas óbvias que deveriam ter sido percebidas e não foram, e a ideia de como as coisas poderiam ser diferentes. Acho que o que mais me irrita é como isso afetou outras partes da minha vida, como minha educação, meus relacionamentos, tudo, porque isso toca em tudo"
Os relatos vívidos das testemunhas se entrelaçam com dados e análises densas. O livro ultrapassa a crítica às falhas profissionais da Clínica Tavistock ao expor, com precisão jornalística, o risco representado por práticas clínicas infundadas aplicadas a jovens em condição de fragilidade emocional. Ao narrar os acontecimentos sob uma perspectiva autodiegética, Hannah Barnes não apenas relata o colapso do serviço GIDS, mas oferece um registro histórico que convida a sociedade a confrontar os erros cometidos em nome de uma agenda identitária. As futuras gerações observarão este momento com perplexidade diante da imprudência com que questões relativas à saúde mental de crianças e adolescentes foram tratadas, sobretudo no campo médico.
Links Com Informações Complementares
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